quarta-feira, junho 28, 2006

Pensões de muito alimento

A atribuição de pensões a "anti-fascistas" tem sido abordada por vários confrades. Questiono-me sobre os motivos para tal generosidade por parte do governo e chego às seguintes hipóteses (que podem e devem ser vistas cumulativamente):
- agradar a amigos de longa data, vulgo "compagnons de routes";
- necessidade de manter bem vivo o mito da "longa resistência do povo português ao fascismo" (dixit prêambulo da constituição). Quanto mais um regime se desmorona, quanto maior a sua falência financeira e moral, maior a necessidade para os seus mentores de falar em como as coisas "antes" eram bem piores; para isso, nada como condecorar quem lutou contra o "antigamente";
- a terceira hipótese é mais especulativa mas se calhar tão ou mais real que as anteriores. Em 25 de Novembro de 1975, um sinistróide de nome Melo Antunes (que na mesmíssima ocasião entregou de mão beijada Cabinda aos facínoras do MPLA) proclamou que o PCP teria um "papel insubstituível na construção da democracia poprtuguesa". De golpe, um movimento que lutou incansavelmente para a entrada de Portugal na órbita soviética, e que naquele dia poderia muito legitimamente ter sido ilegalizado, é declarado membro de pleno direito de um regime democrático. Para uns, o homem do Grupo dos Nove mais não fez que consolidar a democracia, incorporando no seu seio um partido que assim melhor seria controlado, evitando o regresso à clandestinidade, com toda a aura "heróica" que isso acarretaria aos olhos de muito eleitores.
O que é certo é que o PCP se adaptou muito bem ao novo regime. Podendo continuar a dizer as maiores atoardas sobre a URSS e o "socialismo", arrebanhou dezenas de autarquias (sobretudo no Alentejo), controlou empresas públicas anos a fio, colocou os seus homens de mão em sectores estratégicos da economia, do jornalismo, da política. O regime acomodava assim a institucionalização de um adversário incómodo mas manipulável, que se consolava com as benesses referidas, acumuladas com as gordas contribuições de Moscovo (alguém ainda se lembra como o jornal "O Diário" sucumbiu pouco depois do colapso da URSS?).
Adversário manipulável mas incómodo. Mantendo uma grande capacidade de "luta", sobretudo via greves, o PCP nunca pôde ser demasiado hostilizado. Essa bonomia dos outros partidos na forma de lidar com os comunistas permitiu de certa forma o ressurgir do mesmo após a natural queda eleitoral subsequente ao fim da URSS. E, quinze anos após a feliz ocorrência, o PCP tem um peso eleitoral comparável ao que detinha à época. Mesmo com a morte de velhos eleitores, o partido lá vai conseguindo manter muitos bastiões eleitorais e uma boa representação parlamentar (o adiar da reforma eleitoral, com a manutenção do sistema proporcional, para tal tem contribuído).
Chegamos, assim, à minha terceira hipótese: quando se atribui ao director do "Avante!" uma pensão, será que este se tornará mais benigno nas suas críticas ao governo? Será que vai recentrar a sua ira sobre a "direita"? Amolecer-se-á? O tempo o dirá, mas se há algo que os trinta anos de abrilada mostram é como o regime não só vive bem com o PCP como precisa dele, sendo a recíproca igualmente verdadeira.
(Nota: sugiro aos leitores que deitem uma vista de olhos pelas opiniões dos leitores do "Correio da Manhã" à notícia de que deixei link no início deste texto; elas mostram bem a distância entre a classe política e o "povo".)

terça-feira, junho 27, 2006

A pouca vergonha soma e segue

Duas notícias trazidas pelo indispensável "Tomarpartido" prometem fazer correr... pouca tinta, tal é a habituação dos portugueses à pouca vergonha e tal é a manipulação mediática vigente:
- promiscuidades entre a justiça e o mundo do futebol;
- uma cunhazita no governo para a filhota do ex-PR.
Business as usual. Ou, em bom português, tudo como antes no Quartel-General de Abrantes.

