segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Memórias ideológicas (conclusão)

Na formação do meu ideário o sentimento da portugalidade ocupa um lugar essencial. Não se trata aqui de listar autores que reflectiram sobre o mesmo, de tal forma são mais ou menos de todos vós conhecidos. O que quero aqui abordar é a necessidade daquele sentimento.
Há vinte anos não seria necessário gastar muitas linhas para frisar a associação biunívoca portugalidade-nacionalismo. Entretanto, surgiu uma nova geração mais urbana (em todos os sentidos da palavra), mais aberta aos movimentos europeus e, infelizmente, menos preocupada em estudar a nossa história, a nossa cultura, o sentir português. Mal se apercebem de como são também um fruto da política (des)educativa das últimas décadas, que relegou o estudo da história e cultura pátrias para segundo plano, em favor de abordagens "europeias".
Sem conhecimento do passado, da nossa cultura, da nossa língua (e que mal se fala e escreve hoje em dia) não há futuro para Portugal como nação livre e soberana. É por o saberem que os dinamitadores culturais destruiram a forma tradicional de ensino e mudaram por completo o seu conteúdo, em favor de agendas político-ideológicas esquerdistas e de pendor maçónico. A "direita", como de costume, acomodou-se. Como dizia o outro, "desde que os investimentos corram bem, está tudo bem", o resto são preocupações de idealistas.
Durante a Guerra Fria houve alguma condescendência da direita dos interesses com a direita dos valores dada a luta comum contra o comunismo. Assegurada a derrota deste aquela despiu toda e qualquer veste que semelhasse um corpo de princípios sólidos e a direita dos valores ficou marginalizada e equiparada a um bando de extremistas parados no tempo.
Os anos 80, que marcaram o fim da minha adolescência, foram uma década propícia para analisar esta transição, ficando claro que a defesa sincera de Portugal estava limitada à tal meia dúzia de idealistas. É espantoso constatar, por exemplo, como na altura os colunistas de esquerda se lamentavam da marginalização a que a música de um José Afonso estava sujeita nas rádios! A queda do Muro de Berlim e o surgimento de uma "nova esquerda" (que difere da "velha" por uma questão táctica de não defender abertamente ditaduras da sua cor e por albergar a defesa de "questões fracturantes), um ror de vezes em concubinato aberto com a esquerda tradicional e os seus jornais, literalmente por ela tomados de assalto, explicam uma parte do problema; a retórica soarista do "direito à indignação" e a ascensão de Jorge Sampaio à presidência, com a sua agenda de esquerda bem marcada, também contribuíram para o actual estado de coisas. Por fim, a criação do BE, pondo fim à histórica disseminação partidária da extrema esquerda e conseguindo cativar a juventude da classe média (e não só), compôs o quadro.
A tudo isto fui assistindo, num crescendo de inquietação. Parece hoje coisa de um passado distante mas ainda na década de 80 era possível ver, como comentadores de telejornais, os grandes Manuel Maria Múrias e Franco Nogueira! Que defendiam, perante a minha admiração de jovem, o Portugal eterno e verberavam o Portugal moderno. Ou haver colóquios (como foi o caso em 1990) na Universidade Lusíada moderados por Jaime Nogueira Pinto, em que durante duas manhãs se abordava o legado do "presidente Salazar", com intervenções entre outros do citado Franco Nogueira e de Kaúlza de Arriaga! E com chamada de primeira página no extinto "O Dia" (curiosamente apareço na fotografia da primeira página, entre a assistência)!
***
Esta análise não podia ficar completa sem umas palavras sobre o MAN. Observei o movimento à distância e quase sempre sob a óptica da imprensa que lhe era hostil. Li o jornal "Ofensiva" (que se vendia nas bancas de jornais!) e gostei de algumas coisas que li. No entanto, já na altura a agenda racialista era notória no movimento nacionalista; e se o risco de desagregação nacional sob o influxo de imigrantes em massa é sempre de ter em conta, inquietou-me o uso retórico da agenda racial, pela fácil demonização que isso propiciaria ao sistema e pela amálgama que seria igualmente fácil de fazer entre nacionalismo e racismo puro e simples. A partir do momento em que se passa para a opinião pública que nacionalismo = racismo está inviabilizada qualquer hipótese de crescimento sério do movimento. Será que este aprendeu a lição?

domingo, fevereiro 25, 2007

As Vidas dos Outros

Vi ontem o filme "As Vidas dos Outros", que recomendo vivamente. O filme aborda o controlo férreo que a Stasi exercia nas vidas de todos os cidadãos da RDA. Não é uma análise maniqueísta, antes o retrato sereno da intrusão da sinistra polícia política na intimidade de cada um.
Um escritor, "o nosso único escritor não subversivo que tem sucesso no Ocidente", até aí insuspeito, torna-se alvo de escutas porque um ministro cobiça a sua mulher, uma actriz, e busca qualquer pretexto para arruinar a carreira daquele. Como encarará tudo isto um alto funcionário da Stasi, imbuído da responsabilidade de "defender o socialismo dos seus inimigos"? Como é que a sua "ética" profissional se coadunará com o abuso que permite o controlo das vidas dos outros?
Este é o ponto de partida para uma película fascinante, muito bem dirigida e interpretada, que nos faz mergulhar num universo crepuscular, a que as cores frias da cuidada fotografia acrescentam um dramatismo suplementar.
Quando estive em Berlim, há ano e meio, relatei-vos a estranheza que me causou a quase ausência de referências a um passado (o comunista) tão próximo de nós em termos temporais. Sem dúvida que obras como este filme ajudam um pouco a colmatar tão escandalosa omissão por parte dos actuais governantes alemães.
Com o risco de me repetir: não percam o filme "As Vidas dos Outros".

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Memórias ideológicas (2)

Estas notas mais não pretendem que dar uma ideia sobre a minha evolução ideológica, sem preocupações excessivas com a cronologia ou com a citação exaustiva de autores.
Uma parte importante deste percurso prende-se com a observação dos movimentos políticos nacionalistas de maior sucesso nos anos 80 (década de que saí com 21 anos). E aqui dois partidos há que destacar: o MSI (Movimento Sociale Italiano) e o Front National.
O MSI, que também significa "Mussolini, sei Imortale", não podia deixar de me atrair pela herança clara que o fascismo deixou no movimento, que quase nunca renegou (até ao aggiornamento de Gianfranco Fini, um homem extraordinariamente inteligente, cuja facilidade e rapidez de argumentação em debates na televisão sempre me impressionou, mas que renegou por pura táctica política os princípios de que de certa forma era fiel depositário), mantendo acesa a chama da Terceira Via. O movimento conseguiu por vezes infiltrar-se no sistema e até apoiou alguns governos; nos anos de chumbo foi sempre uma voz a um tempo defensora da melhor tradição e também voz dos italianos abandonados, em especial os do Sul, onde sempre teve votações generosas. A sua transformação em Alleanza Nazionale adulterou o projecto e, claro, serviu o sistema.
O Front National impressionou-me sempre mais pelas votações obtidas que pela coerência ideológica, que raramente teve. A sua ascensão coincide com a traumática vitória de Mitterrand em 1981 e com a progressiva invasão de França pela imigração terceiro-mundista. Sabendo valer-se do chauvinismo francês, o partido cresceu muito à conta da retórica anti-imigração, congregando uma plêiade de tendências inconciliáveis: católicos tradicionalistas, direita social-radical, alguns monárquicos, extrema-direita racista (ou racialista, como preferirem). Ao mesmo tempo, em franco contraste com o MSI, Jean-Marie Le Pen era um declarado liberal em questões económicas, o que não impediu a crescente atracção de operários que se sentiam traídos pelo PCF. O sistema francês soube por um lado defender-se da ascensão do Front - instituindo o sistema maioritário, que privou um partido com uns 15% de votos de ter qualquer representação parlamentar, e criando um "cordão sanitário" que impedia alianças dos partidos tradicionais com os "racistas"; por outro, valendo-se da sua existência para melhor fazer passar as suas teses imigracionistas e favoráveis à miscigenação, por contraste com a mensagem supostamente racista e xenófoba do movimento. A sensação que fica é que o esforço de milhares de militantes, o protesto de milhões de eleitores, teve o efeito contrário ao (legitimamente)pretendido, tendo o sistema dado uma lição de pragmatismo cínico e, claro, fortemente desonesto.
***
(continua)

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Memórias ideológicas

Oriundo da média burguesia urbana, não posso dizer que tenha tido em torno de mim uma cultura ideológica marcante. Os meus pais, como aconteceu com tantos outros, despertaram para a política após o 25 do 4 - e cedo perderam ilusões sobre a partidocracia que desde então nos (des)governou.
Com o espírito inconformista que caracteriza a juventude - e que tantas imprudências acarreta - aderi em espírito ao anarquismo, apreciando especialmente Proudhon, detestando Godwin, execrando o anarco-bombismo dos finais do século XIX e sentindo indiferença perante o individualismo de Stirner. Creio que no fundo sempre tive uma inclinação conservadora, patente na admiração pelo "mundo ideal", honesto e harmonioso, patente nos romances de Júlio Dinis, que reli diversas vezes. Não me surpreendi anos mais tarde quando descobri a admiração que nutria uma facção da Action Française pela obra de Proudhon.
Um dia, não sei bem como, dei por mim a reflectir sobre o fascismo, il vero, não o que a propaganda promove. A tentação do absoluto, a diluição dos conflitos sociais num todo nacional harmonioso, o feroz combate ao comunismo - ideologia que sempre abominei -, a exaltação nacional sem o esmagamento do indivíduo como no nazismo, a compatibilização entre tradição e modernidade - tudo isto contribuiu para uma crescente admiração pelo ventennio, pela figura do Duce e por essa extraordinária aventura que tão mal acabou, marginalizada pelas democracias, subalternizada e descaracterizada pelo nazismo.
Um grande substracto ideológico do meu pensamento veio com a leitura de Charles Maurras, que solidificou a minha instintiva desconfiança face aos regimes democráticos, produtos e servos da plutocracia.
O Integralismo Lusitano, em parte influenciado pelo pensamento do mestre de Martigues, foi uma corrente de renovação nacional, espiritual, cultural e ideológica, nos anos degradantes da I República, que prendeu a minha atenção. Pese a preponderância de António Sardinha no movimento, foi a prosa escorreita e de uma extraordinária limpidez de Luís de Almeida Braga que mais me cativou - e à qual volto recorrentemente.
Desiludido da política, descrente da capacidade da Pátria no seu resgate, triste pela desnacionalização crescente das correntes ditas nacionalistas, no meu íntimo não morre a busca de uma Terceira Via, utópica talvez, não tanto pela desadequação à realidade como pelo peso da ditadura democrática, subordinada ao capital apátrida e prostituída às ideias dissolutas das esquerdas acomodadas ao capitalismo.
***
(continua)

