segunda-feira, dezembro 03, 2007

A mafia, hoje e sempre

A revista italiana L'espresso dedicou, na sua edição de 22 de Novembro passado, um artigo à captura do chefe mafioso Salvatore Lo Piccolo. A descrição das suas actividades é incrivelmente similar àquela que nos é mostrada na série televisiva "O Polvo" ("La Piovra"), em particular a excelente sétima série (já sem a personagem do Comissário Corrado Cattani mas com a qualidade inalterada).
Os rendimentos do capo eram na ordem dos 200 mil euros semanais, todos oriundos de actividades clandestinas. A esta simpática soma há que acrescentar os dois milhões mensais que obtinha pela extorsão dos comerciantes sicilianos (il pizzo, prática brilhantemente caracterizada na citada sétima série de "O Polvo"). E não se pense que as vítimas eram apenas pequenos comerciantes; empresas como a Telecom, a Mediaset e a Auchan também pagavam a "mesada" a Lo Piccolo.
A questão seguinte é: o que fazer a tanto dinheiro? Antes de mais, investir na construção imobiliária, com o que contava com a colaboração de alguns políticos locais, sempre necessária para o licenciamento de obras e aprovação de projectos. Depois, em casas de jogo. E, claro, convinha ter apoios na banca; no caso, os investigadores descobriram que a Banca Popolare di Lodi (hoje, Banca Popolare Italiana) fechava os olhos à circulação de dinheiro sujo (denaro sporco), que muitas vezes terminava na Suiça, às vezes transportado em camiões de transporte de valores; foi um destes transportes que foi interceptado pela polícia, que descobriu que quem entregou os valores foi um empresário na área da grande distribuição, dono da cadeia de supermercados Sgroi.
A polícia teve a fortuna de interceptar uma conversa entre três homens de Lo Piccolo, que comentavam que os supermercados Sgroi não teriam tanto sucesso se não fossem "os de cima"; e quem eram esses peixes grossos? O maior (il più grosso) era "o Africano, o das minas de ouro"; trata-se de Robert von Palace, associado de Provenzano que, nos anos oitenta, reciclava dinheiro sujo na Suiça, dinheiro esse proveniente do tráfico de heroína; hoje reside na África do Sul onde detém a empresa de diamantes Rbc Corporation; é também, graças às suas boas relações com o ANC, o fornecedor de água mineral (La Vie) à companhia aérea sul-africana; o currículo de Palace inclui também negócios com o célebre Rocky Agusta, via a Banca del Gottardo de Monte-Carlo. (Os leitores lembrar-se-ão do "caso Agusta", o escândalo de suborno a socialistas belgas para facilitar a escolha pelo governo belga dos helicópteros Agusta para o exército.)
Lo Piccolo, como muitos mafiosos de estalo, começou por ser um subalterno de um grande mafioso, no caso Bernardo Provenzano. Com 19 anos já controlava il pizzo em San Lorenzo. Ao ser preso, Lo Piccolo beija a boca de um dos seus "amigos", Gaspare Pulizzi - cuja boca deve ficar cerrada. "L'espresso" fala de "uma mafia arcaica e um pouco animal". Arcaica ou não, a mafia sabe reciclar-se e adaptar-se ao mundo moderno, com a mestria (e animalidade) de sempre.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Olhó mail!

Quem seguiu com atenção a entrevista de ontem de Manuel Monteiro à SIC Notícias não terá deixado de reparar que MM, falando do papel do SIS na identificação dos "indesejados" que invadiram o PND, menciona "sites, blogues e mails trocados" que permitem claramente aferir do carácter anti-democrático e de todo inadequado aos princípios do PND manifestado pelos "extremistas".
Como se interroga o Manuel, será que «o SIS pode vigiar cidadãos e organizar ficheiros com base nas suas tendências políticas? Podem fazer-se licitamente os cruzamentos de dados mencionados na notícia?» Estará o sistema democrático tão ameaçado pela acção de meia dúzia de rapazes de extrema direita e terá a histeria chegado a tal ponto que o SIS não tenha mais nada que fazer que se entreter a peneirar os blogues, fóruns e e-mails daqueles que supostamente constituem ameaças ao regime? Ou será esta apenas uma manobra para, pela enésima vez, desviar as atenções das massas da desgovernação com que são confrontadas no dia-a-dia?
Pelo sim, pelo não, já sabem que "Big Brother is watching you". Tal como Winston Smith, temos que arranjar um cantinho nos nossos quartos que esteja protegido dos olhares ameaçadores e indiscretos do Grande Irmão.

Pais do futuro

Não tenho seguido com demasiada atenção o chamado "caso Esmeralda". Tal como o meu amigo Corcunda, «há dias em que olho à volta e me sinto fora deste contexto». Embora seja um drama a situação da menina, o impacto mediático do caso é excessivo face a outros problemas que assolam o país e o mundo.
E neste caso é flagrante a manipulação da opinião pública. A utilização permanente dos termos "pai biológico" e "pais afectivos" não é inocente. Se há quem pense que a defesa destes últimos por parte dos jornais e televisões deriva da filiação maçónica do "pai afectivo", eu vejo a questão com maior amplitude: porque é que em vez de "pais afectivos" não se fala em "pais adoptivos"? Porque é que o pai da criança é remetido para o simples papel "biológico", separando-se a concepção do afecto?
A meu ver a mediatização do "caso Esmeralda" configura simplesmente mais um atentado à família, desumanizando-se a paternidade e dando-se a entender que qualquer um, desde que tenha afecto para dar, pode ser um "pai substituto". Já não virá longe o tempo em que "pais biológicos" que sejam considerados "inimigos de democracia" podem ver-lhes retirados os filhos, que seriam entregues a "pais afectivos" - ou a centros de reeducação. Democrática, claro.

domingo, novembro 25, 2007

Censura "Português Suave"

A RTP 2 começou no passado sábado dia 17 a transmitir uma mini-série documental de três episódios sobre a ascensão e queda do comunismo: "Comunismo - História de uma Ilusão". Etiquetada pelo canal público como uma «fascinante série documental», a série teve o referido primeiro episódio transmitido pelas 22hoo. Ontem (ou melhor, hoje), o segundo episódio foi para o ar às... 3h40 da madrugada! Será porque a série se interroga porque «é que milhares de pessoas acabam com a repressão a indignidade e a opressão económica e mesmo assim continuam fiéis ao conceito de comunismo» (o "Português" desta frase é de um nível espantoso)?
Seja como for, assegurou-se que a série passasse a uma total obscuridade. Vai-se sempre a tempo de corrigir os "erros", neste caso o de ter posto no ar uma série inconveniente...

sexta-feira, novembro 23, 2007

Breves de uma breve passagem por Espanha

Por pouco tempo que se esteja em Espanha é impossível não nos darmos conta, seja via rádio, jornais ou conversas com pessoas, da fractura que o governo PSOE está a criar no país, avançando com leis feitas à medida de minorias pequenas mas influentes, promovendo o separatismo regional, contemporizando com terroristas e seus apaniguados, respondendo a algumas críticas pertinentes da oposição em tom arrogante e despropositado (já para não falar do incrível caos dos transportes públicos na Catalunha). Ricardo de la Cierva, de resto, denunciou o programa maçónico do PSOE em alguns livros que se pode adquirir facilmente.
Livros. É pujante o mercado editorial espanhol, multiplicando-se as edições não conformistas, nomeadamente em três vertentes temáticas: a "governação" do PSOE, as críticas à investigação aos atentados de 11 de Março de 2004 e a reanálise e a crítica da historiografia politicamente correcta da Guerra Civil de 1936-39 (aqui Pío Moa é o autor em maior destaque; autor que agora lançou um livro sobre os primeiros anos do pós-guerra civil). Também notei uma edição cuidada (e crítica) da parte do Diário de Joseph Goebbels escrita (melhor dizendo, ditada pelo autor) em 1945 (La Esfera de los Libros, Outubro de 2007) e a edição de mais um livro de Daniel Estulin ("Los Señores de las Sombras"). E apreciei ver uma edição de bolso com a tradução do não especialmente conhecido "Féerie pour une Autre Fois" de Céline. Algo que este amigo não deixará de apreciar.
Dizem os especialistas que o crescimento económico espanhol e a saúde das contas públicas assenta em grande medida no boom imobiliário, sector que mais cedo ou mais tarde se vai retrair, antevendo-se mesmo um período de recessão que contrastará fortemente com a aparente pujança económica do país. Não deixou de me impressionar que a qualquer hora do dia é difícil de estar mais de um ou dois segundos (não é exagero) sem se ver passar um ou mais veículos pesados na auto-estrada que vai da fronteira com França até Santander, passando por Bilbau. Sintoma da nossa época de produção e consumo desenfreados, de crença no crescimento infinito e no progresso económico (que traz por arrasto a agenda socialmente progressista).