segunda-feira, junho 26, 2006

George Orwell

O nosso amigo "Euro Ultramarino" relembrou ontem a passagem dos 103 anos sobre o nascimento de Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell. Este é um dos poucos escritores de quem li quase tudo antes dos 16 anos. Comecei pelo "1984", que devorei no ano a que o título alude; seguiram-se "Animal Farm", "Homenagem à Catalunha", "Dias da Birmânia", "Na Penúria em Paris e em Londres", etc.
Para muita gente de direita, Orwell, o socialista, o anti-colonialista, o a-religioso, é um escritor de referência pela denúncia que fez do estalinismo e dos métodos de actuação do "comunismo em prática", de que sofreu na pele nas ruas de Barcelona nos finais da guerra civil de Espanha. Para mim é, independentemente das suas ideias (recorde-se que combateu como voluntário em 36-39 no seio de um movimento trotskista, o POUM de Andrés Nin), uma figura ética, alguém que defendeu as suas ideias com coerência e coragem, que não maquilhou a realidade para melhor "vender o seu peixe" (como era - e é - prática corrente da esquerda) e que escreveu um dos livros fulcrais do século XX: "1984". A denúncia do universo estalinista e, por extensão de todos os totalitarismos, ainda hoje impressiona, sobretudo por facilmente nela reconhecermos situações bem concretas das nossas sociedades democráticas actuais. (O capítulo final sobre a Novilíngua é disso um exemplo.)
E se os métodos actuais são menos brutais que os descritos por Orwell, a sua insidiosidade merece ainda mais uma denúncia vigorosa, pela hipocrisia inerente à implementação em curso de uma tirania planetária, que conjuga "princípios" esquerdistas com o capitalismo mais desbragado, num casamento de conveniência que mergulha os povos na servidão.
Que o exemplo de Orwell nos guie na denúncia dos totalitarismos que ameaçam a liberdade dos povos.

Escravatura: mitos e realidades

Não se trata de branquear (é o termo!) a escravatura mas o que é certo é que a propaganda, desde os tempos da guerra civil americana, caracterizou em termos caricaturais aquela antiquíssima instituição. O trabalho dos historiadores é recorrer às fontes mais fidedignas e tentar mostrar como as coisas efectivamente funcionavam.
Sabem os estimados leitores, por exemplo, que décadas antes da citada guerra civil havia negros livres que detinham escravos negros? E que havia negros libertados da escravidão que requeriam o regresso à situação anterior?
A ler aqui (via o indispensável "Revista de Teoria Política".)

sábado, junho 24, 2006

desNorte

É certo que mais vale tarde que nunca, mas é lamentável que só hoje, ao acaso de uma pesquisa na internet, tenha descoberto o blogue "desNorte", que abeira os dois anos de existência. Dedica-se não em exclusivo mas sobretudo à música clássica, sendo por isso de visita obrigatória para todos os melómanos.

Dia 1 de Portugal

É com o belo título que também encima este postal que o blogue "Vimaranês", que é, como se constata, muito mais que um simples blogue de divulgação da actualidade ligada ao grande Vitória Sport Clube, evoca mais um 24 de Junho, data em que se travou a Batalha de S. Mamede, em que saíu vitorioso D. Afonso Henriques e em cujo sucesso assentam as bases da nacionalidade.
Confesso que é com grande emoção que vejo como um jovem de 21 anos tem uma consciência tão aguda das datas fundacionais da Pátria e das raízes da nacionalidade. Bem haja, caro Vimaranês.
E viva Portugal!