domingo, fevereiro 18, 2007

Rodrigo, sempre

O poeta Rodrigo Emílio faria hoje 63 anos. A sua obra tem tido forte divulgação na blogosfera nacional, colmatando em parte a feroz censura de que tem sido alvo desde o fatídico 25/4. A sua morte, faz quase 3 anos, foi a triste ocasião que permitiu a muitos nacionalistas e patriotas desencantados de se reencontrarem e em muitos casos de se conhecerem.
Falo também por mim, que tive o privilégio de conhecer duas dezenas de pessoas incomuns, inconformistas, inconformadas, cultas, leais, muitas delas blogueiros de fina água. As homenagens ao vate, que se iniciaram num restaurante exíguo de Lisboa e continuaram depois no Salão Nobre da SHIP, foram momentos comoventes de reencontro colectivo com a obra do grande português, como Camões poeta e soldado.
Rodrigo, que tanta estima tinha pelos jovens nacionalistas, não deixaria de ficar orgulhoso por ver a comunhão de sentimentos patrióticos entre várias gerações, a perenidade do sentir português, contra ventos e marés adversos. Pela nossa parte não nos esquecemos daquilo que lhe devemos, da sua herança estética, literária - e intransigentemente nacional.

De pequenino se torce o pepino

O meu filho mais velho anda no segundo ano (antiga "segunda classe"). No teste que fez recentemente de "Estudo do Meio" era-lhe posto o problema de dois colegas de turma que pretendiam ser os responsáveis pela biblioteca da escola. As hipóteses eram:
1) Andavam à bulha e quem ganhasse ficava responsável.
2) Havia uma votação.
3) Ganhava quem oferecesse mais doces aos colegas.
4) Era escolhido o mais inteligente.
Julgam que a resposta certa era a 4)? Claro que não, a resposta certa era proceder a uma votação. Mesmo que ganhasse um incapaz, seria sempre uma vitória da democracia! O mais inteligente pode esperar.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Cinco anos de prisão para Zündel

Não conheço os trabalhos de Ernst Zündel nem posso aquilatar sobre o mérito ou não das suas investigações. O que sei é que por lei ele não pode pôr em causa certas "verdades" oficiais e como tal vai penar cinco anos na prisão.
Como tantas vezes tem demonstrado, a democracia proporciona sobretudo a liberdade de... dizer que sim. Quando a história tem que ser imposta à força, ou está mal contada ou está já há muito transformada em instrumento ideológico e deixou de ser uma ciência. Para proveito de...

Subúrbios

No jardim central da Amadora, durante o dia, só se vê praticamente dois grupos de pessoas: negros com menos de 25 anos, brancos com mais de 65. Duas gerações de desocupados.
***
O moderno tribunal da Damaia parece um bunker inserido numa zona extremamente degradada, onde praticamente só vivem imigrantes africanos: o Bairro 6 de Maio. Dir-se-ia que a localização se deve ao potencial "mercado de clientes" do palácio de justiça. Um amigo meu que costumava sair na estação da Damaia para ir trabalhar ali perto dizia que nunca tinha sido incomodado - mas que já tinha visto um homem morto jazendo no chão.
Os mercados de rua propõem um pouco de tudo, desde comida africana a objectos de maior ou menor utilidade. Os cabeleireiros afro têm um público-alvo bem definido.
Passando o aqueduto temos a Cova da Moura a poucas centenas de metros.
***
Santo António dos Cavaleiros é uma cidade-dormitório do concelho de Loures. Aplica-se-lhe o que Salazar dizia sobre os aglomerados de prédios altos e desengraçados, a que chamava "colmeias". O modelo comunista está perfeitamente exemplificado nesta localidade: uma monotonia urbana igualitarista; um universo cinzento e concentracionário; um conjunto de edifícios altos erguidos nos montes sobranceiros a Loures. A região saloia está ali à porta mas parece quase algo de outro mundo. No vale de Loures ergue-se, infame, o novo shopping, de arquitectura grotesca. Adivinha-se a romaria de cidadãos-consumidores.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Dresden

HNO lembra os 62 anos sobre o bombardeamento da cidade de Dresden pela aviação aliada. Mais de 200.000 pessoas (na sua grande maioria crianças, mulheres e idosos, além de milhares de refugiados que fugiam perante o avanço soviético) pereceram num acto de pura barbárie e selvajaria, sendo conhecido que o objectivo era aterrorizar a população, não havendo qualquer objectivo puramente militar na cidade, o que de resto a carta de Churchill aqui reproduzida confirma, com um cinismo indescritível.
Como escrevi há dois anos atrás, «este horroroso crime de guerra nunca foi punido, pois a justiça (e a história) é exercida pelos vencedores».

Núcleos de resistência

***
(Desenho de Chard.)

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O fim de um mundo

Esta não é a nossa época. Lutamos por ideais que parecem varridos pela voragem dos tempos, pelos demolidores de civilizações, pelos totalitários mascarados de democratas e amigos do povo, enfim, a velha história do lobo mascarado de cordeiro.
Aquilo que defendemos, aquilo que era consensual há décadas atrás, é hoje coisa de reaccionários, quiçá extremistas - de gente parada no tempo. Como se a ética e os princípios se devessem moldar às modas da estação. É esse o entendimento da (falta de) classe política que nos desgoverna, que aceita que decisões fundamentais como a que ontem se referendou possam ser tomadas ao acaso da volátil vontade das massas, já de si manipuladas à souhait; ao acaso, até, da inclemência da meteorologia e seus efeitos sobre a inércia dos decisores.
Mesmo que o "não" tivesse vencido, a constatação anterior permaneceria válida, pois a escolha de ontem já diz muito sobre o estado acelerado de degradação a que a civilização chegou. A sociedade está doente, doente não só pela indiferença com que se abdica de certos princípios como também pela apatia e resignação perante a marcha infindável do progresso.
Não queria deixar de saudar todos os que se bateram desinteressadamente pela Vida num contexto adverso. E aproveito para saudar a população de três localidades: uma aldeia, uma vila e uma cidade; Os resultados nelas verificados simbolizam a não abdicação perante a pressão totalitária:
- Arga de Baixo, pequena povoação do concelho de Caminha, distrito de Viana do Castelo, onde o "não" venceu com 97% dos votos;
- Alvaiázere, concelho do distrito de Leiria que continua a demonstrar ser um dos bastiões seguros e firmes do Portugal tradicional;
- e, finalmente, a cidade de Guimarães, símbolo da Nação, e das poucas cidades de média dimensão em que a Vida foi mais votada. Que permaneça, de pé, a lutar por princípios imortais, defendidos também por jovens como este amigo do nosso blogue.

sábado, fevereiro 10, 2007


terça-feira, fevereiro 06, 2007

O candidato do aborto

(Para o meu amigo Corcunda.)