sábado, novembro 17, 2007

Sobre cuspidelas

A propósito - e em complemento - a esta notícia trazida pelo Dragão, recorro ao Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora (edição de 1979):
***
Judío, adj. hebreu, judeu (...) fig. judeu, avarento, usurário; judeu, diz-se do rapaz que cospe sobre outro.
***
Fiquei com alguma curiosidade em espreitar as edições mais recentes (actualizadas) deste dicionário...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Corrente aleatória

Instam-me dois prezados confrades, a Gazeta e o Dragão, a que
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procure a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o meu blogue a frase encontrada;
5. Aumente, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.
Posto isto, fechei os olhos e tacteei pela estante mais próxima. Do primeiro livro com mais de 161 páginas que encontrei transcrevo algumas (e não apenas a quinta) frases da página 161, de modo a ampliar e justificar o pensamento (e presciência) do autor (autor que sei ser do agrado dos dois blogadores citados).
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«Uma China plenamente industrializada seria, passadas duas ou três décadas, o fim do Japão como país industrial e, portanto, como grande potência. No dia em que a China estiver industrializada poderá, devido à posse de uma mão-de-obra mais barata do que a do Japão, exportar para todo o mundo a preços muito mais reduzidos do que os Japoneses, exactamente como o Japão vendia os seus produtos em todos os mercados a preços muito inferiores aos dos Estados Unidos e da Inglaterra. Para Tóquio, a industrialização da China não era só a perda do próprio mercado chinês: era a perda dos mercados japoneses em toda a parte. O Japão, portanto, tem de intervir no desenvolvimento futuro da China, e procurar coordená-lo com o seu, sem que isso implique, necessariamente, um contrôle militar ou territorial. Finalmente, uma China poderosa e hostil seria um sobressalto contínuo para a vida do arquipélago.»
Franco Nogueira, "A Luta pelo Oriente", segunda edição, Ática, 1962.
***
Desafio, agora, ao mesmo exercício a paciência de três confrades: o Pedro, o Nonas e o Manuel.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Perdas e perdas

Os alemães actuais condenaram-se a uma auto-mortificação masoquista e doentia, como se devessem sofrer até ao fim dos tempos pelo que sucedeu na Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Atrocidades em guerra são praticadas por mais contendores que aqueles que se assumem, e em especial os que vencem os conflitos saem como que imaculados das matanças que protagonizaram.
Consequência lógica: as vítimas desses actos são esquecidas, como se (o condicional aqui é ingenuidade minha) houvesse vítimas de primeira e vítimas de segunda. Muitas das que foram relegadas a esta segunda categoria são, no caso do conflito referido, de origem alemã. E é o próprio povo alemão que hoje parece ignorar o drama vivido por tantos dos seus antepassados. Segundo Tomislav Sunic, morreram entre sete e oito milhões de alemães durante e após a II Guerra, um pouco mais de metade dos quais efectivamente após a rendição alemã de 8 de Maio de 1945.
James Bacque contribuiu há cerca de quinze anos para revelar o destino dos prisioneiros de guerra alemães, condenados a uma morte atroz - em campos de concentração aliados, isto é, dos "bons". Sunic, em artigo da VoxNR, fala-nos do destino dos alemães, militares e civis, na Jugoslávia titista, enquadrando-o na problemática mais geral dos alemães do Danúbio (Schwabendeutsche) que, do país citado à Polónia, passando pela Checoslováquia, morreram em larga escala, sem piedade: fuzilados, obrigados a marchas forçadas (que fazem lembrar a mesma "táctica" empregue pelos turcos para com os arménios, em 1915), de fome - foi um sem fim de dramas atrozes, cujo silenciar pelos media democráticos só acresce à sua ignomínia.
(Leitura complementar: "Outras Perdas").

segunda-feira, novembro 12, 2007

Gangsters de alto calibre

Sirvo os Marines há já 33 anos e posso dizer-vos que não há um único método utilizado pelos gangsters que nós não tenhamos utilizado e aperfeiçoado. Eles recorrem a bandidos para nos intimidar e eliminar, ao passo que nós somos os homens de mão do Big Business, de Wall Street e da banca. Em 1903 assaltei as Honduras por conta das empresas frutíferas; em 1914 saqueei o México e Tampico por conta da American Oil; coloquei Haiti e Cuba a ferro e fogo para que a malta do National City Bank aí pudesse sacar a massa. Abalei e vandalizei uma meia dúzia de países da América Central para que se submetessem à rapina de Wall Street. Em 1912 limpei a Nicarágua com sulfatos por conta da Brown Brothers. Peguei fogo à República Dominicana a favor da American Sugar. Al Capone é desprezível em comparação com o exército dos EUA. Ele, na melhor das hipóteses, controlava três distritos de Chicago; nós controlamos e saqueamos três continentes.
***
Declarações do major-general Smedley Butler, em 13 de Outubro de 1933, perante a Academia Militar de Washington, citadas por Pierre Vial na edição de 26 de Outubro do semanário Rivarol (texto disponível em linha só até quarta-feira; após esse dia podem pedir-mo por e-mail).

sexta-feira, novembro 09, 2007

Marcel Aymé, 1902-1967

No passado dia 14 de Outubro cumpriram-se quarenta anos sobre a morte de um dos maiores escritores franceses do século transacto: Marcel Aymé. Homem livre, sem escolas nem partido, escreveu o que quis, onde quis e quando quis. Não se coibiu de satirizar o nazismo, como não se coibiu de escrever no jornal colaboracionista Je Suis Partout; satirizou a França do Front Populaire como estigmatizou a França pós-libertação, acusando os oportunistas que beneficiaram da colaboração económica e que tiveram bem melhor sorte que os que embarcaram na colaboração ideológico-política, tal como denunciou as arbitrariedades e abusos dos depuradores.
Foi um fino observador da sociedade e dos homens, mesclando uma ironia mordaz com alguma compaixão. Não era um misantropo e quem com ele privou só guardou as melhores recordações daquele a quem se pode chamar um homem bom.
A sua independência é uma das causas para um certo ostracismo que se abateu sobre a sua obra, apesar do sucesso inegável de alguns dos seus livros. A sua escrita não é especialmente rebuscada, apesar de não ser ligeira, pois Aymé possuía aquela arte rara de pintar homens e situações com clareza e profundidade.
Morreu numa época em que já se destacavam autores que procuravam mascarar numa complexidade artificial a falta de ideias e talento, espelho da sociedade fútil e fátua em que fomos condenados a viver.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Por Espanha

Aproveitei o feriado e a "ponte" para passar quatro dias pelo sul de Espanha e descansar um pouco, em família, longe dos dramas pátrios e, uma das poucas desvantagens da ausência, do brilhantismo belenense, tanto no futebol (empate com o campeão) como no andebol (vitória sobre o campeão ABC); no meio de tantos confrontos com campeões em título, só o basket claudicou frente à super-Ovarense.
Por Espanha, os dramas de sempre: regionalismos / nacionalismos, choques (e insultos) entre PSOE e PP, 11-M (novilíngua para os atentados de 11 de Março de 2004), derrota(s) do Real Madrid...
Mas a primazia noticiosa foi para a "resolução" do 11-M, com a condenação a várias dezenas de milhar de anos de prisão (!) de três indivíduos, algumas condenações a outros por menos de 20 anos, a absolvição de um terrorista notório já condenado em Itália (fiquei a conhecer o princípio jurídico non bis in idem...) e... a não resposta a muitas das dúvidas de quem vem contestando a versão oficial (agora com cobertura jurídica) dos atentados: o incrível périplo da mochila de Vallecas, que impossibilitaria tratá-la como uma prova fidedigna - mas foi o oposto o que o juíz decidiu ; o suposto suicídio colectivo dos supostos autores dos atentados, em Leganés; entre outros. Aqui assumiu sempre um papel irreverente, na melhor tradição do jornalismo de investigação, o diário "El Mundo", ao passo que o conservador "ABC" teve, na edição do dia seguinte ao das sentenças, uma postura lamentável, criticando as "teorias da conspiração" e aceitando de bom grado a reforçada versão oficial, mesmo pejada como está de incongruências e questões não resolvidas (e outras elididas).
Com muito menos destaque, mas igualmente sinistra, a aprovação nas Cortes da Lei de Memória Histórica, que pretende remover de vez todos e quaisquer vestígios de franquismo das instituições, do ordenamento jurídico, da toponímia... A bem dos valores democrátricos e humanistas, está bem de ver. Muito a propósito, aquando da ovação da maioria após a aprovação da lei, alguns deputados viraram-se, embevecidos, para as galerias, onde estanciavam algumas figuras históricas que supostamente terão ficado satisfeitas com o resultado da votação; entre elas, Santiago Carrillo - esse mesmo, o carniceiro de Paracuellos. Como sempre, a esquerda tem uma "memória histórica" muito selectiva.
De resto, a Espanha que nos é trazida pelos periódicos assemelha-se a uma país doente, em confronto permanente (muito dele alimentado artificialmente pela classe política e pela imprensa e com menos eco na população do que se quer fazer crer); um país que já se começa a inquietar com o próximo fim do boom económico, quase todo ele baseado na "bolha" imobiliária; um país sempre à beira de um confronto - de palavras - com Marrocos (último motivo: a visita dos reis de Espanha a Ceuta e Melilla); um país onde se fala já abertamente de "imigração excessiva". Um país, também, em que o desporto (com destaque para o futebol e o basket) é cada vez mais um escape às agruras do quotidiano.
Um país que procura manter um certo nível de vida, que adora beber um copo e comer bem; em que os restaurantes, mesmo médios, procuram ter um certo requinte, ser acolhedores. Um país, por fim, onde se continua a não fazer um esforço mínimo para se perceber o que é que os estrangeiros dizem. Por lá, o no comprendo ainda continua a ser uma instituição.