quinta-feira, junho 22, 2006

Revisionismo da Primeira Guerra Mundial

«Os EUA deveriam ter ficado à margem da Primeira Guerra Mundial. Se não tivessem entrado na guerra os aliados teriam assinado a paz com a Alemanha em 1917. Com a paz assegurada não teria havido o advento do comunismo na Rússia, do fascismo em Itália e a Alemanha não teria assinado o tratado de Versalhes, que conduziu ao fenómeno do nazismo. Se os EUA tivessem ficado fora da guerra (...) mais de um milhão de vidas britânicas, francesas, americanas e de outras nacionalidades teriam sido poupadas.»
De quem são tão contundentes palavras sobre o resultado da intervenção americana no conflito de 1914-18? De um buldogue chamado Winston Churchill, em 1936, quando um novo conflito mundial já se divisava no horizonte.
Saiba também como um relatório falso sobre alegadas atrocidades alemãs conduziu ao bloqueio da Alemanha durante sete meses após o armistício de 1918, provocando a morte estimada de 600.000 alemães, naquilo que o historiador Thomas Fleming considera a maior atrocidade cometida naquele conflito.

Ler mais no blogue da "Causa Liberal", em quatro postais sobre o conflito: 1, 2, 3 e 4.

Discriminação?

A chamada "Operação Oriente", levada a cabo pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), e que conduziu ao fecho de dezenas de restaurantes chineses, está a preocupar não só a comunidade aqui residente como já levou inclusive o Diário do Povo (edição internacional) a publicar um artigo sobre o tema.
Não me apercebi de nenhum mea culpa por parte de restauradores ou de qualquer chamada de atenção da embaixada junto dos seus conterrâneos que se dedicam a esse negócio. Em contrapartida, «a comunidade chinesa e a Comissão para a Igualdade Contra a Discriminação Racial acusaram a autoridade [a ASAE] de potenciar a xenofobia e a estigmatização dos chineses». Nem mais. À falta de melhores argumentos, e mostrando implicitamente que a ASAE tinha razão em proceder como procedeu, recorre-se às "palavras mágicas" que abrem tantas portas hoje em dia: discriminação, racismo, xenofobia.
Estando o poder político e jornalístico, qual cão de Pavlov, condicionado pelo peso que tais epítetos têm hoje em dia, nada como atirá-los para o ar a ver se se obtém o que se pretende; no caso: o fim das inspecções a restaurantes chineses ou, quem sabe, o aviso prévio de que vai haver uma inspecção... A ditadura das palavras, o condicionamento da opinião, o reflexo condicionado: nada a que Pequim não esteja habituado e não pratique há décadas; e que criou raízes no Ocidente desde que os admiradores da Revolução Cultural maoísta foram ganhando peso nas universidades e, com o passar dos anos, foram assumindo lugares de relevo na política e na imprensa. Na maior parte dos casos, recauchutados, mas sempre fiéis aos "velhos" princípios. Para nossa desdita.

quarta-feira, junho 21, 2006

Livre livro

Há blogues e blogues. Há blogueiros e blogueiros. Há quem escreva mal, há quem escreva benzinho e há quem escreva com superlativa qualidade, mestria, domínio da língua e variado vocabulário. Mas também há quem escreva bem e não tenha nada de especial a dizer, ou diga coisas que mais valia ficarem na antecâmara do "edit post".
E depois há os poucos que escrevem muito bem e têm uma visão aguda do que os rodeia, que mostram inconformismo na análise e desconformidade actuante com os cânones "aceitáveis" do seu tempo. E se, a estas qualidades, somam um soberbo sentido de humor, sabemos que estamos na presença de um blogue indispensável (ou incontornável, na horrorosa expressão da Novilíngua).
É este o caso do "Nova Frente" e do seu autor Bruno, que tenho o prazer de conhecer, embora o veja ao sabor de "jantares mensais que se realizam semestralmente", na sábia expressão do mesmo. A Antília, editora que nos trouxe já duas obras póstumas de Rodrigo Emílio, prossegue na senda da excelência, dando oportunidade ao blogue que se aproxima dos três anos de vida de mostrar em suporte papel a excelência da sua escrita.
Como é óbvio, estamos longe dos "blogues tornados papel" impregnados de textos que reproduzem ad nauseam as litanias politicamente correctas prontas a servir a leitores pouco exigentes. A escrita do Bruno é acutilante, nunca deixa o leitor indiferente, incomoda, suscita críticas (favoráveis e desfavoráveis), tem a inquietude dos homens livres que só descansam se disserem o que têm a dizer.
A pena do Bruno teria tudo para fazer dele um homem de letras idolatrado pelo regime, bastava que a usasse ao serviço daquele. Coisa que um espírito independente rejeita e não há euros que o demovam; coisa também rara nos tempos que correm, está bem de ver. Céline, um dos mestres do nosso blogueiro, dizia que, se quisesse, podia ter sido o grande escritor de "gôche"; e nós acrescentamos que, com o seu talento, era entrada certa na Academia Francesa, estudo obrigatório nos liceus, programas especiais na televisão, estátuas e toponímia. Garantido. Mas o homem era livre e livre morreu. O nosso Bruno também é fiel às suas ideias e não aos holofotes da fama e ao vil metal. Por isso o respeitamos e o lemos. Por isso "os outros" o ignoram (com mal disfarçada inveja) e vão ocultar este lançamento editorial de excepção. Cabe-nos a nós contrariá-los nos seus intentos, lendo-o e divulgando-o.

