domingo, dezembro 31, 2006

Bom ano?

A necessidade dos homens em balizar temporalmente a sua vida leva a que se criem rituais de celebração de determinadas datas e consequente avaliação do que se passou no período que finda. A passagem de ano é propícia a balanços, análises e prospectivas, algo a que a blogosfera também não fica alheia.
Para 2007 desejo algumas coisas mas se calhar não espero que se concretizem muitas. Para além dos desejos que envolvem família e trabalho, o meu Belenenses não poderia faltar, posto que está na corrida para voltar a ser campeão nacional de andebol, 13 anos depois, com uma equipa 100% portuguesa e quase totalmente composta por jogadores com menos de 23 anos.
Gostava de ver daqui a um ano os blogues que mais prezo ainda pujantes de actividade e inconformismo; gostava de ver relançado um debate frontal e honesto sobre os desafios do nacionalismo português.
Gostava de ver a juventude deste país cada vez mais interessada pela sua história e cultura. Gostava de ver as salas de concerto, os museus, as boas livrarias mais procurados pela mocidade desta terra.
Gostava de ver abrir cada vez mais brechas no podre sistema que nos vem desgovernando há décadas, demonstrando uma inépcia, uma desonestidade e um ardor anti-nacional insuperáveis.
Penso que eu e muitos outros que "por aí andam" podem, cada um à sua maneira, dar o seu contributo nesse sentido, nunca esquecendo que se trata de uma tarefa árdua e de longo prazo. Mas é para isso que cá estamos e gritamos: PRESENTE!

Nonices

Antes de mais, torna-se necessário um esclarecimento: muitos leitores de blogues ouviram já falar num tal Nonas, misterioso ser que por vezes nos presenteia com comentários de vibrante portismo e algumas outras coisas acabadas em "ismo". Fiquem os que o não conhecem sabendo que o personagem é um dos principais municiadores de doutrina e informação alternativa dos blogueiros da área nacional. Ele são CDs com dezenas de textos, de Alfredo Pimenta a António Sardinha, de Rodrigo Emílio a Robert Brasillach; ele são dezenas de mails por semana com notícias que não vale a pena procurar nos media - porque lá não aparecem, posto que não ultrapassam o purgatório da democrática censura.
O nosso amigo é além disso - nosso amigo: um camaradão como já não há muitos, amigo do seu amigo, generoso, companheiro, mordaz, irónico e munificente em disponibilidade para nos ouvir.
A notícia de que finalmente se decidiu a abrir um blogue só pode ser saudada. Mas atenção: seres frágeis, sensíveis e democratas de alto coturno devem lá passar de mansinho e levar previamente já no bucho uns comprimidos de valeriana - quem vos avisa vosso amigo é...

sábado, dezembro 30, 2006

(Mais uma) vitória para a democracia

Já aqui o disse e repito: Saddam Hussein foi um ditador brutal e mesmo sanguinário, que nunca hesitou em cometer massacres para reforçar as suas rédeas no poder. Desde os primeiros momentos como presidente, quando designou sadicamente, numa assembleia do Baath, os elementos que iria eliminar, que Hussein deixou a sua marca.
Mais do que ninguém, iraquianos (e iranianos) sofreram na pele a sua governação despótica e pouco preocupada com as necessidades do povo. Poder pelo poder, poderia ser a sua divisa.
A sua execução nesta madrugada foi em especial saudada por xiitas e por... democratas ocidentais, em particular George W. Bush, que nela viu uma marca do avanço democrático no país que invadiu, desgovernou e ajudou a lançar numa feroz guerra civil. Responsável por dezenas de milhar de mortos, pela inépcia, falta de planeamento, messianismo democrático e desleixo que a sua administração demonstrou, Bush nunca será julgado pelos seus crimes. Tal como Blair, outro impecável democrata.
Muito na sombra em todo este processo, Israel vai marcando pontos na sua agenda internacional. Um Iraque dividido ou mesmo retalhado será algo sempre do agrado do estado sionista, que vai vendo com satisfação ruírem os últimos vestígios de pan-arabismo.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Os "pela morte"