O candidato do aborto
***
«Já aqui o dissemos e bastantes vezes mais havemos de o repetir: — sendo o reino da quantidade, a Democracia é o quintal do relativo. Tendo como único valor absoluto o poder indiscutido da vontade maioritária, os outros mais valores que alicerçam a ordem moral, social e política das comunidades, relativizam-se ao sabor da conjuntura e das flutuações da opinião pública. Democraticamente não há nada de indiscutível, coisa nenhuma pode ser um bem ou um mal em si; tudo pode ser votado, tudo é passível de ser discutido e alterado.
Foi nessa base (aliás falseada pelo abuso duma força militar vitoriosa) que se amputou Portugal em 1974; é nessa base que, dominando, completamente os orgãos de intoxicação social, se vai continuar a destruir o que resta da Pátria na sua fisionomia de Estado soberano e no seu espírito de Nação cristã.
Ao escolhermos o mal menor nas últimas eleições legislativas nós escolhemos somente certo modelo de sociedade económica e de regime de propriedade; «metemos na gaveta» (como diria Mário Soares) toda a infinita gama dos valores morais que sempre defendemos, recusando-nos a aceitar que, para além do desenvolvimento material e da liberdade de iniciativa, há muitas coisas que nos transcendem e, na verdade, nos devem dominar a vida em termos dogmáticos e absolutos.
Nós não recusamos o marxismo por ser intrinsecamente perverso e por ser um mal em si; recusámo-lo só porque, além de não nos permitir manter as herdades alentejanas, não nos permite viver com conforto em sociedade de consumo, no desenvolvimento puro, neste laissez faire, laissez passer do capitalismo que, tendo sido a morte suicida do anterior regime, há-de ser, europeisticamente, a morte macaca da soberania nacional.
Discutimos tudo. Discutimos Deus, discutimos a Pátria, discutimos a Família, discutimos a Autoridade e discutimos o Trabalho. O extremo individualismo ou o extremo colectivismo conduzem-nos à tirania; no final do nosso próprio dialéctico acabamos por discutir a liberdade e a vida em função da quantidade que, podendo ser aprioristicamente demarcada, redunda quase sem remissão no totalitarismo — o Estado arvorado em Nação tentando absorver e governar todos os grupos; uma classe apossando-se do aparelho estatal para dominar as outras classes.
É escusado embrenharmo-nos na discussão filosófica dos factos. A realidade concreta convence-nos todos os dias. Momento a momento, no caminho da liberdade material vamos sacrificando a liberdade espiritual — tudo se pode e deve pôr em discussão desde que, no momento histórico, pareça servir de obstáculo à livre circulação das ideias e das coisas, à vontade imperiosa das maiorias circunstanciais, à mitologia do sufrágio universal e cego onde só ganha quem pode manipular os vastos cabedais necessários à orientação unilateral das massas eleitoras.
(...)
Ao defendermos o referendo como útil e indispensável à defesa dos povos contra a prepotência da representatividade política indiscutida durante largo tempo, nós vamos ter que aceitar a discussão constitucional e institucional de tudo o que queiram os senhores do Estado. A lógica doutrinária da democracia relativiza o Bem e o Mal, desde que a maioria transforme o Bem em Mal e o Mal em Bem, nós ficamos indefesos ante os decretos de lei.
Face à lei da maioria não há iniquidades. Como ensinam os maiores constitucionalistas democráticos, a legitimidade define-se como o máximo consenso relativo ponderado em determinado momento histórico. Estado de Direito é o Estado que se rege pela lei que faz; antes do Estado e do seu Direito positivo não há lei nenhuma que se possa opor à vontade das maiorias.
Na armadilha caem os melhores — e caem quase todos os que supõem poder usar a vontade maioritária. Pouco a pouco, de cedência em cedência, na procura do mal material menor, vamo-nos enredilhando na degradação dos valores absolutos; começamos por discutir coisas de somenos para aceitar a discussão do indiscutível.
(...)
Aporrinhado por perguntas numa sessão de esclarecimento para a Juventude Centrista, o general Soares Carneiro, candidato presidencial da Aliança Democrática, depois de ter afirmado a sua oposição pessoal à legalização do aborto, cedeu em dizer poder referendá-lo. Ao chegar aí entrou mecanicamente na lógica dialéctica da principiologia democrática, e cedeu em tudo.
Católico confesso, o general Soares Carneiro não tem o direito de permitir pôr em discussão a bondade política do que, moralmente, é um mal em si. Conforme os ensinamentos do Concílio Vaticano II e mais recentemente ainda conforme as decisões do Sínodo Episcopal sobre a Família agora mesmo encerrado em Roma, são infames as seguintes coisas: — tudo quanto se opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto e suicídio voluntário... Referendar o aborto é abrir é caminho para o referendo de todos os crimes de assassínio, do mal em si, transformado em bem, ou em mal menor pela vontade maioritária.
Deus, senhor da vida — diz ainda o Vaticano II — confiou aos homens o nobre encargo de a conservar. A vida deve, pois, ser salvaguardada desde o primeiro momento de concepção; o aborto e infanticídio são crimes abomináveis.
Não se referenda a abominação. Não se referenda o que se não pode referendar. Podendo ser politicamente defensável no quadro de uma ideologia materialista a possibilidade do aborto legal — ela é completamente indefensável nos limites do cristianismo — e nós temos de considerar moralmente inelegível para Presidente da República Portuguesa quem põe a vontade circunstancial das maiorias acima dos valores absolutos da moral cristã.
Quem consente dar a escolher ao povo se o homicídio é ou não um mal em si, vai consentir em tudo o mais. Estando à beira da desintegração da soberania nacional por via duma provável integração no Mercado Comum, nós podemos deduzir que quem discute referendariamente o aborto pode vir a discutir pelo mesmo processo a integridade territorial da Pátria, pode desfazer-nos moral e materialmente, pode destruir-nos à pala do valor absoluto duma liberdade formal que, permitindo a alguns a ascensão ao poder através dos mecanismos pavlovianamente condicionantes de espírito duma Nação que, destruída embora, ainda espera viver a vida saudável que os séculos lhe criaram à sombra da cruz de Cristo. (...)»
***
Manuel Maria Múrias, in "A Rua", n.º 229 (30.10.1980), pág. 24.

Alameda Digital

Está já em linha o número 5 desse "espaço de liberdade" que é a Alameda Digital. Prossegue-se a orientação por temas, versando o da presente edição "Segurança e Defesa". Contando com colaboradores de excelente nível, a revista é um caso sério de combate cultural à ditadura esquerdista que nos vem martirizando, e um exemplo de como projectos credíveis, com argumentação e linguagem cuidadas, podem de facto abanar os alicerces da mentira em que nos vêm enredando há décadas.
O corpo de colaboradores engloba vários nomes da blogosfera, entendendo os editores que este vosso escriba também tem lá lugar, tendo eu este mês falado de Shostakovitch e de outra ditadura cultural: a soviética. O texto chama-se "Justiça e Destino".
A ler, reler e divulgar.

Spam

Este palavrão, que até ver não tem termo em Português, ataca todos os que acedem à internet. Durante bastante tempo este blogue permaneceu imune mas nos últimos dias tem sido um "vê se te avias", com comentários do género "you have a nice blog here, congratulations", etc.
A contragosto, lá tive que recorrer à "word verification", essa maçada que nos obriga a inserir caracteres sem nexo quando se escreve um comentário. Aceitem as desculpas da gerência.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Presidenciais francesas

Triste espectáculo, aquele que nos é trazido pelos candidatos tidos como favoritos a entrar na segunda volta das Presidenciais francesas. Tal como há cinco anos, a imprensa já decidiu quem é que vai à segunda volta e nem o "terramoto" lepenista de 2002 contribui para um pouco de pudor entre os fazedores de opinião.
Ségolène e Sarkozy vão, assim, disputar uma segunda volta renhida. Querem-nos fazer crer que os candidatos não poderiam ser mais diferentes: de um lado a "bela" Ségolène, transbordante de charme, capaz de trazer enfim algum pragmatismo ao socialismo francês; do outro, o "duro" Sarkozy, o pró-americano (e pró-israelita), capaz enfim de mostrar a face determinada de uma direita do sistema até aqui incapaz de lidar com a insegurança e com a imigração desregrada.
E, no entanto, uma observação atenta encontrará mais semelhanças que diferenças entre os dois candidatos: em ambos a mesma incapacidade (ou vontade) de identificar a origem dos problemas que afectam um país em marcha acelerada para o abismo (imigração em massa, corrupção endémica, peso do Estado, corporativismo, aversão ao risco e à livre iniciativa); em ambos a mesma retórica balofa sobre a "nova" França, plural, tolerante, mestiça; em ambos, enfim, o oportunismo de par com a hipocrisia, escondendo sob palavras atraentes (?) um único desejo: chegar à cadeira do poder. A França, a civilização ocidental, connais pas.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Datas republicanas


31 de Janeiro e 1 de Fevereiro são datas caras aos republicanos. A primeira evocam-na com emoção, lembrando a tentativa falhada de derrube da monarquia, que teve que esperar mais dezanove anos para ver outro putsch ter sucesso. A segunda evocam-na mais discretamente, pois nenhum quer admitir a filiação do regime instaurado em 5 de Outubro de 1910 num assassínio, ignóbil como todos os assassínios e mais ainda por ter visado a figura de El Rei D. Carlos, um homem bom e que era atacado abominavelmente pela corja que havia jurado derrubar o trono.
Os anos que medeiam entre 1910 e 1926 são do mais degradante que a nossa história conheceu, com o arbítrio da ala esquerda ligada a Afonso Costa, com as exacções da Formiga Branca, com as prisões arbitrárias, com a instabilidade governativa, com a entrada na I Guerra Mundial para dar legitimidade internacional ao regime.
Há 99 anos caíam D. Carlos e seu filho primogénito. Os republicanos rejubilaram com o crime e à família do Buiça nunca faltaram os donativos devidos a quem consumou a tragédia: tragédia humana pela morte das figuras reais e tragédia do país. O cortejo fúnebre acima retratado é bem a imagem do cortejo fúnebre em que a Pátria caíu.

terça-feira, janeiro 30, 2007

La Piovra

Tenho seguido com o maior interesse a redifusão na RTP Memória de "O Polvo", a famosa série de televisão italiana dos anos 80. Michele Placido é o comissário que luta praticamente contra tudo e contra todos para acabar com o poder mafioso em Itália.
A série não cai em maniqueísmos fáceis, procurando caracterizar os mafiosos, com as suas contradições, anseios, desumanidades, fraquezas.
Tendo conhecido a sua pior fase durante o regime fascista, quando foi severamente reprimida, a Cosa Nostra ressurgiu das cinzas com a "libertação", ao receber o apoio tácito dos americanos na luta contra o comunismo, pujante à época.
A luta da justiça italiana do pós-guerra pareceu sempre inglória, tendo conhecido um dos seus momentos mais traumáticos no início dos anos 90 com o assassinato dos corajosos juízes Falcone e Borsellino e com os atentados a alguns símbolos da cultura italiana como a Galleria degli Uffizi, em Florença (onde eu tinha estado poucos meses antes).
O recurso aos pentiti (arrependidos) foi o ponto de viragem, sucedendo-se as denúncias e as traições. A emergência das máfias de leste, nomeadamente russas, também contribuiu para um certo eclipsar da Cosa Nostra.
É em tudo isto que penso quando vejo uma das séries mais trágicas e humanas de sempre, "O Polvo".

Constatação

Tristes tempos, estes, em que a vida é referendável. Ou, se quisermos, a morte. Se outrora a turba gritou "Barrabás!", quem nos diz que daqui a uns dias não porá a cruzinha no "sim"? Mais triste ainda é constatar que a alternativa que este regime nos põe é entre este referendo e a votação no parlamento, esta última com resultado "garantido".

Pepe nasceu há 99 anos

Um dos maiores desportistas portugueses de todos os tempos nasceu há 99 anos. Leiam aqui uma belíssima evocação da figura de José Manuel Soares Pepe.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Simone Clarke

O nosso amigo BOS já falou do "caso Simone Clarke", a bailarina de quem se descobriu ser militante do British National Party, um movimento apelidado tanto por trabalhistas como por conservadores como repugnante, racista e xenófobo.
Refira-se que a revelação foi obra de um jornalista infiltrado no BNP, uma verdadeira toupeira ao melhor estilo soviético. Clarke admitiu pertencer ao BNP, por ser o único partido que luta contra a imigração desregulada. Curiosamente, a bailarina tem como companheiro Yat Sen Chang, um cubano de origem chinesa, o que complica a tarefa dos cães raivosos que gostariam de poder chamar racista à intérprete de sucesso de "Giselle".