segunda-feira, outubro 29, 2007

O cão de Pavlov democrático

O cidadão-x, aquela anónima criatura tão evocada quão desprezada pelo poder político democrático, é diariamente bombardeado com notícias de proveniências as mais diversas, desconexas. Não deve perder muito tempo a tentar interligar factos, nomes, acontecimentos; no chorrilho ininterrupto de despachos e notícias não há quase nunca a preocupação de discernir as causas, as relações entre eventos, o papel interventor de certos agentes (nem sempre actuando às claras). Claro que os "emissores", os pomposamente chamados órgãos de comunicação social, que mais se assemelham a órgãos de intoxicação social, não o ajudam: ou o deixam desamparado à mercê dos fluxos informativos, ou paternalisticamente dizem-lhe o que concluir; e aí, claro, o pensamento (?) dominante impõe a interpretação da actualidade de uma forma subreptícia mas eficaz.
Quando fala em "valores democráticos", impostos pelo sistema ao serviço do qual actuam, está de golpe a anatemizar quaisquer outros valores, que só podem ter lugar em mentes retrógadas, incivilizadas ou francamente inimigas do género humano. Criam-se reacções pavlovianas na mente do baralhado cidadão-x, que já nem consegue raciocinar para além da estrutura mental para que foi orientado (dir-se-ia programado) desde pequenino.
No "1984" de George Orwell (livro que teve como título preliminar "The Last Man in Europe") a sociedade totalitária retratada (e que nos querem fazer crer que está bem longe daquilo que se passa no Ocidente) tinha como princípios: "Guerra é Paz", "Liberdade é Escravidão" e "Ignorância é Força". Nas nossas sociedades democráticas lançam-se guerras em nome da paz (e da democracia, claro!) e manipulam-se as mentes fazendo crer às massas ignaras que são mais livres do que o Homem alguma vez foi na história da humanidade.
E o cidadão-x acredita. Não fosse a crise económica ele até podia ser perfeitamente feliz!

sexta-feira, outubro 26, 2007

Rede internacional de denúncias

Quem pensar que, por ter o blogue ou página instalado num servidor nos EUA, está ao abrigo da censura nacional desengane-se: um site português especializado em segurança on-line aderiu formalmente a uma rede internacional de denúncias, o que permitirá aumentar "a eficácia no combate aos conteúdos ilegais na Internet". Essa rede integra 27 países europeus e não europeus como a Austrália, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, Islândia, Japão, Taiwan e Estados Unidos (sublinhado meu).
E que conteúdos são ou podem ser esses? Dividem-se em três categorias: pedófilos, xenófobos ou de violência extrema. Não seremos nós a lamentar que os sites dedicados à pedofilia sejam erradicados da Rede; mas quando toca a xenofobia já se sabe o grau de discricionaridade que o conceito encerra: pode tratar-se de referências insultuosas a imigrantes ou a pessoas de outras raças; mas qualquer crítica genérica à imigração pode cair na alçada da crimideia; e nenhum de nós está livre de se ver denunciado ao alojador do Blogger.
A coisa demora mas há quem sonhe com o dia em que todos amaremos o Grande Irmão.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Ataque governamental à blogosfera italiana?

Causou grande consternação na comunidade blogosférica transalpina o projecto de lei do governo centro-sinistra de Prodi, promovido pelo secretário de estado da Presidência do Conselho Ricardo Franco Levi, obrigando à inscrição na ROC (Autoridade para as Comunicações) de qualquer produto editorial, mesmo que online e sem fins lucrativos, e que estaria mesmo sob a alçada do Código Penal para casos de difamação (que poderiam originar-se nas caixas de comentários, sem intervenção do próprio autor do blogue).
Foi um escândalo tamanho! Para além dos blogueiros, diversas personalidades mostraram o seu repúdio pelo projecto de lei. Ou porque não fosse essa a sua intenção, ou porque as reacções foram mais fortes do que se esperaria, o sr. Levi já veio dizer que de modo algum tinha em mente os blogues, apenas quer regulamentar o sector editorial.
Seja como for, fica o alerta para o que pode muito bem ter sido uma manobra, grosseira mas preocupante, de intimidação da livre expressão de ideias em um dos países onde ela ainda é bem exercida.
(Para quem não lê bem italiano sugiro a leitura do texto d' O Insurgente e do link para que remete.)

terça-feira, outubro 23, 2007

Outro anti-semita

Há sempre um anti-semita escondido onde menos se espera. Agora é Alexandre Lukashenko, que tem a vantagem de já ser um ódio de estimação do "ocidente", e que afirmou que "os judeus nunca se preocupam com o local onde vivem, basta olhar para Israel".
Embargo à vista?

sexta-feira, outubro 19, 2007

Malta porreira

"Porreiro, pá!". Foi desta forma prosaica que o prosaico PM deste prosaico regime se dirigiu a outro prosaico, ex-assaltante de embaixada, ladrão de mobílias, saneador de professores, cooperante militar com o MPLA e actual komissar-mor dessa empresa de destruição das nações europeias que dá pela (falta de) graça de UE.
Regozijavam-se os biltres pelo facto de os "27" terem chegado a acordo quanto ao novo tratado europeu (a palavra "constituição" foi subrepticiamente retirada).
Como é habitual nas coisas eurocráticas, tudo se decide em cimeiras, nas costas do povoléu, que só episodicamente em alguns países mais dados a essas extravagâncias é chamado a referendar. Mas se a maioria fizer a cruzinha no sítio errado, vota-se de novo até dar o resultado "certo", ou, como neste caso, baralha-se e volta-se a dar de novo, maquilhando o texto do tratado de modo a acalmar as consciências.
E depois os porreiraços felicitam-se em público por "o projecto europeu [estar] em desenvolvimento e a Europa pode[r] agora olhar com confiança para o seu futuro". Como se sabe, e de resto está muito demonstrado na edição deste mês da Atlântico, não existe nenhum projecto europeu. O único projecto que existe é a destruição das pátrias europeias em favor de um monstro centralizador e burocrático, sucedâneo pseudo-democrático da URSS, que controla o que se produz, onde se produz, o que se pensa, o que é permitido e o que não é.
"Confiança no futuro" é tudo aquilo que os europeus conscientes não podem ter de todo.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Portugal é um dos 10 países do mundo que mais respeita a liberdade de imprensa!

O título deste postal parece ser a piada do dia - mas não é, pelo menos a fazer fé no que divulgam os Repórteres sem Fronteiras, organização que «tem como principal objectivo a defesa da liberdade e do direito à informação».
Das duas uma: ou os outros quase 200 países estão muito mal neste particular, ou este relatório é uma anedota (ou, muito provavelmente, verificam-se as duas situações). Não é preciso muito para constatar a cinzenta uniformização da opinião publicada em Portugal. Se não há mecanismos formais de censura (o que até começa a ser discutível) há claramente códigos não escritos e indicações rígidas aos jornalistas sobre os temas que não podem abordar e sobre notícias que é melhor não divulgar. A censura informal chega à cultura, existindo obras e autores que se não divulgam, salvo para serem criticados impiedosamente.
Depois há os "mecanismos de mercado" associados à ideologia: quem tiver pretensões de ter uma publicação não conformista não conseguirá angariar publicidade, por receio dos potenciais anunciantes de ficarem mal vistos, podendo ser criticados publicamente pelos zelosos defensores do politicamente correcto e mesmo podendo mesmo pôr em risco a sua posição em concursos públicos.
A liberdade de imprensa em Portugal, como de resto - tendência inquietante - na maior parte daquilo a que muitos, sem noção do ridículo, ainda vão chamando "mundo livre", vai mal, obrigado.