Só agora reparei que, com a mudança efectuada ao template deste blogue, me esqueci de listar os blogues que defendem a vida, algo que agora se repõe.
Um desses blogues, o Razões do Não, fala-nos da campanha do Bloco de Esquerda e do infeliz (adjectivo que é redundante sempre que se fala nas actividades daquele agrupamento) cartaz que já por aí anda a infestar as nossas cidades, no qual se vê «dois homens de blusão e óculos escuros [que] conduzem pelo braço uma mulher que tapa a cabeça e os ombros com um casaco. Um enorme Sim e a frase “para acabar com a humilhação” concluem a mensagem.»
Esta é a típica argumentação modernista que tão bem vem caracterizando há dois anos e meio o nosso amigo Corcunda. Numa era em que, na sequência das "lutas de Maio de 68", tudo ou quase tudo é permitido; em que a governação, para além da satisfação dos grupos de pressão que a sustentam, se subjuga às pressões da rua; segue que qualquer humilhação de certos grupos de pessoas é manifestação de repressão ou fascismo, incompatível com as liberdades de Abril. Portanto, a palavra de ordem é "fim à proibição", ou seja, "liberalização".
Abandona-se qualquer concepção de valores que não seja a "autorização", esquecem-se os princípios que devem nortear uma sociedade que se pretenda sã e harmoniosa, estimulam-se as reivindicações sem fim. Levando esta postura ao seu limite lógico, por que motivo é que se continua a "humilhar" os pedófilos? E os violadores? E os incestuosos? Porque não legalizar a necrofilia?
A lógica de "reprimir a repressão" leva as sociedades ocidentais ao abismo com uma velocidade arrepiante. Mas não será esse o objectivo dos seus mentores: acabar de vez com a civilização ocidental?

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Ligações

O corajoso autor do blogue Admirável Mundo Novo sugere-nos um site de informação alternativa, o Projecto Grifo, que à primeira vista parece ter bastante interesse. Está já na lista de ligações a que chamei "Informação Alternativa". Esta lista foi de resto aumentada com páginas dos EUA, Brasil e Itália. Todas elas merecem a vossa consulta frequente, tal o seu manancial de informações, que normalmente não chegam às rotativas da grande imprensa. Coisas da "era da (des)informação".

terça-feira, dezembro 26, 2006

Em vão?

Quantos blogueiros se reconhecerão no retrato do jornalista verdadeiramente independente feito por Camilo em "Coração, Cabeça e Estômago"?
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«O jornalista austero será sempre um ente malsinado e odioso para todos os governos. Hão-de expulsá-lo sempre do sacrário poluto das mercês, onde reina o ladrão laureado, que tem o segredo de abater ministros erguidos, e exaltar ministros despenhados.»
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Desejo sinceramente que o valor dos blogues nacionais não seja confrontado com o resultado desolador do labor do malsinado Silvestre:
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«Partiu o braço, querendo parar o movimento da roda. Desbaratou a melhor parte do seu património em publicações panfletárias, que não rasgaram sulco algum para as searas do futuro progresso da humanidade. Criou inimigos, que nem sequer lhe tidam lido as diatribes, nem lhe podiam perdoar as graças do estilo - inimigos que não sabiam ler, os piores de quantos há.»

Neo-neo-realismo

Ontem, o programa "Poesia e Música" da Antena 2 não arranjou melhor poesia para celebrar o dia de Natal que a de Joaquim Namorado, uma das figuras do neo-realismo português. E logo com um poema a satirizar a sociedade, claro. Mesmo em dia santo (ou precisamente EM dia santo) a ideologia mostra as suas garras vigilantes.

sábado, dezembro 23, 2006

Dickens e o espírito de Natal


«There seems a magic in the very name of Christmas.» (Charles Dickens)
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Desde jovem que para mim o espírito de Natal está antes de mais expresso nas magníficas páginas de Charles Dickens. Seja no clássico "A Chistmas Carol", que narra a metamorfose do mesquinho Scrooge, que acaba por ser conquistado pelo significado humano do Natal, seja indirectamente nas obras em que o protagonista é um jovem, como em "Oliver Twist" ou "David Copperfield".
E isto porque o genial escritor representou sempre as crianças como vítimas inocentes da maldade dos adultos, embora não seja raro que estes por vezes se sensibilizem para os valores humanos mais puros. Num mundo de egoísmos, de ganância, de luta pelo poder, são as crianças as primeiras vítimas dos confrontos dos adultos. Lançado num turbilhão de conflitos e paixões, o jovem de Dickens tenta sobreviver e agarrar-se ao mais leve sinal de calor humano que encontre.
Não há outra época do ano em que essa necessidade melhor se expresse que no Natal, momento em que até os adultos parecem querer sucumbir aos seus encantos, agarrando-se às memórias de infância, às luzes de um passado mais distante pela transformação ocorrida nas suas vidas que pelo simples passar dos anos.
A comemoração do nascimento do menino que veio salvar o mundo é dos poucos sinais de transcendência que o homem contemporâneo pode alcançar. Subvertido pela glorificação do consumo e pela avalanche de ofertas e embrulhos que quase ocultam o pinheiro, o Natal está em vias de sofrer a última derrota face ao materialismo cego que Dickens sempre denunciou, valorizando o que de bom há no homem, criatura sempre propensa a lançar-se no abismo e a esquecer as virtudes que Deus lhe concedeu.
Por uns dias creiamos que esse combate não está perdido e que um dia nos corações dos homens se iluminará perenemente uma luz tão brilhante como a que guiou os Reis Magos há dois milénios.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Distinção