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Um postal (infelizmente) sempre actual

(Com um abraço especial para o Pedro Guedes e todo o meu desprezo para a senhora Pinto.)
**
«Está agora na moda criticar-se o anonimato da grande maioria dos blogueiros, insinuando-se que o mesmo lhes permite tomar atitudes irresponsáveis e criticar descabeladamente certas individualidades sem receio de ter de prestar contas. Os senhores jornalistas e políticos que veiculam esta ideia deviam ter vergonha: pelo monopólio das ideias que detêm e que impõem, pelo terrorismo ideológico que alimentam e pela estigmatização daqueles que ainda vão tendo forças para criticar o estado em que se pôs o nosso País, são eles os responsáveis pelo recurso ao anonimato dos heterodoxos blogueiros da nossa praça. Foram eles que (n)os atiraram para as margens do debate político, de ideias e cultura, são eles que zelam pela inviolabilidade do seu dogma societário e ideológico, são eles que odeiam a liberdade de expressão e que, escudados na hipócrita defesa da mesma, funcionam como comissários políticos à cata dos "proscritos". A quem depois criticam o seu anonimato.»
**
(Texto original completo aqui.)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Mensagem para o outro lado do Atlântico

Estou farto. Farto. Farto do vosso belicismo, inerente à vossa maneira de ser, à vossa forma de estar no mundo, de resto nas raízes da vossa expansão territorial no vosso próprio continente, expulsando os nativos, tratados como sub-homens, confinados a reservas.
Farto do vosso moralismo democrático, do vosso messianismo pseudo-humanista, difundindo os vossos valores outrora na ponta das espingardas, hoje por meios mais sofisticados (limpos, diriam vocês) de ceifar vidas humanas - vidas de outros humanos, se calhar tão untermenschen como os índios.
Farto de vos ver a reboque da agenda política de Telavive, incapazes de um mínimo de equidade na abordagem da questão palestiniana. Farto também de vos ver fazer crescer o fundamentalismo islâmico, como reacção à vossa prepotência e humilhação do mundo árabe.
Farto deste mundo por vós criado, desta saga consumista, deste fervor gastador e hedonista, desta ausência de preocupações outras que não a fruição imediata de bens produzidos em larga escala.
Farto do politicamente correcto, outra das vossa criações, fruto das lutas universitárias dos anos 60, das construções ideológicas abstractas, desligadas da realidade e ó quão próximas do controlo de pensamento típico dos totalitarismos do século XX.
Farto do vosso imperialismo pseudo-cultural, dos vossos filmes violentos, da sua perversa influência sobre as mentes das crianças; farto da naturalidade com que mostram as mais abjectas facetas do homem. Farto da vossa pornografia, da vossa degradação do humano, da vossa humilhação daquela que dá à luz, daquela que é Vida: a mulher.
Farto das organizações que vocês criaram, que dominam e que tentam escravizar a humanidade, na sombra.
Dir-me-ão os vossos defensores que a alternativa ao vosso domínio seriam os chineses, os russos, os fundamentalistas islâmicos ou os amiguinhos guevaristas dos Chavez e outros folclóricos e sinistros utopistas. Se calhar têm razão, mas estes antagonismos também por vós foram alimentados no sentido de reforçar o vosso próprio poder e dominação.
Vivemos num planeta-prisão e em grande medida isso é obra vossa. Por isso estou farto.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Contra o concurso

Sobe de tom a polémica em torno do estúpido concurso "Grandes Portugueses", em especial na blogosfera. Toda a trapalhada em que o promotor se envolveu relativamente a Salazar, não o incluindo inicialmente na lista e agora ocultando a sua vitória por meio de uma segunda volta, revela bem o grau de "democracia" dos nossos democratas. Os mesmos democratas que vêm há meses desencadeando ataques informáticos contra o excelente site dedicado ao estadista (e não político, outra das farsas do concurso) e que está neste momento em baixo, tentando recuperar da última ofensiva democrática.
Estou com o meu amigo Nonas quando ele se pronuncia contra o acto de votar nesta mascarada. Primeiro, está-se a ser conivente com toda a batota; segundo, legitima-se que se ponha em pé de igualdade (democrática, claro) reis que fizeram a Pátria, actores de telenovelas e perfeitos traidores; terceiro, porque o chamado voto de protesto, que tem levado tantos milhares de pessoas a votar em Salazar, conduz a que se pretira D. Afonso Henriques, o verdadeiro obreiro da Nação, quem contra ventos e marés permitiu que nascesse um dos países mais notáveis da história da humanidade. País esse que agora se vai apagando, lentamente.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Sondagens

O nosso amigo Rafael aborda o tema das sondagens, frisando a extrema cautela ou mesmo desconfiança com que devem ser encaradas.
O postal fez-me lembrar a série "Yes, Minister", em que Sir Humphrey demonstrava como se pode facilmente manipular a opinião, expressa em resultados de sondagens.
O tema era a reinstauração do Serviço Militar Obrigatório no Reino Unido e as perguntas são feitas à mesma pessoa por dois institutos de sondagens diferentes.
**
Primeira Sondagem:
- Preocupa-o a crescente insegurança no mundo em que vivemos?
- Sim.
- Preocupa-se com os conflitos bélicos em curso neste momento?
- Sim.
- Assusta-o ver a violência crescente na nossa sociedade?
- Sim.
- Não acha que os jovens estão cada vez mais expostos a essa violência?
- Sim.
- É favorável a que regresse o Serviço Militar Obrigatório?
- Não.
**
Segunda Sondagem:
- Preocupa-se com o desemprego no nosso país?
- Sim.
- Preocupa-o o baixo nível do nosso sistema educativo?
- Sim.
- Não acha que aos jovens deste país falta cada vez mais um rumo para as suas vidas?
- Sim.
- Seria favorável a formas alternativas de ocupação para os jovens?
- Sim.
- É favorável a que regresse o Serviço Militar Obrigatório?
- Sim.
**
Cada instituto de sondagens "esqueceria" as perguntas iniciais e publicaria uma sondagem apenas com a última pergunta e respectiva resposta...

terça-feira, janeiro 16, 2007

Uma questão de mulheres?

Sob o título supra realizou em 1988 Claude Chabrol um filme com Isabelle Huppert, baseado na história da última mulher executada em França. A história decorre durante o regime de Vichy e retrata uma mulher que ganhou dinheiro praticando abortos clandestinos.
O filme tem uma mensagem execrável, aliás visível logo no título, pretendendo desculpar a boa senhora e criticar a falsa moral dos governantes e, claro, da besta negra do realizador: os "burgueses". Mostrando Marie-Louise Giraud como vítima das circunstâncias, Chabrol pretende que o aborto é algo a ser decidido pelas mulheres - "em consciência", como diriam os nossos pró-abortistas de serviço -, sem ater a quaisquer considerações morais, que o realizador de resto caracteriza como preconceitos burgueses.
É um dos múltiplos exemplos da "cultura" ao serviço da ideologia e que, lenta e insidiosamente, foi fazendo o seu trabalho de sapa, empurrando contra a parede os moles de convicções e angariando apoiantes entre os jovens. O resultado está à vista.
Escusado dizer que a película recebeu diversos prémios internacionais e os encómios da crítica.

domingo, janeiro 14, 2007

Linhas de Elvas

«Janeiro de 1659, a 14. Não me esqueço do livro velho denunciando-nos a cumplicidade do nevoeiro. O nevoeiro, bom amigo desde que ao seu mistério confiámos o regresso do Encoberto, envolvendo-nos então numa massa confusa, protegeu-nos contra o adversário, incomparavelmente superior em municiamento e disciplina.
Demos connosco nos seus redutos, debaixo da capa parda da bruma. Caímos em cheio e a valer. Na mancha densa da névoa, rufaram tambores de súbito, de algum modo como na surpresa bíblica de Gedeão. O castelhano, iludido nas indecisões da manhã, não se apercebeu a tempo da nossa ordem de batalha. Tanto bastou para que as suas linhas se rompessem de pronto e pelo boqueirão aberto se engolfassem os terços do conde de Mesquitela. Da praça D. Sancho Manuel carregava sobre o inimigo já desmoralizado, batendo-se à toa, sem nexo. Alto, o sol límpido de Janeiro sacramentava-nos agora num esplendor de apoteose. D. Luís de Haro, sangrando na ferida enorme da sua vaidade pisada, abandonara o exército ao duque de S. Germano, largando em desfilada para Badajoz. Já o sol declinava. Na cidade, ao longo dos muros, como numa cruzada santa, passeara-se o Santíssimo durante o estridor da batalha. Moribundos, os pestíferos erguiam-se dos catres para contemplarem ainda, com as pupilas dilatadas, a hora do resgate, descendo dos cabeços fronteiros. A vitória tivera a rapidez das vinganças divinas (...). De facto, as nossas perdas não passavam de setecentos homens entre mortos e feridos. Os castelhanos, contando os prisioneiros, abandonavam no campo cerca de onze mil baixas - tantas como o pequeno exército [comandado por D. António Luis de Meneses] saído de Estremoz para salvar a cidade em perigo.
Mas que resta hoje da glória excepcional desse Janeiro de 1659? Sobre uma colina silenciosa um padrão silencioso. É bem o símbolo de Portugal arrastando a sua agonia na impassibilidade sacrílega dos homens e das coisas!»
***
António Sardinha, "Na Feira dos Mitos", Edições Gama (2ª edição, 1947).

Já cá canta!

Recebi finalmente o livro cuja capa vêem aqui reproduzida: "José Antonio: entre odio y amor" de Arnaud Imatz e que o amigo Pedro já nos trouxera ao conhecimento (ver aqui).
O autor propõe-se fazer a biografia do líder da Falange sem cair nas armadilhas da interpretação ideológica, dedicando de resto o livro a alguns familiares e amigos, «así como a todos los que se han librado de la hemiplejía moral de derecha o de izquierda». E recorre, curiosamente, a uma citação de José Antonio, conhecida de muitos de vós:
«El ser "derechista", como el ser "izquierdista", supone siempre expulsar del alma la mitad de lo que hay que sentir. En algunos casos es expulsarlo todo y substituirlo por una caricatura de la mitad.»
O gordo volume de 616 páginas promete.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Auto-crítica árabe

À semelhança dos seus irmãos desavindos judeus, os árabes são bastante propensos à cultura da vitimização, culpando os outros por todos os males de que padecem.
Sem deixar de reconhecer as injustiças e arbitrariedades que vêm sofrendo, os árabes devem olhar um pouco mais para si próprios e não fugir às responsabilidades.
Dois exemplos desta desejável postura, retirados de dois jornais do Médio Oriente:
**
«O que se passa em Beirute não se inscreve na história do Líbano mas sim na do quadro mais vasto do Médio Oriente, onde os grupos e as organizações actuam acima dos Estados, minam as instituições e destroem todo o quadro legal.» ("Asharq Al-Awsat")
**
«Ninguém quer enfrentar o caos intelectual e político que reina no mundo árabe pois ele conduz-nos às mentiras mais desavergonhadas. Para nós é sempre mais fácil atirar as culpas para os americanos, os europeus e os sionistas que ter a honestidade de reconhecer as nossas responsabilidades. E o risco é cairmos na catástrofe mais completa (...) O mais estranho de tudo é que o “governo” palestiniano, a “oposição” libanesa e a “resistência” iraquiana avançam sob o escudo da religião, apresentando-se como a incarnação do Islão, representantes dos muçulmanos e partidos de Deus. Isto evoca os anos 50, quando a destruição política do mundo árabe se fazia ao abrigo de palavras de ordem revolucionárias e nacionalistas pan-árabes. É de dar em doido! Nenhum país pode viver com este grau de loucura. E, no meio de toda esta demência, em que todos dão gritos de vitória, há um perdedor autêntico: a pátria.» (Tarek Massarwa em “Al-Raï”, jornal de Amã).