terça-feira, outubro 16, 2007

Vídeo de Christian de la Mazière

Lembram-se de vos ter falado de Christian de la Mazière? Evoquei-o em três ocasiões:
- Memórias de um ex-Waffen SS francês;
- Entrevista de Christian de la Mazière;
- “Le Rêveur Casqué”.
Pois o Jansenista descobriu na net a versão quase integral (*) da entrevista que de la Mazière concedeu em pleno castelo de Sigmaringen e que foi integrada no filme "Le Chagrin et la Pitié", de Marcel Ophüls.
Ei-la.
***
(*) Faltam alguns segundos no final da entrevista, aqueles em que, como referi aqui, de la Mazière confessa o receio que as ideologias então lhe inspiravam.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Três anos por aqui

Mergulhado nas preocupações do quotidiano nem me lembrei no passado dia 8 que fez três anos que criei o meu primeiro blogue, de resto o melhor dos meus projectos blogosféricos. Muitas centenas de postais depois, passando por algumas polémicas, pelo acompanhar do nascimento de novos blogues e morte de alguns, não me apetece fazer nenhum balanço, que ficará para a meia centena de leitores que me tem acompanhado com fidelidade.
Mas deixo algumas notas, que mais não são que agradecimentos a quem contribui - se calhar mais do que pensa - para esta empresa:
- mestres foram três: Nova Frente, Último Reduto e O Sexo dos Anjos;
- igualmente determinantes na minha decisão de criar um blogue foram também O Pasquim da Reacção, A Casa de Sarto e o Pena e Espada;
- incansável divulgador de doutrina nacionalista de todas as épocas e de informações ocultadas pela "grande imprensa": Nonas;
- leitores que sempre me apoiaram: Legionário, JLL, NB, Rafael Castela Santos, Mendo Ramires, Paulo Porto, Mário, A., Vítor, Dragão, Thoth, Camisanegra, JSM, Engenheiro, Restaurador, ACJA, Flávio Gonçalves, R. Zenner, Carlos Portugal, o desaparecido Euro-Ultramarino e, mais recentemente, o PR, o Navegação e o Lory Boy.
Possivelmente não fui exaustivo, as minhas desculpas a quem omiti inadvertidamente.
Todos não somos de mais para continuar Portugal.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Etiquetas

Aderi finalmente à "etiquetagem" dos postais, tentando criar categorias de temas que o leitor interessado pode explorar facilmente. Decidi também etiquetar todos os postais já publicados neste blogue; mas sendo eles, à data de hoje, em número de 457 a tarefa não se afigura fácil. Até agora já "despachei" uns setenta, estando, por curiosidade, entre os temas mais abordados no meu blogue, a blogosfera e Israel, en tête-à-tête com sete referências cada...
Assim, sempre que virem uma etiqueta que vos interesse façam um click sobre a mesma e aparecerão em sequência todos os postais com essa etiqueta.

Quatro leituras indispensáveis

A não perder, estes quatro postais:
- A República Imaginária, no Pena e Espada;
- Efeitos Desagradáveis mas Previsíveis, em A Casa de Sarto;
- Os Fariseus, no Je Maintiendrai;
- O Socialismo Histórico, em O Pasquim da Reacção.
São do melhor que se pode encontrar pela blogosfera lusa: inconformistas, a contra-corrente da carneirada politicamente correcta e bem escritos (algo cada vez mais raro).

Alameda Digital

Passado já um ano de existência da Alameda Digital, "um espaço de liberdade", é posta em linha a décima edição (há nove números mais um número zero) dedicada ao tema "Ideologias, passado, presente e futuro". No meio de ilustres contribuidores para a excelência da revista lá apareço eu a escrevinhar umas notas sobre aquilo a que chamei A Tragi-Comédia Nacionalista. Para além do tema de capa há as habituais rubricas de letras e cinema.
A ler e a divulgar.

O SAPO recomenda texto do "Horizonte"

Para grande surpresa minha, o portal do SAPO, na secção "Local", recomenda a leitura do meu postal de ontem dedicado à memória de João Coito (e de Manuel Maria Múrias). (Clique na imagem para aumentar e veja na secção central da página.)

quarta-feira, outubro 10, 2007

A luta do povo Karen

Ao contrário do que diz o recomendável portal, o Novopress não foi a única fonte em português que deu alguma atenção ao combate dos Karen, dado que eu próprio já tinha chamado a atenção para esta causa, há dois anos e meio, conforme se pode aqui recordar.
De qualquer modo, todos os esforços em dar eco a esta luta são obviamente bem vindos.

Na morte de João Coito

Na morte de João Coito, proponho-vos a leitura de um artigo que o jornalista escreveu a propósito da morte de um outro jornalista, o grande Manuel Maria Múrias. Intitulou-o
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O JORNALISTA QUE ABRIL ENCARCEROU...
Faleceu na semana passada, em Cascais, um dos mais ilustres jornalistas portugueses das últimas gerações. Chamava-se Manuel Maria Múrias. Conheci-o muito bem ao longo da sua carreira, tive alguns desaguisados com ele quando dirigiu a informação na R.T.P., cortou-me algumas crónicas por não conformes com a sua maneira de pensar, mas não posso deixar de reconhecer a fidelidade que sempre teve às suas convicções sem alguma vez prejudicar alguém por não concordar com os seus princípios. Era um homem corajoso, culto, agarrado à família e aos amigos (não me esqueço que a fotografia de sua Mulher estava sempre presente, em lugar distinto, na sua mesa de trabalho), convivente, respeitado pelos adversários e também adulado por alguns trabalhadores da R.T.P. que depois se revelaram seus ferozes inimigos. Quem conheceu, como eu, a antiga R.T.P., sabe avaliar melhor do que ninguém onde pode levar a hipocrisia, o fingimento e a perversidade...
Depois de Abril, isto é, depois de instauradas as «liberdades», o Manuel Múrias peregrinou por várias cadeias, Caxias, Peniche, Penitenciária, Linhó (onde um dia o fui visitar, misturado com drogados e delinquentes que o estimavam e escutavam). Os seus artigos em A Rua, de que foi director, e no Bandarra constituem, segundo o testemunho de Norberto Lopes, que se situava nos antípodas das suas convicções políticas, as páginas mais brilhantes do jornalismo político português do fim do século. O Diário de Notícias, ao fazer a resenha biográfica na notícia do seu falecimento, citava um dos seus juízos de valor a propósito do 25 de Abril: — «Foi, aliás, a democracia que fez com que muitos dos actuais presidentes de câmara — que dantes vestiam dos alfaiates das respectivas terras — passassem a vestir-se de alfaiates de luxo e a ter a massa que têm.» É ou não verdade que a verdade lhe assiste em muitos casos? Dantes eram, em regra, os «homens bons» dos concelhos que ascendiam a tão altos lugares, sem ordenado, nem mordomias, nem reforma. Os democratas que nos governaram podem gabar-se de ter encarcerado um distinto e fogoso jornalista por utilizar as palavras portuguesas com arte, com fervor, e, às vezes também, com destempero e acrimónia. Mas então para que se fez o 25 de Abril? Não foi, como asseverou Loureiro dos Santos no seu artigo, para «todos podermos exprimir as nossas opiniões»?... Pobre Manuel Múrias! Os últimos anos de vida não lhe foram fáceis. Proscrito da sua actividade de sempre — até lhe encerraram o jornal! — viveu triste, doente, auferindo a reforma miserável que o Estado democrático atribui a jornalistas que descontaram sobre ordenados em que 20 escudos correspondiam a um dólar americano!... Morreu pobre e triste, ainda mais aferrado às suas convicções que Abril lhe reforçou. Ele sabia, por exemplo, que o Fernando Pessoa, apesar de ter vivido num tempo em que os cárceres estavam cheios, não foi incomodado por escrever que «Afonso Costa é um dos maiores bandidos que têm aparecido à superfície da política lusitana» e que o Eça escreveu um O Conde d'Abranhos, sem ir parar à prisão ou a tribunal: — «Quantas vezes me disse o Conde ser este o segredo das Democracias Constitucionais: “Eu, que sou Governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a soberania ao povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito... E quanto ao seu proveito... adeus, ó compadre!”» (...)

João Coito

In "O Diabo", 17.10.2000, pág. 4.

terça-feira, outubro 09, 2007

Islamofobia - e autofagia ocidental

Mais um encontro para debater os problemas dos cidadãos islâmicos no mundo ocidental. Ao ler-se esta prosa fica-se com a ideia de que todos esses problemas são induzidos pela intolerância dos europeus, estando os muçulmanos desejosos de se integrarem o mais harmoniosamente possível nas sociedades de acolhimento. Nem uma palavra sobre os movimentos fundamentalistas, sobre os desejos de alguns lunáticos, poucos mas perigosos, de instaurar sociedades islâmicas no Ocidente. Aliás, a conferência decorrerá em Córdoba, em pleno Al-Andaluz. Certamente um sinal de abertura da parte dos organizadores...
De resto, as receitas habituais para desarmar os europeus face aos fluxos enormes de massas oriundas do mundo islâmico: discriminação positiva, censura (maquilhada em liberdade de expressão: «a liberdade de opinião é um valor fundamental» por isso os signatários consideram necessário que se aplique a legislação existente «sobre a propagação do discurso do ódio, especialmente promovido por motivos religiosos»). Ou seja, liberdade só para quem reproduzir o discurso oficial. Qualquer discurso crítico, mesmo que não eivado de preconceito religioso ou racial, é de golpe catalogado como "discurso do ódio". Edificante.
Por fim, cereja no topo do bolo, «os participantes analisarão ainda o papel da educação na redução da intolerância»; entenda-se: de pequenino é que se inculca nos cérebros dos europeus a "boa nova" de uma sociedade "aberta" e "tolerante".