E agora uma notícia mais agradável: este blogue foi eleito, por um painel de 34 votantes, o 5º melhor blogue português. Pese o exagero da distinção, não deixo de ficar satisfeito por ver reconhecido o valor desta vossa casa. Os meus agradecimentos aos votantes e em especial ao Restaurador, um grande amigo do "Horizonte" e animador desta iniciativa com um nome muito bem escolhido: "Conjurados 2006".

Os inversores

O governo espanhol anunciou hoje que vai financiar a 100% mudança de sexo a partir de 2008. Leram bem: 100%. Numa altura em que todos os governos da União Europeia tentam (supostamente) cumprir critérios de disciplina orçamental, o governo do PSOE define como prioritário financiar as pataletas mentais de alguns invertidos.
É patético (e sinistro) verificar como a esquerda, perante a evidência do fracasso do seu modelo económico - e consequente aceitação do capitalismo como melhor forma de afectação de recursos e produção de riqueza na sociedade -, se tem virado para uma ofensiva aos valores antigamente epitetados pelos comunistas e alguns socialistas como "burgueses" e que mais não é que o desmontar, peça a peça, a estrutura tradicional (ou o que resta dela) das nossas sociedades ocidentais, assentes na célula familiar.
O que está em causa é uma revolução imposta pelo poder, apoiada pela comunicação de massas às ordens e inoculada numa população cada vez mais amorfa e mergulhada nas precupações do quotidiano e no divertimento tornado objectivo máximo da existência.
Quando (e se) acordarem será demasiado tarde.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Uranus

Recebi há dias uma encomenda em que se incluía o DVD de "Uranus", a adaptação cinematográfica da obra-prima de Marcel Aymé, realizada por Claude Berri em 1990.
O filme é verdadeiramente extraordinário, respeitando o espírito do romance de Aymé, o qual retrata a vida numa vila francesa em 1945. Após os bombardeamentos aliados a povoação viu algumas das suas casas serem arrasadas.
O engenheiro Archambauld vê-se obrigado a dar alojamento a Watrin, um professor humanista e ingénuo quanto à natureza humana (genial Philippe Noiret), e a um casal de comunistas. Um dia acaba por albergar também um colaboracionista perseguido pelas milícias comunistas.
Temos também o taberneiro Léopold (Gérard Depardieu), que fecha o seu estabelecimento todos os dias por algumas horas para acolher os alunos cuja escola sucumbiu às bombas. O bom homem, que emborca vários litros de vinho branco por dia, descobre, ao assistir às aulas, uma veia poética até aí insuspeita na sua pessoa. E vai de recitar "Andromaque", a obra de Racine, tentando verificar em cada verso a existência de doze sílbas métricas. Não tarda muito que ele próprio comece a escrever recorrendo ao mesmo processo, o que dá lugar a momentos divertidíssimos, senão reparem: "De-puis-que-j'suis-pe-tit-je-n'ai-bu-que-du-blanc" ("desde pequeno sempre bebi vinho branco") - 12 sílabas!
O ambiente na pequena povoação está envenenado pela preponderância dos comunistas na gestão da mesma e pelo terror que geram pela permanente caça ao "collabo" (noção de âmbito bem alargado). A sua única preocupação é o serviço ao Partido, sendo todas as outras considerações passadas para segundo plano.
É notável a cena em que se dão as boas vindas aos prisioneiros de guerra que regressam ao torrão natal após cinco anos de cativeiro na Alemanha. Archambauld veste o seu melhor fato, que «não tinha uso desde a vinda do Marechal [Pétain]», demonstrando através do exemplo de um cidadão apolítico o carisma, o respeito e a consideração que o comum dos franceses nutria pelo velho soldado que fez dom da sua pessoa à França. Durante a cerimónia de recepção um comando comunista detecta um "collabo" entre os ex-prisioneiros e toca a espancá-lo. Nem os seus colegas de cativeiro intervêm. Apenas o bom Watrin afasta os contendores, desabafando de seguida para Archambauld: «somos todos cobardes e hipócritas, mas é isso que esta época exige de nós».
Muitas outras peripécias ocorrem, muitos dilemas pessoais e políticos assolam os personagens, num dos raros exemplos cinematográficos de exploração da ambiguidade, das incertezas, dos medos e das incongruências do comportamento humano em períodos turbulentos. Uma obra-prima que certamente encheria de orgulho Marcel Aymé.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