Podemo-nos rir de Hitler?

A interrogação acima poderá parecer estranha ao comum dos mortais dotado de algo que vem rareando cada vez mais: bom senso. No entanto, a edificação do dogma da "monstruosidade hitleriana" a isso obriga a quem se dobra perante os ditames do politicamente correcto. Com um efeito curioso: em Hitler não se toca, a sua imagem oficial é inatacável. Debate aberto sobre o personagem: nem pensar.
Um filme estreado recentemente, "Mein Führer", vem relançar a lancinante questão que se põe aos jornalistas e demais fazedores de opinião. O facto de se tratar de uma comédia, e mesmo considerando a origem judaica do realizador, levou a que a película não caísse nas boas graças gerais. O filme poderá ser fracote ou mesmo anedótico, não sei, mas é expressivo que sessenta anos após a morte do líder nazi ainda seja tabú falar-se dele de uma forma diferente da solenidade inerente à caracterização de um "monstro".

segunda-feira, janeiro 08, 2007

"Violador português é branco"

Um estudo levado a cabo por uma candidata a mestre pela Universidade do Porto e divulgado pelo Público concluiu que «o violador português é branco, tem cerca de 30 anos, baixa escolaridade e não revela arrependimento pelo crime, mas pena por este o ter conduzido à prisão, onde é maltratado pelos outros reclusos e guardas».
Duas questões:
- será que a amostra de 38 reclusos condenados pelo crime de violação é significativa?
- será que se o estudo concluísse que «o violador português [ou actuando em Portugal] é negro" ele seria alvo do mesmo destaque? Pior: será que uma tese que chegue a essa conclusão é aceite pelo júri?
**

Fous le camp, salaud!

Será que os franceses são o povo mais grosseiro à face da Terra? E o mais arrogante? A "inocente" interrogação é-nos trazida pelo Daily Telegraph, que conta como a Comissão Regional de Turismo de Ile-de-France está a tentar cativar mais turistas ingleses, nomeadamente divulgando a famosa linguagem gestual francesa... Espera-se que, dominando a dita, os turistas de além-Mancha se sintam mais à vontade a lidar com três dos tipos mais frequentes de Paris: empregados de mesa mal educados, taxistas do mesmo quilate e "febras" sentadas em esplanadas com umas trombas de todo o tamanho (desencorajando os avanços dos mais destemidos...)!
Um artigo divertidíssimo, a que há que acrescentar o fórum, onde os leitores debatem o grau de rudeza dos gauleses...

O "império benigno"

Mais um texto memorável do nosso amigo JSM, um verdadeiro grito de alerta aos que ainda não vêem com clareza o que está perante todos.
Excertos:
«Antes do mais, temos que nos livrar deste império benigno que usa conhecidas palavras de passe, como democracia e liberdade, para cometer atrocidades!
Sem querer, chegámos a um ponto insuportável em que é forçoso concluir – o mundo não precisa destes americanos para nada, muito menos para polícias do mundo ou pastores universais.
Aliás, só a propaganda usada como arma de destruição maciça, poderia ter operado o milagre da quadratura do círculo! De facto, porque carga de água é que um regime republicano, assente em votos e maiorias instáveis, haveria de trazer algum rumo ou alguma estabilidade ao planeta! Nunca trouxe! No caso, resume-se a um jogo de cartas marcadas onde dois jogadores, viciados no lucro, se vão revezando, no faz e desfaz, na invasão e na retirada, no mata e esfola inteiramente comandado pelo egoísmo de um poder obsceno!»

domingo, janeiro 07, 2007

Mais um escritor para o Index?

Será que qualquer dia também se lembram de lançar as obras de Camilo para a ara vingativa dos Savonarolas coevos?

Vão ver o que se passa em cada casa,
Que vive à lei de gótica nobreza,
*****E seus festins nos dá!
Se é jantar, o talher que vem à mesa,
*****O usurário o dera
Em troca do serviço que é do chá.
**
Se é baile, vai em troca do serviço
A inútil baixela do jantar;
*****E assim se faz figura;
E, se é jantar e chá, vão-se alugar
*****Ao sórdido judeu
Ambas as coisas, que absorve a usura.
***
Camilo Castelo Branco, "Coração, Cabeça e Estômago" (terceira parte).

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Viabilidade da Pátria

Sistema de certeza íntimas, agregado de segredos conhecidos colectivamente, conjunto de emoções vividas em comum, rede de interesses partilhados por todos: uma pátria. E os cidadãos de uma pátria, se ainda a sentem, têm de partir do pressuposto da sua viabilidade. Deste modo, e no que respeita aos portugueses, há que basear tudo nesta premissa simples: Portugal é uma nação independente e soberana, tem a viabilidade de continuar a ser independente e soberana, possui os meios de se fazer respeitar. Parece vedado a qualquer português deixar-se permear por ideias suicidas em relação a Portugal; não se afiguram lícitas dúvidas quanto às raízes nacionais; e não se julga curial que qualquer português, que sinta Portugal, possa negar ou não viver a solidariedade nacional. Além de tudo, aquelas premissas alicerçam-se em factos irrefutáveis: Portugal possui uma língua, uma cultura, uma religião, e uma história apenas sua. Está-se perante uma quantidade política e sociológica que, por isso mesmo, desencadeou os meios de se afirmar no tempo e no espaço, e de garantir a sua sobrevivência.
**
Franco Nogueira, "Juízo Final" (1992)

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Uma proposta à vossa consideração

Há uns tempos, a propósito das virtualidades deste e outros blogues nacionais, escreveu-me um leitor e amigo o seguinte: «Se queres que te diga a verdade creio que há q.b. de blogues de Direita e, pelo menos para mim, é-me impossível lê-los a todos com regularidade; no último ano, quanto muito, acrescentei 3 ou 4 blogues aos meus Favoritos. E, de facto, muitas vezes há uma certa repetição dos temas e das questões abordadas: quase todos referem as datas históricas; as conferências de A, B ou C; a saída da revista Alameda Digital, etc.
A ideia que pairou em tempos sobre fazerem um blogue comum parecia-me boa e não sei porque não medrou.»
O nosso amigo levanta várias questões importantes, que devem ser alvo de reflexão.
Assim:
- datas históricas: parece haver um certo cansaço e sensação de repetição, tanto por parte de leitores como de autores. Já "todos" sabem que no dia 3 de Janeiro se vai falar de Drieu, a 6 de Fevereiro de Brasillach, a 25 de Abril de Benito Mussolini, a 27 de Maio de Céline, a 28 de Maio do 28 de Maio, a 18 de Julho do Alzamiento, etc., etc. Mas se se fala dessas datas é porque elas têm um significado que achamos eterno e representam um exemplo para as gerações mais novas. E depois, se não formos nós a falar delas, quem o fará? A omissão representa pontos a favor do sistema;
- conferências, Alameda Digital, etc.: a questão é a mesma, fugir ao bloqueio do silêncio, divulgar iniciativas louváveis e promover a informação alternativa. Como os leitores da nossa área, embora escassos, são fiéis e comuns a vários blogues, acabam por ter que ver as mesmas referências várias vezes, o que só se evita com a sugestão do nosso amigo: um blogue colectivo.
Continuo a ver vantagens e inconvenientes nessa solução, que de resto já convosco partilhei e discuti.
No que aparentemente nunca ninguém pensou foi na criação de um blogue colectivo UNICAMENTE dedicado à divulgação de iniciativas nacionais, sejam encontros, conferências, colóquios, edições, etc. Um blogue meramente informativo, gerido por duas ou três pessoas, podendo n contribuir com as informações que por ora estão dispersas por vários blogues e sites. Em suma: uma Agenda Nacional.
Que vos parece?

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Pierre Drieu la Rochelle (1893-1945)

Representou de certa forma as contradições e os dramas do século XX. Inconformado com o ambiente burguês em que nasceu, sonhou com um "socialismo fascista" e aderiu com entusiasmo ao Parti Populaire Français de Jacques Doriot. O desastre francês de 1940 não o surpreendeu, convicto que estava da inelutável decadência das democracias. Abraçou o ideal nacional-socialista, tornando-se um convicto europeísta. O seu paradigma estava já para além da Nação.
Pierre Drieu la Rochelle nasceu há 104 anos. O seu percurso foi o de muitos franceses (e outros europeus) convictos de que a salvação da civilização ocidental estava numa Europa unida. Pode-se afirmar que abandonou o nacionalismo strictu sensu. Esse confronto entre as duas visões políticas para o mundo ocidental ainda hoje continua a marcar o debate nacionalista em todos os países europeus. A sua ida a Berlim, durante a Ocupação, em conjunto com outros escritores (como Robert Brasillach; Céline absteve-se) foi um marco, para alguns traumático, da atitude de certa intelectualidade francesa num dos períodos mais negros da história gaulesa.
O seu suicídio em 1945, após quase um ano escondido, representou a única saída que encontrou face à sua aposta falhada. "Je demande la mort", escreveu no seu Diário.
Apoiante de um regime anti-semita, ele que teve uma amante judia e teve como um dos melhores amigos o judeu Emmanuel Berl; apoiante de um regime que declarou guerra ao mundo anglo-saxónico, ele que era um apaixonado da literatura britânica; apoiante de um regime inequivocamente totalitário, ele que foi um espírito livre como poucos. Drieu representa a seu modo as contradições de um século trágico e o drama dos compromissos políticos dos intelectuais dessa época.
A sua vasta obra romanesca sobrevive a todas as vicissitudes. Ler hoje os seus livros é um prazer imenso, pela arte de retratar um mundo burguês em decadência acelerada, pela forma como ilustra os impulsos suicidas de um inadaptado que foi ele próprio, pela escrita depurada e expressiva, pela emoção contida que perpassa a cada página. Longe das academias que atribuem tal galardão, Drieu não deixou de conquistar a imortalidade.
**
Ler igualmente o texto (e comentários de leitores) que escrevi há um ano: aqui.

terça-feira, janeiro 02, 2007

O abismo sem fim do Zimbabwe

Enquanto Robert Mugabe se vai agarrando ao poder com unhas e dentes, a situação económica e social no Zimbabwe não pára de se degradar. A escassez de combustível leva a que as prostitutas prefiram receber gasolina em vez de dinheiro. A SIDA, naturalmente, grassa pelo país, morrendo da doença 3.000 pessoas por semana.