Coerências

Enquanto que elementos do BE, como Miguel Portas, participam em vigília pela "democracia em Myanmar", o portal oficial do dito movimento disponibiliza online um "dossier Che Guevara", de uma insipidez e branqueamento histórico impressionantes. Um assassino frio é transfigurado em "romântico guerrilheiro", um eufemismo criminoso, que na verdade nada surpreende vindo de quem vem. Ai se o governo de Myanmar fosse marxista...

quinta-feira, outubro 04, 2007

Centenário da morte de Alfredo Keil

Autor de "A Portuguesa", hino nacional desde a república, Alfredo Keil foi uma figura de grande relevo na cultura nacional de Novecentos. Pintor de talento (como pudemos testemunhar na exposição que lhe foi dedicada há poucos anos no Palácio da Ajuda) e compositor de talento, Keil legou-nos obras notáveis, que espelham um sentir e uma sensibilidade portugueses extraordinários para este filho de um alemão e de uma alsaciana.
Composta na ressaca do ultimatum inglês, "A Portuguesa" não tem nada de republicano, tal como o autor não perfilhava esses princípios, sendo isso sim a manifestação de um patriotismo indignado e acrisolado. Mas, adoptada pelos golpistas do 31 de Janeiro de 1891, ficou para sempre associada ao regime que se veio a implementar a 5 de Outubro de 1910. Hoje vamos ouvir muitas vezes que o autor "faleceu três anos e um dia antes da implantação da república", como se esta fosse um anseio de Keil! Mas o regime adora alimentar estes mitos, como adora esquecer o caos, as arbitrariedades por ele cometidas, a desnecessária entrada na Grande Guerra, os n governos em 16 anos de completo desgoverno.
Hoje a Antena 2 dedica parte da sua emissão ao grande compositor, destacando-se a transmissão da ópera "Suzanna", em versão de concerto, tal como foi interpretada em 18 de Maio deste ano em Lagoa pela Orquestra do Algarve, dirigida pelo jovem e talentoso maestro Cesário Costa (14h00).

quarta-feira, outubro 03, 2007

As ajudas dos EUA a Israel

As ajudas dos EUA a Israel não cessaram de aumentar desde a Guerra dos Seis Dias, passando de 24 milhões de USD em 1967 a 634 milhões em 1971, subindo em flecha para 2,6 biliões três anos depois. Neste contexto, George Bush (jr.) prossegue a acção dos seus antecessores, mas com uma diferença notável: tornado mestre na retórica religiosa, Bush jr. crê-se portador de uma "missão divina", declarando-se garante de uma Nova Ordem Mundial em luta contra as "forças do mal", juntando na sua cruzada os líderes das diferentes igrejas americanas que fazem essa apologia incessantemente, lançando o anátema sobre quem faça objecções...
Sejam os evangelistas - Pat Robertson apelou ao assassinato de Saddam Hussein, Cal Thomas sugeriu que a guerra no Iraque fosse conduzida como o foi a Segunda Guerra Mundial -, do metodista Chuck Colson, ex-conspirador no caso Watergate, hoje Ministro das Prisões (autêntico!), do mediático Sean Hannity (católico) que afirma que é dever da América de se bater por todas as nações oprimidas; do baptista Jerry Falwell que argumenta que "a invasão do Iraque é justa porque... Deus é pró-guerra"!, ou do guru e profeta fanático John Hagee, reverendo do Friends of Israel Gospel Ministry que garante que "os EUA devem atacar o Irão - e quanto mais cedo melhor por ser ainda pior que Hitler"; tem-se bem a noção da amplitude do movimento neo-conservador... (...)
Contrariamente aos outros países [ajudados pelos EUA], em que os subsídios são pagos trimestralmente, a ajuda a Israel é, desde 1982, paga na sua totalidade no início de cada ano fiscal. (...)
Além disso:
- Israel está dispensado de detalhar a forma como gasta esse dinheiro, como é normalmente a regra neste tipo de ajudas;
- o montante recebido representa aproximadamente um terço do orçamento total destinado aos créditos externos, o que parece desproporcionado tendo em conta que a entidade sionista está na 16ª posição entre os países mais ricos, com um rendimento per capita superior ao da Irlanda, Espanha e Arábia Saudita (cf. Zunes Stephen, "The Strategic Function of US Aid to Israel", Washington Report, Dezembro de 2002).
(In Rivarol de 14 de Setembro de 2007.)

segunda-feira, outubro 01, 2007

Israel e os terroristas

Aqui fica, para reflexão de algumas pessoas de memória curta, esta declaração do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira, em conferência de imprensa realizada em 8 de Junho de 1967:
«Apesar de esse facto quase ter passado despercebido, Israel foi para Portugal um inimigo tenaz. Nas Nações Unidas a sua delegação interveio e votou contra nós, associando-se de resto a todas as iniciativas que nos são hostis. O embaixador de Israel no Congo está em contacto com os terroristas, concede-lhes ajuda e, no próprio território israelita, são acolhidos e treinados terroristas contra Angola.»

sexta-feira, setembro 28, 2007

Agenda cultural comum europeia

E, como o sistema não dorme, eis que surge uma nova pérola germinada nas mentes profícuas que nos governam: a agenda cultural comum europeia. Leram bem: agenda cultural comum europeia. Numa Europa em que o mais comum é a sujeição dos povos e pátrias ao espírito apátrida e à "normalização" dos comportamentos, leis, princípios e normas, seria estranho que a cultura ficasse de fora dos desígnios uniformizadores.
Muita conversa oca e bacoca de eurocrata para, no fim, ficar claro um dos intuitos da medida: «a necessidade de criar instrumentos eficazes para promover o diálogo intercultural». Todos sabemos o que é que isso quer dizer; na novilíngua politicamente correcta há termos aparentemente anódinos carregados de consequências tremendas.

Os desmiolados

Os chamados extremistas de direita que se envolvem em acções violentas, profanações de cemitérios, agressões a pessoas de outras raças ou nacionalidades e tráfico de droga se não têm a intenção de servir o sistema, fazem-no na perfeição, reforçando a força deste e causando a maior repulsa entre o cidadão comum, mesmo que patriota, face à imagem deformada que lhes chega daquilo que será o nacionalismo. Talvez devessem receber umas comendazitas por "serviços prestados à democracia". E, quiçá, também todos os que nada dizem sobre estes actos lamentáveis.

quinta-feira, setembro 27, 2007

O estado da educação

Este blogue, com o qual discordo amiúde, publicou este soberbo postal, que denuncia mais uma das aberrações da "educação nacional" (aspas para ambas as palavras), com frontalidade e indignação. Denunciemos mais este atentado às nossas crianças, aos valores sãos, ao que resta de civilização.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Mais um iberista

A Câmara Municipal de Lisboa patrocinou o filme "Fado", do espanhol Carlos Saura. Aparentemente não há no nosso país um Perdigão Queiroga que retome o tema da película em que contracenava a então jovem Amália Rodrigues.
O referido Saura, em entrevista ao Diário de Notícias (15 de Setembro, pág. 40 e 41), afirma, convicto que «as barreiras históricas que existem entre os nossos dois países se poderiam derrubar (sic) com facilidade (re-sic). É preciso atrevimento». Lá nisso estamos de acordo.
O diário que publicou a entrevista da erva daninha da nossa literatura em que esta fazia profissão de fé no iberismo não resisitiu (?) a perguntar ao veterano realizador o que pensava dessa ideia. Resposta: «estou totalmente de acordo! Mas acredito que a capital de Ibéria (sic) tinha de ser, a uma dada altura, Lisboa. Depois Madrid. E depois Barcelona. Ia mudando...»
O que não muda, o que é uma constante da mentalidade - quase diria da psique - de muitos espanhóis, é o sonho iberista. E também não mudou o facto de, do lado de cá da (cada vez mais ténue) fronteira, haver tantos traidores prontos a franquear as portas.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Jean Sibelius, 1865-1957