terça-feira, junho 20, 2006

O aborto é um direito?

Sabia que «o direito a abortar é um direito humano internacional»? E que por causa desse "direito" o governo eslovaco caíu? É a UE em acção, pois claro.
A ler aqui.

(Via "Letras com Garfos".)

O combate de Le Pen

Sempre atento, o Paulo escreve um postal com um elogio para mim inesperado à figura de Jean-Marie Le Pen.
Concordo genericamente com a sua análise, desejando contudo acrescentar o seguinte:
- não me apercebi que JMLP tenha renegado o ultra-liberalismo; essa tem sido, aliás, uma das incoerências ideológicas que lhe são apontadas;
- além dos apoios equívocos que o Paulo cita, poder-se-ia também referir a sua amizade com esse criminoso que se chama Vojislav Seselj;
- o seu apego à liderança continua a adiar o problemas da sucessão; passe a comparação pouco apropriada, qualquer dia o homem morre e sucede-lhe um Marcelo Caetano;
- as suas gaffes de linguagem foram realmente infelizes, mais ainda porque deram alimento aos seus histéricos detractores (chamar "Durafour crématoire" ao deputado do CDS Durafour é de um mau gosto extremo e, segundo alguns, revela bem o carácter do personagem).
JMLP foi de facto inteligente ao explorar o filão da questão da imigração para crescer eleitoralmente; crescimento esse que coincidiu com a trágica chegada ao poder de Mitterrand, em 1981, com os efeitos nefastos e irreversíveis para a França que todos conhecemos; o choque ideológico que daí resultou reforçou o peso do FN, enquanto que a vaga imigratória que o PS propiciou e incentivou atirou para os braços do Front muita da classe operária que votava tradicionalmente no PC”F”.
Em suma, pode dizer-se que Le Pen corporiza as contradições do nacionalismo moderno, desde a forma como aborda a questão da imigração, passando pelas alianças com sectores mais tradicionais do catolicismo em choque com outros sectores mais “modernos” ou mesmo declaradamente pagãos. A sua dedicação corajosa e intransigente à causa da “França francesa” fica sempre como um exemplo da atitude requerida para um combate desigual e visto, ó quão frequentemente, como perdido.
A forma como o sistema reagiu à ascensão do Front mostra também as limitações que mesmo um movimento de grande peso eleitoral enfrenta nas democracias modernas: mudança do sistema eleitoral proporcional para um sistema maioritário (que vem impedindo o partido de ter deputados na Assembleia Nacional), perseguição mediática, diabolização pelos políticos e pelo próprio sistema educativo – e, sobretudo, impotência para mudar o rumo da decadência francesa nas diversas facetas que a caracteriza e que foram sempre denunciadas pelo movimento.