Ano Novo no Iraque

domingo, dezembro 31, 2006

Bom ano?

A necessidade dos homens em balizar temporalmente a sua vida leva a que se criem rituais de celebração de determinadas datas e consequente avaliação do que se passou no período que finda. A passagem de ano é propícia a balanços, análises e prospectivas, algo a que a blogosfera também não fica alheia.
Para 2007 desejo algumas coisas mas se calhar não espero que se concretizem muitas. Para além dos desejos que envolvem família e trabalho, o meu Belenenses não poderia faltar, posto que está na corrida para voltar a ser campeão nacional de andebol, 13 anos depois, com uma equipa 100% portuguesa e quase totalmente composta por jogadores com menos de 23 anos.
Gostava de ver daqui a um ano os blogues que mais prezo ainda pujantes de actividade e inconformismo; gostava de ver relançado um debate frontal e honesto sobre os desafios do nacionalismo português.
Gostava de ver a juventude deste país cada vez mais interessada pela sua história e cultura. Gostava de ver as salas de concerto, os museus, as boas livrarias mais procurados pela mocidade desta terra.
Gostava de ver abrir cada vez mais brechas no podre sistema que nos vem desgovernando há décadas, demonstrando uma inépcia, uma desonestidade e um ardor anti-nacional insuperáveis.
Penso que eu e muitos outros que "por aí andam" podem, cada um à sua maneira, dar o seu contributo nesse sentido, nunca esquecendo que se trata de uma tarefa árdua e de longo prazo. Mas é para isso que cá estamos e gritamos: PRESENTE!

Nonices

Antes de mais, torna-se necessário um esclarecimento: muitos leitores de blogues ouviram já falar num tal Nonas, misterioso ser que por vezes nos presenteia com comentários de vibrante portismo e algumas outras coisas acabadas em "ismo". Fiquem os que o não conhecem sabendo que o personagem é um dos principais municiadores de doutrina e informação alternativa dos blogueiros da área nacional. Ele são CDs com dezenas de textos, de Alfredo Pimenta a António Sardinha, de Rodrigo Emílio a Robert Brasillach; ele são dezenas de mails por semana com notícias que não vale a pena procurar nos media - porque lá não aparecem, posto que não ultrapassam o purgatório da democrática censura.
O nosso amigo é além disso - nosso amigo: um camaradão como já não há muitos, amigo do seu amigo, generoso, companheiro, mordaz, irónico e munificente em disponibilidade para nos ouvir.
A notícia de que finalmente se decidiu a abrir um blogue só pode ser saudada. Mas atenção: seres frágeis, sensíveis e democratas de alto coturno devem lá passar de mansinho e levar previamente já no bucho uns comprimidos de valeriana - quem vos avisa vosso amigo é...

sábado, dezembro 30, 2006

(Mais uma) vitória para a democracia

Já aqui o disse e repito: Saddam Hussein foi um ditador brutal e mesmo sanguinário, que nunca hesitou em cometer massacres para reforçar as suas rédeas no poder. Desde os primeiros momentos como presidente, quando designou sadicamente, numa assembleia do Baath, os elementos que iria eliminar, que Hussein deixou a sua marca.
Mais do que ninguém, iraquianos (e iranianos) sofreram na pele a sua governação despótica e pouco preocupada com as necessidades do povo. Poder pelo poder, poderia ser a sua divisa.
A sua execução nesta madrugada foi em especial saudada por xiitas e por... democratas ocidentais, em particular George W. Bush, que nela viu uma marca do avanço democrático no país que invadiu, desgovernou e ajudou a lançar numa feroz guerra civil. Responsável por dezenas de milhar de mortos, pela inépcia, falta de planeamento, messianismo democrático e desleixo que a sua administração demonstrou, Bush nunca será julgado pelos seus crimes. Tal como Blair, outro impecável democrata.
Muito na sombra em todo este processo, Israel vai marcando pontos na sua agenda internacional. Um Iraque dividido ou mesmo retalhado será algo sempre do agrado do estado sionista, que vai vendo com satisfação ruírem os últimos vestígios de pan-arabismo.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Os "pela morte"

Só agora reparei que, com a mudança efectuada ao template deste blogue, me esqueci de listar os blogues que defendem a vida, algo que agora se repõe.
Um desses blogues, o Razões do Não, fala-nos da campanha do Bloco de Esquerda e do infeliz (adjectivo que é redundante sempre que se fala nas actividades daquele agrupamento) cartaz que já por aí anda a infestar as nossas cidades, no qual se vê «dois homens de blusão e óculos escuros [que] conduzem pelo braço uma mulher que tapa a cabeça e os ombros com um casaco. Um enorme Sim e a frase “para acabar com a humilhação” concluem a mensagem.»
Esta é a típica argumentação modernista que tão bem vem caracterizando há dois anos e meio o nosso amigo Corcunda. Numa era em que, na sequência das "lutas de Maio de 68", tudo ou quase tudo é permitido; em que a governação, para além da satisfação dos grupos de pressão que a sustentam, se subjuga às pressões da rua; segue que qualquer humilhação de certos grupos de pessoas é manifestação de repressão ou fascismo, incompatível com as liberdades de Abril. Portanto, a palavra de ordem é "fim à proibição", ou seja, "liberalização".
Abandona-se qualquer concepção de valores que não seja a "autorização", esquecem-se os princípios que devem nortear uma sociedade que se pretenda sã e harmoniosa, estimulam-se as reivindicações sem fim. Levando esta postura ao seu limite lógico, por que motivo é que se continua a "humilhar" os pedófilos? E os violadores? E os incestuosos? Porque não legalizar a necrofilia?
A lógica de "reprimir a repressão" leva as sociedades ocidentais ao abismo com uma velocidade arrepiante. Mas não será esse o objectivo dos seus mentores: acabar de vez com a civilização ocidental?

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Ligações

O corajoso autor do blogue Admirável Mundo Novo sugere-nos um site de informação alternativa, o Projecto Grifo, que à primeira vista parece ter bastante interesse. Está já na lista de ligações a que chamei "Informação Alternativa". Esta lista foi de resto aumentada com páginas dos EUA, Brasil e Itália. Todas elas merecem a vossa consulta frequente, tal o seu manancial de informações, que normalmente não chegam às rotativas da grande imprensa. Coisas da "era da (des)informação".

terça-feira, dezembro 26, 2006

Em vão?

Quantos blogueiros se reconhecerão no retrato do jornalista verdadeiramente independente feito por Camilo em "Coração, Cabeça e Estômago"?
**
«O jornalista austero será sempre um ente malsinado e odioso para todos os governos. Hão-de expulsá-lo sempre do sacrário poluto das mercês, onde reina o ladrão laureado, que tem o segredo de abater ministros erguidos, e exaltar ministros despenhados.»
**
Desejo sinceramente que o valor dos blogues nacionais não seja confrontado com o resultado desolador do labor do malsinado Silvestre:
**
«Partiu o braço, querendo parar o movimento da roda. Desbaratou a melhor parte do seu património em publicações panfletárias, que não rasgaram sulco algum para as searas do futuro progresso da humanidade. Criou inimigos, que nem sequer lhe tidam lido as diatribes, nem lhe podiam perdoar as graças do estilo - inimigos que não sabiam ler, os piores de quantos há.»

Neo-neo-realismo

Ontem, o programa "Poesia e Música" da Antena 2 não arranjou melhor poesia para celebrar o dia de Natal que a de Joaquim Namorado, uma das figuras do neo-realismo português. E logo com um poema a satirizar a sociedade, claro. Mesmo em dia santo (ou precisamente EM dia santo) a ideologia mostra as suas garras vigilantes.

sábado, dezembro 23, 2006

Dickens e o espírito de Natal


«There seems a magic in the very name of Christmas.» (Charles Dickens)
**
Desde jovem que para mim o espírito de Natal está antes de mais expresso nas magníficas páginas de Charles Dickens. Seja no clássico "A Chistmas Carol", que narra a metamorfose do mesquinho Scrooge, que acaba por ser conquistado pelo significado humano do Natal, seja indirectamente nas obras em que o protagonista é um jovem, como em "Oliver Twist" ou "David Copperfield".
E isto porque o genial escritor representou sempre as crianças como vítimas inocentes da maldade dos adultos, embora não seja raro que estes por vezes se sensibilizem para os valores humanos mais puros. Num mundo de egoísmos, de ganância, de luta pelo poder, são as crianças as primeiras vítimas dos confrontos dos adultos. Lançado num turbilhão de conflitos e paixões, o jovem de Dickens tenta sobreviver e agarrar-se ao mais leve sinal de calor humano que encontre.
Não há outra época do ano em que essa necessidade melhor se expresse que no Natal, momento em que até os adultos parecem querer sucumbir aos seus encantos, agarrando-se às memórias de infância, às luzes de um passado mais distante pela transformação ocorrida nas suas vidas que pelo simples passar dos anos.
A comemoração do nascimento do menino que veio salvar o mundo é dos poucos sinais de transcendência que o homem contemporâneo pode alcançar. Subvertido pela glorificação do consumo e pela avalanche de ofertas e embrulhos que quase ocultam o pinheiro, o Natal está em vias de sofrer a última derrota face ao materialismo cego que Dickens sempre denunciou, valorizando o que de bom há no homem, criatura sempre propensa a lançar-se no abismo e a esquecer as virtudes que Deus lhe concedeu.
Por uns dias creiamos que esse combate não está perdido e que um dia nos corações dos homens se iluminará perenemente uma luz tão brilhante como a que guiou os Reis Magos há dois milénios.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Distinção

E agora uma notícia mais agradável: este blogue foi eleito, por um painel de 34 votantes, o 5º melhor blogue português. Pese o exagero da distinção, não deixo de ficar satisfeito por ver reconhecido o valor desta vossa casa. Os meus agradecimentos aos votantes e em especial ao Restaurador, um grande amigo do "Horizonte" e animador desta iniciativa com um nome muito bem escolhido: "Conjurados 2006".