Cumprem-se precisamente hoje cinquenta anos sobre a morte do grande compositor finlandês Jean Sibelius. Conhecido sobretudo pelo poema sinfónico patriótico Finlandia, pelo Concerto para Violino e por algumas sinfonias, a sua obra é riquíssima.
Incorporando alguns temas folclóricos, a sua música tem uma forte componente telúrica, a que não será alheia a sua mudança para o campo em 1904. Por exemplo, no poema sinfónico Tapiola "sente-se" o sopro do vento nas florestas nórdicas...
O compositor não ficou preso à forma clássica sinfónica, explorando novos rumos, chegando em algumas obras (como a Sétima Sinfonia, composta após grave doença) a explorar os limites melódicos.
Para iniciação sinfónica recomenda-se a Segunda Sinfonia, obra verdadeiramente empolgante, de que o crescendo, com subtis variações melódicas, do último andamento é paradigma.
A Antena 2 teve a feliz ideia de consagrar quase toda a sua programação de hoje a Sibelius. Se não puderem escutar ao longo da tarde, não percam pelo menos, a partir das 21h00, a transmissão em sequência das sinfonias 5, 6 e 7.
Ao menos por um dia esqueçamos a barbárie que nos rodeia, o ruído do mundo, e entreguemo-nos de corpo e alma à arte de Sibelius.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Tempos sinistros

Tive conhecimento, via Dragão, desta aberração promovida pelo governo alemão. Será de estranhar que haja cada vez mais alemães a converter-se ao Islão, como foi noticiado na semana passada? Quando a nossa sociedade dá mostras ilimitadas de rumar para a selvajaria mais aberrante, de querer destruir o pouco de bom que ainda tem, de desprezar a lei natural e os valores mínimos que um simulacro de civilização ainda deveria ter o cuidado de manter, qual o espanto de constatarmos que muitas pessoas, desesperadas, se agarram a uma crença que aparentemente resiste com solidez ao vómito contemporâneo?

Pela Pátria - não lutar

Não tenho por hábito ler blogues de esquerda, não por não estar aberto a ler opiniões alheias mas porque já sei o que é que se encontra em boa parte daqueles, nomeadamente nos "de referência", repositório de lugares comuns politicamente correctos e de defesa de causas que não são de todo as minhas.
Mas andava com a pulga atrás da orelha relativamente à forma como essa rapaziada encararia a extraordinária convicção com que o Lobos, a nossa selecção de rugby, cantam o Hino Nacional. Por pudor não deixo aqui o link para um desses blogues, que evoca esse momento inolvidável de amor pátrio; evocação à qual se segue, na caixa de comentários, um chorrilho de barbaridades, na verdade um vómito de imprecações contra a Pátria do mais boçal que imaginar se possa.
Realmente é impressionante a herança anti-patriótica que o 25 do 4 deixou nas mentalidades, sobretudo nos meios urbanos. Certa clique de pseudo-intelectuais de esquerda nutre um ódio a tudo o que seja louvor às coisas nacionais só com paralelo na forma provinciana e bacoca com que abraça ideias, modas e tiques que venham de fora. São a reserva da anti-nação.

terça-feira, setembro 18, 2007

Rumo ao "homem novo" chavista

Mais um passo na afirmação da revolução em curso na Venezuela: «O presidente venezuelano, Hugo Chavez, ameaçou encerrar ou nacionalizar qualquer escola privada que se recuse a "assumir o modelo de educação bolivariana" do seu governo socialista até 19 de Abril de 2010». Ficamos a saber que as «novas matérias estão a ser desenvolvidas para ajudar a educar o "novo cidadão", disse o irmão de Chavez e ministro da Educação, Adan Chavez».
Décadas de implementação de "novos cidadãos" pelos socialistas em acção originaram dezenas de milhões de mortos por todo o mundo, miséria, condicionamento total da vida das pessoas, guerras - e uma nomenklatura privilegiada, com prerrogativas obscenas sobre o destino das populações sob a sua bota.
A coisa está para durar, o que parece causar gáudio entre comunistas ressabiados com a queda do muro de Berlim, neo-esquerdistas insatisfeitos por só conseguirem influenciar limitadamente a sociedade (aborto, promoção da homossexualidade, demolição de tudo o que seja tradição) sem conseguir dinamitar o capitalismo - e pseudo-nacionalistas que descobriram (?!) que louvar Salazar e Fidel Castro não é incompatível.

segunda-feira, setembro 17, 2007

O nosso homem em Paris...

... é como se devem referir ao presidente francês Nicolas Sarkozy as chancelarias americana e israelita. Lançando gasolina no fogo, tanto o primeiro-ministro como o ministro dos estrangeiros franceses vêm evocar uma situação de "tensão extrema" com o Irão, alertando para o "pior", que seria a guerra. Postura obviamente concordante com a política externa de Sarkozy, claramente alinhada com Washington e Tel-Aviv.
Se Chirac não apoiou a invasão do Iraque foi sobretudo por temer uma revolta em larga escala nos subúrbios das principais cidades francesas levada a cabo por árabes furiosos. Sendo o Irão persa é mais fácil a Paris fazer o jogo das chancelarias citadas, correndo menos riscos na frente interna.
Entretanto, sob o pretexto de uma ameaça nuclear vinda de Damasco, Israel fez um raid sobre a Síria. Ameaça real, paranóia ou estratégia de escalada da tensão na região - cada um que escolha a hipótese que lhe pareça mais plausível.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Experiências livrescas traumáticas

Do que o Pedro se havia de lembrar: pedir-me para listar «as dez piores experiências livrescas» por que passei.
Sou um leitor que normalmente faz uma triagem rigorosa daquilo que pretende ler, por falta de tempo para perder com obras que me não agradem - e por aversão a masoquismos. De aí que não tenha sido fácil lembrar-me de dez experiências de leitura desagradável ou irritante. Assim sendo, aqui ficam oito livros que, como diria Rebatet, quase me caíram das mãos:
- "O Nome das Coisas" de Sophia de Mello Breyner Andresen e "40 anos de servidão" de Jorge de Sena. Dois excelentes exemplos da arte prostituída pela ideologia - e ideologia particularmente nociva! A poesia de megafone em punho, a boa consciência da esquerda, o ódio ao outro campo, particularmente espumoso no caso de Sena.
- "O Capital" de Karl Marx e "Manifesto do Partido Comunista" do anterior em colaboração com o seu amigo, protector, financiador e capitalista Engels. O primeiro tive que estudá-lo no segundo ano de Economia; o grau de simplificações do seu modelo económico, com paralelo apenas na complexidade com que expõe a teoria, é por demais limitador da análise, e de resto pouco mais faz que formalizar o que David Ricardo já identificara, acrescentando-lhe apenas a mais-valia, teoria capaz de atrair um espírito como José Antonio Primo de Rivera (ninguém é perfeito). A necessidade do autor de mostrar o seu saber supostamente enciclopédico, a proliferação de fracções e fracçõezinhas entre os exemplos numéricos completam o grau de penar que este vosso amigo teve que acartar. Foi a minha Sibéria mental!
Quanto ao "Manifesto", expõe com particular perfídia o "ideário" comunista, sendo demonstrador da perversidade intrínseca da ideologia; que, como na altura Proudhon teve a lucidez de ver, conduziria inevitavelmente a uma ditadura de uma ferocidade inconcebível.
- "Vagão J" de Vergílio Ferreira. Esta obra dos inícios da actividade escrevinhadora do ex-seminarista é de uma indigência particularmente notável. O pior dos piores exemplos de um neo-realismo já não assente na ternura para com o povo, que torna interessante ler Alves Redol ou Soeira Pereira Gomes, mas no desprezo do intelectual para com o povo que diz defender. Muito marxisticamente, o autor acha que em condições miseráveis o povo não pode ter dignidade; e vai de pintar exemplos "humanos" desse calibre.
- "O Jovem Törless" de Robert Musil. Este retrato de um colégio nos confins orientais da Alemanha e do percurso iniciático do personagem principal teve o condão de me irritar da primeira à última página. Há algum valor literário na obra mas o estilo hermético do autor, os exemplos abstractos (e frequentemente matemáticos) a que recorre e as situações de humilhação, descritas metodicamente, puseram-me fora do sério. Ainda hoje não sei como consegui acabar o livro.
- "O Jardim dos Suplícios" de Octave Mirbeau. Obra de uma crueldade sem nome, mostra dos cumes de barbárie que o niilismo do século que aí vinha alcançaria. Indigesto e repugnante.