"Vontade"

A grande notícia blogosférica desta semana é o regresso do Rodrigo, apenas cinco semanas após o fim do Batalha Final. Vem até nós sob os auspícios da Vontade, conjugando a qualidade de sempre com um aspecto gráfico muito atraente.
Passem por .

terça-feira, dezembro 19, 2006

Sobre o revisionismo

Vai assanhada a discussão nos blogues nacionais sobre a conferência realizada em Teerão para debater o Holocausto, esgrimindo-se os argumentos já estafados de ambos os lados (o que não quer dizer que alguns não sejam válidos mas tornam-se quase inúteis pois o "oponente" nunca irá ler os links sugeridos, arreigado que está à sua "verdade").
Quando se chega ao insulto, que mais não é que uma forma de ruído para calar os argumentos do rival, já não se justifica perder tempo seguindo as discussões. Quando se lê que os "negacionistas" que estiveram no Irão são ou nazis ou lunáticos (ou as duas coisas ao mesmo tempo) parece-nos que para certas pessoas ainda se poderá dar um largo uso às técnicas "psiquiátricas" tão usadas na ex-URSS.
A verdadeira questão que deveria ser debatida é muito simples: porque razão é que em muitos países do mundo ocidental é proibido investigar sobre o tema, incorrendo-se em penas de prisão, e em quase todos está na prática reservado o papel de pária aos prevaricadores da "verdade oficial"?
Enquanto não houver liberdade de investigação os defensores do dogma não estarão livres de o ver questionado - e com maior ardor do que se houvesse aquela liberdade. É evidente que qualquer pessoa desconfia que seja proibido escrever em tom crítico sobre as conclusões oficialmente definitivas sobre o tema.
Duas conclusões decorrem daqui: que a história da II Guerra Mundial está muito mal contada (senão os factos valeriam por si) e que o lobby judaico continua a ter um poder imenso, ditando leis e lançando anátemas aos heterodoxos.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Mas você afinal é judeu!!!

Para os filo-sionistas (ou sionistas sem prefixo) que gostam de proclamar que em Israel todos, judeus ou árabes, são tratados de igual forma pelas autoridades, aconselho a leitura deste episódio vivido pelo autor do excelente blogue Desert Peace.

Lopes Graça

Desafiam-me os amigos Sarto e Mário a discorrer sobre a obra de Fernando Lopes Graça, que nasceu fez ontem 100 anos. Lamento desiludi-los (pelo menos em parte), pois não sou profundo conhecedor da mesma.
Conheço e aprecio a "História Trágico-Marítima, para barítono e orquestra". Nunca ouvi "Requiem pela Vítimas do Fascismo em Portugal" pelo parti-pris ideológico que lhe subjaz, desde logo no título. Vindo de um comunista empedernido será uma lição de moral mais que equívoca.
Da sua música de câmara a impressão que tenho é que é demasiado árida e pouco cativante. De clara influência bartokiana, reteve do mestre a técnica e o estilo de composição mas não aquele toque de génio que não é apanágio de qualquer um.
Da obra de Lopes Graça o mais perene serão as suas obras de inspiração popular, sobre cuja fidedignidade ao original não tenho condições de me pronunciar mas que à primeira audição destilam portuguesismo em grande escala, sendo de uma simplicidade e clareza desconcertantes. Pelo menos uma das lições do grande Bartók - a recolha das grandes tradições do folclore nacional - foi aprendida pelo seu émulo português.