Os inversores

O governo espanhol anunciou hoje que vai financiar a 100% mudança de sexo a partir de 2008. Leram bem: 100%. Numa altura em que todos os governos da União Europeia tentam (supostamente) cumprir critérios de disciplina orçamental, o governo do PSOE define como prioritário financiar as pataletas mentais de alguns invertidos.
É patético (e sinistro) verificar como a esquerda, perante a evidência do fracasso do seu modelo económico - e consequente aceitação do capitalismo como melhor forma de afectação de recursos e produção de riqueza na sociedade -, se tem virado para uma ofensiva aos valores antigamente epitetados pelos comunistas e alguns socialistas como "burgueses" e que mais não é que o desmontar, peça a peça, a estrutura tradicional (ou o que resta dela) das nossas sociedades ocidentais, assentes na célula familiar.
O que está em causa é uma revolução imposta pelo poder, apoiada pela comunicação de massas às ordens e inoculada numa população cada vez mais amorfa e mergulhada nas precupações do quotidiano e no divertimento tornado objectivo máximo da existência.
Quando (e se) acordarem será demasiado tarde.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Uranus

Recebi há dias uma encomenda em que se incluía o DVD de "Uranus", a adaptação cinematográfica da obra-prima de Marcel Aymé, realizada por Claude Berri em 1990.
O filme é verdadeiramente extraordinário, respeitando o espírito do romance de Aymé, o qual retrata a vida numa vila francesa em 1945. Após os bombardeamentos aliados a povoação viu algumas das suas casas serem arrasadas.
O engenheiro Archambauld vê-se obrigado a dar alojamento a Watrin, um professor humanista e ingénuo quanto à natureza humana (genial Philippe Noiret), e a um casal de comunistas. Um dia acaba por albergar também um colaboracionista perseguido pelas milícias comunistas.
Temos também o taberneiro Léopold (Gérard Depardieu), que fecha o seu estabelecimento todos os dias por algumas horas para acolher os alunos cuja escola sucumbiu às bombas. O bom homem, que emborca vários litros de vinho branco por dia, descobre, ao assistir às aulas, uma veia poética até aí insuspeita na sua pessoa. E vai de recitar "Andromaque", a obra de Racine, tentando verificar em cada verso a existência de doze sílbas métricas. Não tarda muito que ele próprio comece a escrever recorrendo ao mesmo processo, o que dá lugar a momentos divertidíssimos, senão reparem: "De-puis-que-j'suis-pe-tit-je-n'ai-bu-que-du-blanc" ("desde pequeno sempre bebi vinho branco") - 12 sílabas!
O ambiente na pequena povoação está envenenado pela preponderância dos comunistas na gestão da mesma e pelo terror que geram pela permanente caça ao "collabo" (noção de âmbito bem alargado). A sua única preocupação é o serviço ao Partido, sendo todas as outras considerações passadas para segundo plano.
É notável a cena em que se dão as boas vindas aos prisioneiros de guerra que regressam ao torrão natal após cinco anos de cativeiro na Alemanha. Archambauld veste o seu melhor fato, que «não tinha uso desde a vinda do Marechal [Pétain]», demonstrando através do exemplo de um cidadão apolítico o carisma, o respeito e a consideração que o comum dos franceses nutria pelo velho soldado que fez dom da sua pessoa à França. Durante a cerimónia de recepção um comando comunista detecta um "collabo" entre os ex-prisioneiros e toca a espancá-lo. Nem os seus colegas de cativeiro intervêm. Apenas o bom Watrin afasta os contendores, desabafando de seguida para Archambauld: «somos todos cobardes e hipócritas, mas é isso que esta época exige de nós».
Muitas outras peripécias ocorrem, muitos dilemas pessoais e políticos assolam os personagens, num dos raros exemplos cinematográficos de exploração da ambiguidade, das incertezas, dos medos e das incongruências do comportamento humano em períodos turbulentos. Uma obra-prima que certamente encheria de orgulho Marcel Aymé.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

"Vontade"

A grande notícia blogosférica desta semana é o regresso do Rodrigo, apenas cinco semanas após o fim do Batalha Final. Vem até nós sob os auspícios da Vontade, conjugando a qualidade de sempre com um aspecto gráfico muito atraente.
Passem por .

terça-feira, dezembro 19, 2006

Sobre o revisionismo

Vai assanhada a discussão nos blogues nacionais sobre a conferência realizada em Teerão para debater o Holocausto, esgrimindo-se os argumentos já estafados de ambos os lados (o que não quer dizer que alguns não sejam válidos mas tornam-se quase inúteis pois o "oponente" nunca irá ler os links sugeridos, arreigado que está à sua "verdade").
Quando se chega ao insulto, que mais não é que uma forma de ruído para calar os argumentos do rival, já não se justifica perder tempo seguindo as discussões. Quando se lê que os "negacionistas" que estiveram no Irão são ou nazis ou lunáticos (ou as duas coisas ao mesmo tempo) parece-nos que para certas pessoas ainda se poderá dar um largo uso às técnicas "psiquiátricas" tão usadas na ex-URSS.
A verdadeira questão que deveria ser debatida é muito simples: porque razão é que em muitos países do mundo ocidental é proibido investigar sobre o tema, incorrendo-se em penas de prisão, e em quase todos está na prática reservado o papel de pária aos prevaricadores da "verdade oficial"?
Enquanto não houver liberdade de investigação os defensores do dogma não estarão livres de o ver questionado - e com maior ardor do que se houvesse aquela liberdade. É evidente que qualquer pessoa desconfia que seja proibido escrever em tom crítico sobre as conclusões oficialmente definitivas sobre o tema.
Duas conclusões decorrem daqui: que a história da II Guerra Mundial está muito mal contada (senão os factos valeriam por si) e que o lobby judaico continua a ter um poder imenso, ditando leis e lançando anátemas aos heterodoxos.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Mas você afinal é judeu!!!

Para os filo-sionistas (ou sionistas sem prefixo) que gostam de proclamar que em Israel todos, judeus ou árabes, são tratados de igual forma pelas autoridades, aconselho a leitura deste episódio vivido pelo autor do excelente blogue Desert Peace.

Lopes Graça

Desafiam-me os amigos Sarto e Mário a discorrer sobre a obra de Fernando Lopes Graça, que nasceu fez ontem 100 anos. Lamento desiludi-los (pelo menos em parte), pois não sou profundo conhecedor da mesma.
Conheço e aprecio a "História Trágico-Marítima, para barítono e orquestra". Nunca ouvi "Requiem pela Vítimas do Fascismo em Portugal" pelo parti-pris ideológico que lhe subjaz, desde logo no título. Vindo de um comunista empedernido será uma lição de moral mais que equívoca.
Da sua música de câmara a impressão que tenho é que é demasiado árida e pouco cativante. De clara influência bartokiana, reteve do mestre a técnica e o estilo de composição mas não aquele toque de génio que não é apanágio de qualquer um.
Da obra de Lopes Graça o mais perene serão as suas obras de inspiração popular, sobre cuja fidedignidade ao original não tenho condições de me pronunciar mas que à primeira audição destilam portuguesismo em grande escala, sendo de uma simplicidade e clareza desconcertantes. Pelo menos uma das lições do grande Bartók - a recolha das grandes tradições do folclore nacional - foi aprendida pelo seu émulo português.

sábado, dezembro 16, 2006

Um império de peso

Deve ser o indicador por excelência do progresso hodierno: os EUA têm a população mais gorda do planeta - a que come mais e pior, empanturrando-se de fritos e toda a sorte de gorduras e açúcares, refastelando-se em seguida horas a fio a ver filmes ou a navegar na internet.
São, claro, também os maiores "produtores" de lixo do mundo. E, pior, exportadores, pois o seu imperialismo económico é acompanhado pelo imperialismo cultural. Ditam-se modas, comportamentos. Promovem-se opções de vida, gostos musicais. Enchem-se os olhos de miúdos e graúdos com películas produzidas na América.
Desde a I Guerra que a ofensiva começou mas o impulso decisivo foi o pós-II Guerra. Os exércitos de Alexandre eram acompanhados, nas conquistas do macedónio, por sábios que promoviam a cultura helénica. Os exércitos do Tio Sam trazem consigo latas de Coca-Cola, hamburgers e bobinas de Hollywood. Que melhor sinal do progresso indefinido da civilização ocidental?...
Os últimos tempos de fausto do Império Romano tinham como imagem de marca os seus senadores anafados, já sem forças para se levantar e preparar a resistência às invasões bárbaras. Será que os balofos americanos simbolizam o canto do cisne do domínio da jovem e já decrépita nação?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

A religião na música

Mahler, tal como Mendelssohn judeu convertido ao cristianismo, nunca compôs uma missa. Interrogado uma vez sobre se pensava colmatar essa omissão, respondeu o genial compositor: "E o Credo?..."
É claro que não é necessário ser crente para se compor uma obra de inspiração religiosa e um dos melhores exemplos é o fantástico "Requiem Alemão" do agnóstico Johannes Brahms.
Em contrapartida, Joseph Haydn contava como tinha composto "A Criação" com uma enorme alegria devota, algo que transparece quase nota a nota na belíssima... criação do austríaco.
Os nossos tempos são mais dados a dúvidas, inquietações, terrores. O compositor alemão Bernd Aloïs Zimmermann (1918-1970), profundamente católico, suicidou-se cinco dias após compor o impressionante "Ich wandte mich um und sah alles Unrecht das geschah unter der Sonne - Acção Eclesiástica para dois narradores, contrabaixo e orquestra", que tive a rara felicidade de escutar ao vivo no CCB (em 2001) em concerto da Orquestra da Flandres sob a direcção de Luca Pfaff, incansável divulgador de música contemporânea. A obra, além de belíssima, é de uma angústia extrema, terminando com o maestro sentado em atitude de recolhimento, escutando as últimas notas da peça.
Nos nossos tempos cada vez menos a religião consegue aliviar o angst que nos ataca, impiedoso.