sexta-feira, setembro 07, 2007

O Gualter e os seus mentores

Só o podre ambiente em que vivemos, de completa complacência para com as maiores barbaridades esquerdistas, é que leva a que um artigo como este não desencadeie a indignação que merece.
O autor, deputado no Parlamento Europeu, proclama, a abrir, que a invasão da propriedade em Silves onde se cultiva milho transgénico foi «o primeiro acto de desobediência civil ecológica realizada (sic) em Portugal». O termo "desobediência civil" não é inocente vindo de um destacado membro de um partido que precisamente organiza sessões de preparação de acções de desobediência civil. Claro que Portas mostra desde logo a sua "simpatia" para com o acto. A argumentação, como vamos ver, oscila entre o delirante e o fora-da-lei.
Afirma o douto representante do povo em Estraburgo que «até hoje o debate sobre os transgénicos em Portugal não tinha passado do parlamento e de opiniões escritas nos jornais. A partir de hoje pode começar a ser diferente.» A mim, que acho que o debate sobre o papel nocivo do BE na política e na sociedade portuguesas ainda nem sequer chegou ao parlamento e à opinião escrita nos jornais, é-me legítimo lançar esse debate por meio da ocupação da casa de MP ou organizando uma acção espectacular de bloqueio do seu acesso ao Parlamento Europeu? Será que a partir daí tudo «pode começar a ser diferente»?
Mais adiante pode ler-se, não sem estupefacção, que «dissociar-me-ia deste tipo de protesto caso o Movimento Eufémia Verde fosse uma espécie de “braço militar” que se pusesse a queimar propriedades com milho transgénico onde quer que elas se encontrassem. Não por qualquer motivo de ordem moralista. Mas porque atrasaria a formação de uma corrente de opinião maioritária quanto ao princípio que referi.» Se leram bem, perceberam que a destruição da propriedade alheia não é condenável por «qualquer motivo de ordem moralista» mas por motivos de estratégia político-ideológica, pois não contribuiria para o fim visado. Para este senhor, defender a propriedade é uma atitude "moralista". Percebe-se bem que os vinte anos que passou no PCP o formataram nos "bons princípios".
Quando o autor evoca que se deve actuar "nos limites da lei" percebe-se que o que ele defende é que se transgrida a lei, dado que a sociedade e a política estão cada vez mais indulgentes para com as práticas que supostamente passaram à história em 25 de Novembro de 1975.
E remata, ufano, que «a nossa sociedade tem que aprender a conviver com novas formas de conflitualidade não-violenta». Nesta frase se sintetiza toda a postura da esquerda: a sociedade, reaccionária e "atrasada" por natureza, tem que seguir a vanguarda (da revolução), tem que ir atrás de alguns iluminados que a querem transformar de alto a baixo.
Já não nas barricadas, na guerra civil; mas por dentro do sistema. E a pouco e pouco vão avançando. Parvos é que eles não são.

Gente do Norte

Já faz parte do meu ritual de férias (que terminaram no já longínquo dia 17 de Agosto) encontrar amigos e camaradas de convicções do Norte. É bom reencontrar rostos de pessoas que unem laços de amizade, de crenças num Portugal diferente, de afinidades partilhadas. Pessoas mais abertas, mais francas (em média) que as de "cá de baixo", às quais falta tantas vezes a sinceridade dos nortenhos. Para o bem e para o mal: gente de menos artifícios, directa. E em geral bem disposta.
O Porto conserva um ambiente provinciano que a mim, que lá não vivo, me agrada. Não é uma cidade fechada, estagnada. Mas também não é uma urbe descabeladamente aberta a tudo o que é novidade ou fashion. O seu orgulho, que tantas vezes é interpretado pelos lisboetas como bacoco provincianismo, tem razões de ser, algumas boas: o ter sabido, na enxurrada de décadas de revoluções e progresso tecnológico, manter uma identidade que em Lisboa já é difícil encontrar. Aqui, em vez de se lutar por encontrar e reforçar essa identidade, pretende-se promover a ideia de que Lisboa se reencontra no reencontro com o outro: com os de fora, com a cultura importada, com as gentes que por aqui desaguam; sem ocultar os intercâmbios, tantas vezes profícuos, de séculos de que a cidade é testemunho, procura-se incorporá-la de golpe, de uma forma ideologicamente pensada e implementada, na era globalizadora. Descaracterizá-la fazendo-nos crer que se reforça a sua identidade.
Nessa falácia (ainda) o Porto não caíu.

Carga de trabalhos

Ter férias, nos dias de hoje, é quase um drama. Nas semanas que as antecedem esfalfamo-nos para deixar o trabalho em dia e poder ir uns diazitos descansar a cabeça, passar mais tempo com os pequenos, ler os livros que a falta de tempo nos obrigou a ver apenas nas estantes, implorando por saltarem para as nossas mãos.
Depois, o regresso: trabalho atrasado, assuntos pendentes em progressão quase geométrica e um súbito cansaço.
O recarregar de baterias teve curto efeito.

sábado, setembro 01, 2007

In Memorian Henri Amouroux

Já faleceu no passado dia 5 de Agosto mas não podia deixar passar em claro a morte de Henri Amouroux. Jornalista antes de historiador, Amouroux vem a prestar um serviço inestimável a Clio com a sua monumental (10 volumes) "Grande Histoire des Français sous l'Occupation".
Recusando os lugares comuns sobre o regime de Vichy, Amouroux mostra as contradições do regime, expõe o seu jogo duplo, o equilíbrio instável entre resistir às instruções brutais do ocupante alemão e a impossibilidade de uma governação livre. Mostra também como a existência de um corpo de governo intermédio (Vichy) entre os alemães e o povo francês poupou a este último as agruras que uma Polónia ou uma Holanda sofreram. Laval e Pétain aparecem não como traidores mas como governantes que sacrificam a sua auto-estima tentando proteger na medida do possível os franceses. A título de exemplo, e algo que é frequentemente ocultado pela versão oficial da história, foi mínimo o número de judeus franceses que foram deportados; já os judeus estrangeiros a residir em França não tiveram essa sorte; foi a negociação permanente, pouco agradável mas, como neste exemplo, preferível a não haver qualquer mediação entre um ocupante impiedoso e a população, a marca de Vichy. Daí as críticas, também permanentes, de que foi alvo por parte dos (verdadeiros) colaboradores, políticos, jornalistas e intelectuais. O que não impediu alguns deles de virem a exercer cargos oficiais no regime; exemplo: Marcel Déat.
Amouroux vem a ter um relevo mediático devido à sua defesa de Maurice Papon, o prefeito da Gironda naquele período; Papon, que terá sido responsável pela deportação de algumas centenas de judeus, obedeceu a ordens; ainda há quem não queira perceber que essas ordens, pouco agradáveis, seriam bem mais impiedosas se vindas e executadas por alemães.
O mesmo se passava quando a resistência cometia um atentado; como retaliação, os alemães exigiam o fuzilamento de x prisioneiros; lá vinha Laval tentar diminuir o número dos sacrificados; num caso conseguiu passar de 100 (pedidos pelos alemães) para 5; logo a Rádio Londres veio clamar que o governo de Vichy tinha fuzilado 5 patriotas... Realmente era cómodo estar sentado ao microfone, na Albion, a zurzir quem arriscava a reputação e a vida para proteger os franceses de uma ocupação que foi consequência de uma clamorosa derrota militar de que a democratíssima III República foi única e exclusiva responsável.
O legado de Henri Amouroux foi o seu esforço em retratar tão conturbado período como ele foi e não como a ideologia vencedora o tem pintado, com as cores da mentira e do maniqueísmo.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Dia Guy Môquet

Como todo o bom democrata com alguns impulsos reformistas, Nicolas Sarkozy dá uma no cravo e outra na ferradura. Afrontando alguns nefastos princípios do Maio de 68 com as suas propostas aqui evocadas (e elogiadas), o "anão magiar" (na simpática expressão de Jacques Chirac) acaba de instituir o "Dia Guy Môquet" nas escolas francesas.
Guy Môquet foi um jovem comunista fuzilado pelo ocupante alemão em 1941. Uma carta que enviou aos pais pouco antes da sua morte será lida nos liceus de França. O que é curioso é que alguns professores protestaram não pela indulgência para com um pobre rapaz que lutou por lamentáveis ideais (e como esquecer que até à invasão da URSS pela Wehrmacht, em 22 de Maio de 1941, o PC francês era do mais simpático com o ocupante alemão que se possa imaginar?) mas porque não são "professores de patriotismo"... De resto, o ministro Xavier Darcos assegurou que a ideia é «falar da juventude insurgida contra a tirania em geral». O comunismo deve estar excluído da definição de tirania do ministro "de direita"... Que reforça: «é o momento para expressar a ideia de que uma escola se deve basear em um conjunto de valores». Como aqueles por que lutava o infeliz Môquet?

