A atribuição de pensões a "anti-fascistas" tem sido abordada por vários confrades. Questiono-me sobre os motivos para tal generosidade por parte do governo e chego às seguintes hipóteses (que podem e devem ser vistas cumulativamente):
- agradar a amigos de longa data, vulgo "compagnons de routes";
- necessidade de manter bem vivo o mito da "longa resistência do povo português ao fascismo" (dixit prêambulo da constituição). Quanto mais um regime se desmorona, quanto maior a sua falência financeira e moral, maior a necessidade para os seus mentores de falar em como as coisas "antes" eram bem piores; para isso, nada como condecorar quem lutou contra o "antigamente";
- a terceira hipótese é mais especulativa mas se calhar tão ou mais real que as anteriores. Em 25 de Novembro de 1975, um sinistróide de nome Melo Antunes (que na mesmíssima ocasião entregou de mão beijada Cabinda aos facínoras do MPLA) proclamou que o PCP teria um "papel insubstituível na construção da democracia poprtuguesa". De golpe, um movimento que lutou incansavelmente para a entrada de Portugal na órbita soviética, e que naquele dia poderia muito legitimamente ter sido ilegalizado, é declarado membro de pleno direito de um regime democrático. Para uns, o homem do Grupo dos Nove mais não fez que consolidar a democracia, incorporando no seu seio um partido que assim melhor seria controlado, evitando o regresso à clandestinidade, com toda a aura "heróica" que isso acarretaria aos olhos de muito eleitores.
O que é certo é que o PCP se adaptou muito bem ao novo regime. Podendo continuar a dizer as maiores atoardas sobre a URSS e o "socialismo", arrebanhou dezenas de autarquias (sobretudo no Alentejo), controlou empresas públicas anos a fio, colocou os seus homens de mão em sectores estratégicos da economia, do jornalismo, da política. O regime acomodava assim a institucionalização de um adversário incómodo mas manipulável, que se consolava com as benesses referidas, acumuladas com as gordas contribuições de Moscovo (alguém ainda se lembra como o jornal "O Diário" sucumbiu pouco depois do colapso da URSS?).
Adversário manipulável mas incómodo. Mantendo uma grande capacidade de "luta", sobretudo via greves, o PCP nunca pôde ser demasiado hostilizado. Essa bonomia dos outros partidos na forma de lidar com os comunistas permitiu de certa forma o ressurgir do mesmo após a natural queda eleitoral subsequente ao fim da URSS. E, quinze anos após a feliz ocorrência, o PCP tem um peso eleitoral comparável ao que detinha à época. Mesmo com a morte de velhos eleitores, o partido lá vai conseguindo manter muitos bastiões eleitorais e uma boa representação parlamentar (o adiar da reforma eleitoral, com a manutenção do sistema proporcional, para tal tem contribuído).
Chegamos, assim, à minha terceira hipótese: quando se atribui ao director do "Avante!" uma pensão, será que este se tornará mais benigno nas suas críticas ao governo? Será que vai recentrar a sua ira sobre a "direita"? Amolecer-se-á? O tempo o dirá, mas se há algo que os trinta anos de abrilada mostram é como o regime não só vive bem com o PCP como precisa dele, sendo a recíproca igualmente verdadeira.
(Nota: sugiro aos leitores que deitem uma vista de olhos pelas opiniões dos leitores do "Correio da Manhã" à notícia de que deixei link no início deste texto; elas mostram bem a distância entre a classe política e o "povo".)