Ainda Pinochet

Pouco antes do seu passamento, e de forma telegráfica, falou-se aqui de Pinochet. De entre os muitos textos publicados na blogosfera a propósito da morte do general chileno destaco três:
- Adeus, General Pinochet, em Claudio Telléz (com um excelente enquadramento histórico);
- É morto Pinochet, na Informazione non conforme (num tom mais crítico).

Enfunar a vela

Custa-me ver passar os dias e olhar para o blogue sem actualizações.
Agrada-me ler os comentários de amigos sobre as vantagens de manter um blogue.
Confortam-me os seus incentivos.
Reflicto sobre os seus comentários e reparos sobre os blogues nacionais em geral e este em particular.
Depois...
... depois há dias, como hoje, em que a pena (melhor, os dedos sobre o teclado) desliza ligeirinha.
Tal como com todos os outros desânimos, que as periódicas crises existenciais blogueiras nunca levem os autores a abandonar o barco. Uma vez por outra acostamos, veraneamos por terra, detemo-nos numa ou noutra paragem em solo firme. Depois - é retomar o rumo, com o horizonte que nos é caro na mira.

domingo, dezembro 10, 2006

Racismo no desporto

Mais uma vez é notícia o comportamento alegadamente racista de adeptos portugueses. Desta vez foi no Académica-UTAD, da 2ª divisão A, em futsal. Dois dos jogadores da UTAD foram mimoseados durante o jogo com urros de macacos e um deles acabou por chutar a bola para a bancada, sendo expulso em consequência.
Não serei eu a desculpar este tipo de comportamento grosseiro por parte dos adeptos academistas mas parece-me que se está a criar um clima propício à criminalização do mesmo, a exemplo do que vem sendo seguido e sugerido pela UEFA. Não estará longe o dia em que as pessoas irão a um espectáculo desportivo - onde habitualmente se deslocam para descontrair ou, o que é inevitável, para encontrar um escape - tolhidas de receio por o que possam dizer. Será legítimo, perante uma falta de um jogador de cor, gritar «para a rua» ou «grande besta», ou essas exclamações só poderão ser usados para com os brancos?
A crimideia orwelliana ganha cada vez mais forma num contexto democrático de repressão de pensamento e de atitudes não conformes. E, como é costume, as consequências serão contraproducentes para com o repressor.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Concerto para Violino de Luís de Freitas Branco

Muitos de vós conhecem de ginjeira os Concertos para Violino de Beethoven ou Brahms, alguns até o de Dvorak, todos obras recomendadíssimas. Mas quantos é que conhecem o Concerto para Violino de Luís de Freitas Branco?
Um dos nossos melhores compositores do século XX, Freitas Branco compôs o citado concerto em 1916, ano em que o nosso país entrou na Grande Guerra e um ano depois de o autor ter rompido com o Integralismo Lusitano, após uma atracção inicial por esse movimento de regeneração nacional.
De estrutura clássica e temperamento declaradamente romântico, o concerto parece pertencer já à fase dita neo-clássica do seu percurso criativo, já algo distante das experimentações anteriores de vanguarda, de que o genial "Vathek" (de 1913) é paradigma. É uma obra simplesmente tocante, arrebatadora, terna e com um não sei quê de bem português: uma melancolia, uma simplicidade expressiva...
A escutar, sempre.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

E o vencedor é...

Fugindo um pouco à ironia do meu postal anterior sobre o tema, pensemos um pouco sobre os motivos para a vitória de Oliveira Salazar no concurso "Grandes Portugueses".
Serão os votantes nostálgicos do Estado Novo? Eu arriscaria a dizer que mais de metade não o será mas terá votado no professor:
- por provocação;
- por despeito pela censura inicial da RTP, ao excluir o nome do insigne estadista da lista original;
- e, talvez o mais importante, por muitos portugueses, independentemente da sua ideologia, reconhecerem no antigo Presidente do Conselho um exemplo de abnegação à causa pública, de honestidade, de sentido de Estado, de defesa do interesse nacional. Tudo coisas que não identificam na classe política dos últimos 32 anos.
O resultado do concurso é, assim, uma bofetada sem luva aos que nos vêm desgovernando desde o 25/4, enchendo-nos os ouvidos com as supostas maravilhas da democracia e com os horrores da ditadura. Bofetada também a todos os propagandistas, políticos e jornalistas, que têm passado essa mensagem tão mal captada pelos portugueses.

Prioridades

No mesmo dia em que voltou a ser notícia o aumento do número de portugueses que procuram trabalho em Espanha, Marques Mendes visitou associações de imigrantes e defendeu o alargamento dos seus direitos ao nível da participação política.
aqui mostrámos, com recurso ao humor do amigo JSM, que o nosso país está a ser testemunha de uma substituição de populações: os naturais vão viver para outras paragens, os que ficam têm cada vez menos filhos e levas de imigrantes vêm para cá trabalhar. Marques Mendes mostrou com quem estão as suas preocupações.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Escócia independente?

Intensifica-se nas Ilhas Britânicas o debate em torno da possível independência escocesa, a um ano de se cumprirem os três séculos que já dura a União. Infelizmente, como é típico do debate actual, a análise centra-se sobretudo nos aspectos económicos. A nacionalidade é, assim, antes de mais o resultado de uma análise económica! Considerações de baixa política (redundância?), mormente o apoio dos deputados escoceses ao Labour na Câmara dos Comuns, também têm o seu papel.
A concretizar-se a independência escocesa, haverá algum efeito bola de neve na Irlanda do Norte? As clivagens político-religiosas no território provavelmente impedi-lo-ão. Por lá vinga o "dividir para reinar" tão caro à Velha Albion.

Pinochet

Fez um golpe de Estado patrocinado pela CIA. Procedeu ao assassinato de opositores. Governou em ditadura. É a besta negra da esquerda.
Também acabou com a aventura socialista no Chile, desenvolveu o país e abdicou voluntariamente do poder, de uma forma democrática.
Não foi um exemplo. Mas sê-lo-á Fidel Castro, no poder há meio século? A hipocrisia da esquerda não tem limites.

O grande português

Parece que o Dr. Salazar foi o grande vencedor do cretino concurso da RTP "Grandes Portugueses" (o tal que nos dava a possibilidade de votar no Dr. Sampaio ou em Luís Figo para maior figura da nossa história). A culpa é do 25 de Novembro e de quem procedeu à interrupção voluntária da dinamiz(t)ação cultural.
Volta, Duran Clemente, estás perdoado!

Ditos e contraditos

Primeiro: Maria Cavaco Silva declara-se "de centro-esquerda". Será que só resta ao Dr. Louçã assumir-se "de extrema-esquerda"?
Segundo: Marques Mendes declara-se contra o aborto mas afirma que o PSD não vai dar indicação de voto pois a matéria é do foro íntimo e das convicções de cada um. Não é o que dizem os pró-abortistas sobre a IVG?
Terceiro: o Ministro das Finanças declara que o orçamento de Estado para 2007 é um documento de rigor, sem desorçamentações, pois Bruxelas não deixaria de topar com esses malabarismos. Quer dizer que se Bruxelas não topasse a coisa far-se-ia? Sem complexos?

sábado, dezembro 02, 2006

Sociedade Histórica da Independência de Portugal

O site oficial da Sociedade Histórica da Independência de Portugal tem uma secção de loja virtual, que permite adquirir livros sem sair de casa. Alguns deles dizem precisamente respeito à Restauração, como o que ilustra este postal.
Notável é, igualmente, a secção de banda desenhada histórica, com reprodução de trabalhos de autores portugueses, muitos deles originalmente publicados na excelente revista "Camarada" (uma revista editada pela Mocidade Portuguesa que divulgou autores nacionais, alguns deles de grande talento).
Tudo bons motivos para celebrar a infelizmente cada vez mais virtual independência nacional.

A Restauração vista de Itália

É notável que o blogue Informazione non conforme, o tal que tem links para blogues nacionais, como este "Horizonte", tenha publicado um postal sobre o 1 de Dezembro português, com título na nossa língua e tudo!
Grazie, ragazzi!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

D. João IV, o Restaurador

"Juro reger e governar bem e directamente" (D. João IV).
*
«Escolhido para ocupar o trono, chega a Lisboa a 6 de Dezembro de 1640 onde é entusiasticamente recebido pelo clero, nobreza e povo; a 15 do mesmo mês, no Terreiro do Paço, é solenemente aclamado rei. Tomou imediatamente medidas decisivas para garantir a Restauração, batendo-se com bravura para assegurar o seu triunfo. Pune com extrema severidade a conspiração a favor de Madrid encabeçada pelo arcebispo de Braga e que tem como correligionários o Inquisidor-Geral e o marquês de Vila Real. Dotou o país de novas fortalezas e foi grande impulsionador da adaptação das existentes aos novos métodos de guerra, tornando o país capaz de defrontar as forças espanholas (1644) na Batalha do Montijo, em Espanha. Proporcionou verdadeiras embaixadas às cortes europeias de modo a assegurar o apoio das restantes casas reais à causa da Restauração. Nem sempre esta tarefa se revelou fácil, visto que durante a ocupação filipina muitas das nossas colónias tinham sido ocupadas por esses reinos, como foi o caso dos holandeses no Brasil, que, por isso, se mostravam renitentes em reconhecer um novo rei em Portugal.
Em política interna desenvolveu uma larga actividade legislativa, consolidando a Restauração através de um persisitente esforço político, administrativo e militar.
A defesa do Brasil também não foi esquecida e os holandeses são expulsos. (...)
Apesar de a sua época ser já a do absolutismo real, D. João IV prefere consultar várias vezes a nação, reunindo Cortes por cinco vezes entre 1641 e 1653.»
*
Manuel de Sousa, "Reis e Raínhas de Portugal" (2000).

Restauração

"Coroação de D. João IV" (1908), obra de Veloso Salgado (1864-1945).