Os altos e baixos dos maoístas

Numa altura em que os criminosos guerrilheiros maoístas do Nepal se preparam para participar num governo de transição, ocasião para lembrar que a praga maoísta não se circunscreve ao reino, espalhando o seu terror na Índia, onde está presente em um terço dos estados. Na sexta-feira um dos seus líderes foi morto pela polícia no estado de Andhra Pradesh.
Num país historicamente cheio de contrastes sociais, a vaga de crescimento económico da última década, de que vem beneficiando parte da classe média-alta urbana, não traz obviamente os seus frutos à grande maioria, que continua, tanto em meio rural (1) como nos bairros de lata das grandes cidades (2), a vegetar num estado de miséria latente.
A acção maoísta faz-se sentir no centro e sul do território, em áreas de desenvolvimento estagnado, tendo maior apoio junto dos camponenses sem terra. Os rebeldes visam a criação de um estado comunista abarcando áreas rurais dos estados de Andhra Pradesh, Maharashtra, Orissa, Bihar e Chhattisgarh. O governo central estima em 10.000 o número de rebeldes maoístas armados. Contam-se aos milhares as vítimas das suas acções nas últimas três décadas.
(1) São frequentes os suicídios de camponeses pobres que não conseguem saldar as suas dívidas perante os usurários.
(2) Só Calcutá tem um bairro de lata onde se estima viverem 5 milhões de pessoas.

segunda-feira, junho 19, 2006

Acções dos insurgentes iraquianos em queda



(Desenho de Cam, "The Ottawa Citizen".)

Delete

Constatei que nos últimos tempos vários blogues que tinham link para o meu o retiraram. Por comodidade, posso classificar alguns deles como à minha esquerda e outros à minha direita. Mas possivelmente pelo mesmo motivo - receio de más companhias - subtraíram aos seus Favoritos este "Horizonte". No total serão uns sete ou oito os blogueiros zeladores da moral e bons costumes da sua ortodoxia respectiva. Por reciprocidade imitei-os. Que passem muito bem.

domingo, junho 18, 2006

Fabre-Luce e o Novo Mundo

Sendo o meu amigo Paulo admirador de Alfred Fabre-Luce, aqui lhe deixo um excerto de um artigo publicado na edição de Dezembro de 1958 da Ecrits de Paris (que nas minhas mãos ameaça transformar-se em pó, passe o exagero), que certamente desconhece, sob o título "Architectures", em que o autor disserta sobre o urbanismo da América do Norte e do Sul. Pensei primeiro em traduzi-lo para os leitores menos versados na língua de Molière mas preferi por fim manter o original, respeitando a magnífica escrita de Fabre-Luce.
«Une certaine ivresse de la destruction est sensible dans tout le Nouveau Monde. A New-York, dès qu'un imeuble est condamné, de grands X en papier viennent barrer ses fenêtres et se multiplient à mesure que les locataires déguerpissent. Le chauffeur de taxi, en passant, désigne au mépris de son client ce bétail de pierre, marqué pour l'abattoir. Dissiper en un jour l'effort de toute une année: telle est, selon les ethnographies, l'essence d'une fête primitive. En ce sens, les Américains sont des primitifs. Ce qui les exalte, me dira-t-on, n'est pas la destruction, mais la construction qui suivra. J'en doute, car au rythme présent de l'invention, tout ce qui est édifié est dejà dépassé en esprit. A travers tout monument neuf on en aperçoit un autre en filigrane. L'Amérique n'adore pas, comme on le croit, le réel, mais l'imaginaire.»

sábado, junho 17, 2006

Depois do dilúvio

«Nós já viemos depois do dilúvio! Não nos pertence nenhuma responsabilidade nesse passado de ruína e de suicídio que lá vai sumido, do qual só conservamos a lembrança para nos servir de lição proveitosa. Os horizontes da nossa mocidade sentem-se carregados pela apreensão do dia de amanhã. Achamo-nos vítimas de erros que não cometemos. Por isso, se nesta hora amarga só existimos para o cumprimento dos nossos deveres, há um direito de que não abdicamos - o direito supremo de acusar!
«Nós não somos patriotas por sermos monárquicos. Somos antes monárquicos por sermos patriotas. Pondo a nacionalidade como razão e fim de nós próprios, concluímos na necessidade do Rei como elemento orgânico do seu prestígio e da sua existência. Assim, não condescendemos por honra nossa com os sofismas e com as ficções que durante quase um século tornaram Portugal num seminário fecundo de incompetentes e aventureiros. (...)
«À sombra duma doutrina de salvação nacional, não é neste momento a mocidade portuguesa que enfileira unicamente. São os nossos Mortos, são as virtudes de sempre, as virtudes rurais e guerreiras dum povo, já imortalizado na história do mundo como um dos pioneiros mais nobres da civilização. O Sangue recupera os seus direitos esquecidos. E porque o Sangue os recupera, os fantasmas ideológicos da Revolução empalidecem na sombra e na sombra se desfazem.»
António Sardinha, "Na Feira dos Mitos", 1926.