sábado, dezembro 16, 2006

Um império de peso

Deve ser o indicador por excelência do progresso hodierno: os EUA têm a população mais gorda do planeta - a que come mais e pior, empanturrando-se de fritos e toda a sorte de gorduras e açúcares, refastelando-se em seguida horas a fio a ver filmes ou a navegar na internet.
São, claro, também os maiores "produtores" de lixo do mundo. E, pior, exportadores, pois o seu imperialismo económico é acompanhado pelo imperialismo cultural. Ditam-se modas, comportamentos. Promovem-se opções de vida, gostos musicais. Enchem-se os olhos de miúdos e graúdos com películas produzidas na América.
Desde a I Guerra que a ofensiva começou mas o impulso decisivo foi o pós-II Guerra. Os exércitos de Alexandre eram acompanhados, nas conquistas do macedónio, por sábios que promoviam a cultura helénica. Os exércitos do Tio Sam trazem consigo latas de Coca-Cola, hamburgers e bobinas de Hollywood. Que melhor sinal do progresso indefinido da civilização ocidental?...
Os últimos tempos de fausto do Império Romano tinham como imagem de marca os seus senadores anafados, já sem forças para se levantar e preparar a resistência às invasões bárbaras. Será que os balofos americanos simbolizam o canto do cisne do domínio da jovem e já decrépita nação?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

A religião na música

Mahler, tal como Mendelssohn judeu convertido ao cristianismo, nunca compôs uma missa. Interrogado uma vez sobre se pensava colmatar essa omissão, respondeu o genial compositor: "E o Credo?..."
É claro que não é necessário ser crente para se compor uma obra de inspiração religiosa e um dos melhores exemplos é o fantástico "Requiem Alemão" do agnóstico Johannes Brahms.
Em contrapartida, Joseph Haydn contava como tinha composto "A Criação" com uma enorme alegria devota, algo que transparece quase nota a nota na belíssima... criação do austríaco.
Os nossos tempos são mais dados a dúvidas, inquietações, terrores. O compositor alemão Bernd Aloïs Zimmermann (1918-1970), profundamente católico, suicidou-se cinco dias após compor o impressionante "Ich wandte mich um und sah alles Unrecht das geschah unter der Sonne - Acção Eclesiástica para dois narradores, contrabaixo e orquestra", que tive a rara felicidade de escutar ao vivo no CCB (em 2001) em concerto da Orquestra da Flandres sob a direcção de Luca Pfaff, incansável divulgador de música contemporânea. A obra, além de belíssima, é de uma angústia extrema, terminando com o maestro sentado em atitude de recolhimento, escutando as últimas notas da peça.
Nos nossos tempos cada vez menos a religião consegue aliviar o angst que nos ataca, impiedoso.

Ainda Pinochet

Pouco antes do seu passamento, e de forma telegráfica, falou-se aqui de Pinochet. De entre os muitos textos publicados na blogosfera a propósito da morte do general chileno destaco três:
- Adeus, General Pinochet, em Claudio Telléz (com um excelente enquadramento histórico);
- É morto Pinochet, na Informazione non conforme (num tom mais crítico).

Enfunar a vela

Custa-me ver passar os dias e olhar para o blogue sem actualizações.
Agrada-me ler os comentários de amigos sobre as vantagens de manter um blogue.
Confortam-me os seus incentivos.
Reflicto sobre os seus comentários e reparos sobre os blogues nacionais em geral e este em particular.
Depois...
... depois há dias, como hoje, em que a pena (melhor, os dedos sobre o teclado) desliza ligeirinha.
Tal como com todos os outros desânimos, que as periódicas crises existenciais blogueiras nunca levem os autores a abandonar o barco. Uma vez por outra acostamos, veraneamos por terra, detemo-nos numa ou noutra paragem em solo firme. Depois - é retomar o rumo, com o horizonte que nos é caro na mira.

domingo, dezembro 10, 2006

Racismo no desporto

Mais uma vez é notícia o comportamento alegadamente racista de adeptos portugueses. Desta vez foi no Académica-UTAD, da 2ª divisão A, em futsal. Dois dos jogadores da UTAD foram mimoseados durante o jogo com urros de macacos e um deles acabou por chutar a bola para a bancada, sendo expulso em consequência.
Não serei eu a desculpar este tipo de comportamento grosseiro por parte dos adeptos academistas mas parece-me que se está a criar um clima propício à criminalização do mesmo, a exemplo do que vem sendo seguido e sugerido pela UEFA. Não estará longe o dia em que as pessoas irão a um espectáculo desportivo - onde habitualmente se deslocam para descontrair ou, o que é inevitável, para encontrar um escape - tolhidas de receio por o que possam dizer. Será legítimo, perante uma falta de um jogador de cor, gritar «para a rua» ou «grande besta», ou essas exclamações só poderão ser usados para com os brancos?
A crimideia orwelliana ganha cada vez mais forma num contexto democrático de repressão de pensamento e de atitudes não conformes. E, como é costume, as consequências serão contraproducentes para com o repressor.