sexta-feira, junho 16, 2006

Música e totalitarismo

São bem conhecidas as dificuldades que enfrentavam os compositores soviéticos em poder dar livre expressão aos seus sentimentos musicais. Quando a estética de uma obra se afastava do "realismo socialista" era-lhe logo aposto o rótulo de obra "formalista", um termo que punha os criadores numa situação de quase párias. Muitos compunham então obras mais "épicas" (em particular no período da II Guerra) que, a despeito de se conformarem melhor com as exigências oficiais, nem por isso deixavam muitas vezes de ter um enorme valor artístico, de que é exemplo a Sétima Sinfonia de Shostakovitch ("Leninegrado").
O grande pianista Andrei Gavrilov (n.1955) analisou, numa óptica necessariamente subjectiva, o peso da opressão estalinista reflectido nas Sétima e Oitava Sonatas para Piano de Prokofiev. Dêmos-lhe a palavra:
«A atmosfera de ansiedade e medo em ambas [as sonatas números sete e oito], os tons arrepiantes e o tema recorrente do som das batidelas na porta trazem-nos de imediato à mente uma época que todos desejaríamos esquecer mas não podemos.»
Gavrilov aborda de seguida a Sétima Sonata:
«Desejando parodiar os sons associados aos Pioneiros, exemplo acabado da juventude soviética artificialmente alegre mas oca, Prokofiev introduz o seu tema nos primeiro e terceiro andamentos, pondo em relevo os monstrozinhos que denunciam familiares, que se consideram a si próprios como "heróis" e proclamam como a mais absoluta das verdades a propaganda oficial. Embora a agressão seja o sentimento dominante existem momentos líricos maravilhosos no primeiro andamento. Mas a agressão triunfa e esse andamento termina com os temas recorrentes da ansiedade, medo e batimentos na porta. (...)
O final é, estou em crer, um dos mais impressionantes retratos do totalitarismo na literatura pianística. Rivaliza com o tema da "invasão" [pelas tropas alemãs, um motivo de um crescendo arrepiante - Nota de FSantos] na Sétima Sinfonia de Shostakovitch. (...) O final da Sétima Sonata constitui a apoteose da violência - a brusca, mecânica e metódica destruição de todo o ser vivo.»
Abordando a Oitava Sonata, a minha preferida, Gavrilov refere que está «imbuída de uma expressão muito pessoal e espiritual (...) e eu oiço antes de mais a dor do compositor.» Esta sonata é de facto mais pessoal e atinge cúmulos de expressividade, tanto nos temas mais lentos como nos mais rápidos, de que é paradigma o final do terceiro andamento, de resto de terribilíssima dificuldade de execução, exigindo-se ao pianista superior capacidade técnica e também a capacidade de expressar musicalmente a angústia do compositor.
Para quem não conhece estas obras fundamentais da música do século XX recomenda-se que rapidamente ponham cobro a essa lacuna. Os que têm a felicidade de já as ter ouvido compreenderão o meu conselho.
Boa música.

terça-feira, junho 13, 2006

Três meses

Há três meses precisos nasceu este blogue. O parto, mais do que difícil, foi inesperado para todos. Instado por duas dezenas e meia de leitores e amigos a não acabar com o "Santos da Casa", decidi-me a criar este "Horizonte".
O meu primeiro blogue foi sem dúvida aquele que me deu maior gozo criar. Nascido em Outubro de 2004, quando a blogosfera efervescia em polémicas e havia uma certa euforia blogueira que se desvaneceu com o passar do tempo, servi-me de uma maior disponibilidade de tempo que aquela de que hoje disponho para manter um ritmo apreciável de postais diários (entre 2 a 3, em média). Rapidamente, mais uma vez com o precioso contributo de alguns veteranos que amavelmente anunciaram o nóvel blogue, angariei entre 100 a 120 visitas diárias (com certas notícias cheguei às 180, quase o triplo das visitas diárias deste "Horizonte").
Por contingências diversas, o "Santos da Casa" emigrou, ressurgindo na versão "Blogger". Era uma época em que o tempo já me escasseava e aquela versão imigrada sentia-se tão desenraízada como um imigrante autêntico. Já não era o mesmo blogue, com actualizações mais esporádicas e menos textos doutrinários e literários. Por isso nasceu este "Horizonte". O projecto era já outro: tentando manter-se um olhar atento sobre as misérias deste mundo, já não havia a obrigação da actualização frenética; o tempo, as notícias, passaram a fluir ao ritmo evocado no postal anterior; os leitores rapidamente se aperceberam e começaram a desertar, afinal de contas passando por aqui menos amiúde rapidamente se punha a leitura em dia.
Esta abordagem nova coincide (digam-me se estou errado) com uma fase não diria de desgaste mas claramente de menor fulgor na blogosfera nacional: os veteranos procuram manter a chama, o que não é sempre fácil, os leitores sentem que já não há muitas coisas novas a aprender com os blogues, servindo estes sobretudo como "consolo" perante a mediocridade e censuras mediáticas. A nossa blogosfera apropriou-se do nome de um dos blogues de referência, tornando-se um último reduto de liberdade e livre expressão de ideias. Que não perca esse frescor e se não deixe cair nas teias do "politicamente correcto do politicamente incorrecto" e que saiba arvorar, digna e altaneira, a chama das mentes livres.

segunda-feira, junho 12, 2006

Na dupla sombra das árvores

Dia de férias: para descansar do bulício diário, para fugir da rotina (profissional e familiar) - para fruir, demoradamente.
Um bom romance na mão, à sombra de uma árvore protectora da inclemência do sol, no Parque dos Moinhos de Santana, ao Restelo. As páginas sucedem-se imperceptivelmente, a narrativa de Sir Walter Scott prende o leitor, que só a espaços se apercebe do canto dos pássaros, dos gritos longíquos das crianças.
Mais tarde, outra deambulação pelo ocidente lisboeta: Belém. Local específico: Jardim Tropical (outrora com o nome politicamente incorrectíssimo nos dias de hoje de Jardim Colonial). É sempre um prazer fulanar pelas áleas de espécies arbóreas oriundas dos cantos do mundo onde também se fez nome Portugal. O sossego do local, entrecortado por gritos de patos e outras aves, convida à meditação, à leitura, a fechar os olhos e esquecer a cidade lá fora.
Neste momento decorre no local uma interessantíssima exposição de nome "Na dupla sombra das árvores". Exposição de fotografias apostas em telas transparentes, pousadas na sombra das árvores de grande porte do jardim, retratam vivências de África, da África profunda ainda pouco profanada pela modernidade e pela globalização. Cenas de trabalho, cenas de crianças, cenas de um mundo que parece passado e que será um dia tragado pela velocidade da mudança na nossa era. O despojamento das obras fotográficas casa perfeitamente com a simplicidade das vidas tradicionais, num cenário pobre mas digno. A sombra das árvores, o marulhar dos ramos, a brisa ligeira que abana levemente as telas, constituem um enquadramento soberbo para esta exposição invulgar.

domingo, junho 11, 2006

Liberdade para... odiar

Sem comentários. Ou é da minha vista ou a ilustração, a par de um crucifixo e de um crescente, omite uma estrela de David a caminho do caixote do lixo. Certamente por a peça constituir uma «crítica aos mecanismos de culpa, às ideias que sabotam a liberdade (...)».