Leão homossexual

Meus amigos, não vos venho falar de mais uma descoberta científica que alegadamente prove que no mundo do rei dos animais também há raínhas, mais exactamente drag queens. Desta vez trata-se do famoso Festival de Cinema de Veneza, que teve a ideia luminosa de instituir o "Queer Lion", ou Leão Homossexual, em paralelo com os outros Leões que premeiam os melhores filmes nas diversas categorias. O objectivo, claro, é premiar o «melhor filme que se debruce sobre temáticas ligadas à homossexualidade ou, condição mínima, que tenha personagens gay».
Permitam-me duvidar: entre dois filmes que abordem tal temática, se um for uma obra-prima que critique o meio e o outro uma xaropada mas condescendente com o dito meio, qual é que pensam que vai levar a leoa?

domingo, agosto 26, 2007

Gruselkabinett

O Gruselkabinett situa-se na Schöneberger Strasse em Berlim e constitui o único bunker daquela cidade alemã que se pode visitar como um museu. Tem três "atracções": uma câmara de horrores no piso de cima, cenas médicas de outros tempos no piso de entrada e, na cave, o bunker propriamente dito.
Tive a oportunidade de visitar este último e é uma experência como poucas. Antes de mais, de referir que não há lições de moral para os visitantes; há, isso sim, a preocupação de enquadrar a especificidade do bunker no contexto histórico da protecção dos berlinenses face aos bombadeamentos aliados, em massa a partir de 1943. Neste bunker chegaram a acantonar-se 12.000 pessoas, que tinham à disposição pouco mais de 1 metro quadrado, muitas vezes um cantinho num degrau de uma escada.
O ambiente no seu interior é, naturalmente, húmido e o espaço, em geral, conserva-se como há sessenta anos, sem grandes renovações; pode-se ver os planos da sua construção, ver objectos que lá foram encontrados (livros, documentos pessoais, utensílios), jornais da época, receitas de cozinha em tempos de escassez... Numa sala há um "espectáculo" de quatro minutos que procura reproduzir como se viveria um bombardeamento do interior do bunker: som das bombas a cair, luzes de alerta, gritos de pessoas; tudo muito sóbrio - e dramático.
Há também muita documentação sobre o bunker pessoal de Hitler, situado por baixo da Chancelaria e que, por receio de se tornar um centro de peregrinação neo-nazi, continua vedado ao público. Pode-se ver o mapa do seu interior, onde era o quarto de Hitler, o de Eva Braun, o quarto dos cães do Führer... Reproduz-se, também, o documento (cujo original está em Washington) que formaliza o casamento daqueles dois; as testemunhas foram Goebbels e Bohrmann.
O bunker é um testemunho eloquente do drama dos alemães sob os impiedosos bombardeamentos aliados.

terça-feira, agosto 21, 2007

Medidas de força para com os pedófilos

No dia em que um irmão da ministra da Justiça francesa, Rachida Dati, foi condenado a um ano de prisão por tráfico de droga, multiplicam-se as intervenções em torno da ideia do presidente Sarkozy de endurecer as medidas legislativas para com os pedófilos, mormente a recusa de concessão da liberdade mesmo após o fim da pena e a criação de um hospital fechado para esses doentes.
Como era de esperar, a esquerda mostra-se chocada, revelando uma e outra vez que se preocupa mais com os criminosos que com as vítimas. É possível que as medidas pensadas por Sarkozy sejam inconstitucionais, dado que décadas de demagogia de direitos de homem contribuíram, também a nível jurídico, para expor mais as vítimas e aligeirar a vida dos que violam a lei. Mas são medidas bem positivas porque rompem com o delicodoce politicamente correcto dos direitos do homem que tanto tem contribuído para a perversão das nossas sociedades, no sentido estrito e no sentido da contradição com a lei natural.
Até à data Sarkozy parece mesmo empenhado em romper com a herança funesta do Maio de 68. O que se saúda.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Admirável mundo novo

Um "cientista" italiano afirma que a humanidade será bissexual, já que «o homem está a perder as suas características e tende a transformar-se numa figura sexualmente ambígua, enquanto a mulher está a tornar-se mais masculina. Desta forma a sociedade evolui para um modelo único».
Confundindo ciência com o mais despudorado wishful thinking («as alterações hormonais em homens e mulheres são «o preço que se paga pela evolução natural da espécie, que é positivo porque nasce da busca pela igualdade entre os sexos»), o sr. Umberto Veronesi, médico e ex-ministro da Saúde (!), serve uma agenda político-societal que há muito deixou de ser discreta.
Se o futuro da humanidade não for bissexual, no curto e médio prazo não se safa de ser de uma cretinice atroz.

domingo, agosto 19, 2007

Quatro anos é muito tempo

Este foi um dos primeiros postais que li do Pedro. Descobrir o Último Reduto em Abril de 2004 foi um acontecimento: nesse mês, o Pedro e o Bruno, taco-a-taco, premiaram-nos com postais sem conta sobre o nefasto 25 do 4, sendo que a ironia inteligente dos mesmos constituíu um bálsamo para a poluição das inteligências levada a cabo pela imbecillentsia reinante. Neste postal está muito do autor: culto, mordaz, subtil, conciso. A sua constância de princípios contrasta fortemente com os aggiornamenti dos cobardes e oportunistas que por aí andam (que os há em todas as épocas e regimes), sempre prontos a todas as abdicações.
Passando por diversas adversidades, pessoais e não só, o Pedro cumpre quatro anos a dar uma lição não só aos mais novos como a muitos "velhos" que já "estão noutra", não por uma eventual mudança de perspectivas ocasionada por madura reflexão, mas por falta de carácter e capacidade de enfrentar a enxurrada das maiorias.
Se não é o último reduto, anda lá perto. Está de parabéns.

sábado, agosto 04, 2007

Deambulações...

Aqui fica um registo fotográfico das minhas deambulações de férias. Um doce a quem adivinhar onde se localiza a rua com tão interessante nome... (Clique na imagem para ver a fotografia ampliada.)

Viva "O Sexo dos Anjos"!

Tenho andado arredio da internet por motivo de férias e descanso destas lides. Mas nunca por nunca poderia deixar de saudar o Manuel Azinhal pela passagem dos quatro anos de vida do seu O Sexo dos Anjos, blogue inspirador por excelência de todos os que não desistiram de lutar pelo Portugal Maior, como diria Paiva Couceiro.
Da torreira estremenha para a torreira alentejana um abraço forte para o Manuel.

sábado, julho 28, 2007

"Velha" Frente

Há dois anos escrevia no meu antigo blogue: «O Nova Frente constituiu-se desde logo como um caso muito sério de qualidade e inconformismo, num panorama bem cinzento de politicamente correcto galopante. O estilo muito próprio do Bruno, com uma escrita cativante, viva, criativa e não fazendo economia do vasto e rico vocabulário da nossa tão mal tratada língua, a par de uma cultura literária invejável, conferiram um carácter muito peculiar ao blogue. Por estes motivos não se pode falar de um blogue político, apesar de as opções ideológicas do autor estarem bem patentes. Pelo Nova Frente pairam os "fantasmas" de Céline, Marcel Aymé, Rodrigo Emílio, Eça, Camilo - geniais criadores literários e observadores acutilantes e mordazes da realidade do seu tempo. Mais de uma vez alimentei polémicas com o Bruno, sempre dentro dos limites da cordialidade e sã convivência entre pessoas que se respeitam e prezam uma boa discussão.»
Dois anos depois ele ainda cá está, nesta blogosfera de combate e determinação que ele tanto preza. Tal como o Bruno, também nós estamos de parabéns por poder usufruir do seu talento e inconformismo autêntico.
Para os distraídos, lembremos que o autor já lançou um livro com textos escolhidos de entre os publicados no blogue.

Salazar, sempre presente

Passaram ontem 37 anos sobre a morte de Oliveira Salazar. O estadista que levantou Portugal da decadência ignominiosa em que os partidos da desonra e do estrangeiro o mergulharam dizia o seguinte, na comemoração (em 14 de Agosto de 1935) dos 550 anos da Batalha de Aljubarrota:
«Hoje como então se exige espírito novo para fazer a revolução nacional. O espírito novo é mais fácil encontrá-lo em novos que em velhos, ainda que haja velhos com mocidade de espírito e moços gastos por interesses e preocupações que não costumam ser da sua idade. É, porém, essencial que o espírito da mocidade seja por nós formado no sentido da vocação histórica de Portugal com os exemplos de que é fecunda a História, exemplos de sacrifício, patriotismo, desinteresse, abnegação, valentia, sentimento da dignidade própria, respeito absoluto pela alheia.»
Uma lição permanente.

sexta-feira, julho 27, 2007

Ron Paul, uma esperança para os EUA?

Outsider, iconoclasta, um segunda-linha: alguns dos epítetos dirigidos a Ron Paul, significando que o republicano não tem a mínima hipótese de ser nomeado candidato à presidência pelo partido do elefante. E se calhar não tem mesmo.
Mas este membro da Câmara dos Representantes que votou contra a entrada dos EUA na guerra contra o Iraque é a esperança de muitos americanos que apenas anseiam por que o seu país abrace os seus princípios fundadores, e em particular que o partido republicano renegue o seu caminho recente de irresponsabilidade orçamental, belicismo e atentado às liberdades individuais.
É de salientar que, como congressista, Paul tem sido incansável na defesa dos habitantes do 14º distrito do Texas, pelo qual é eleito. Chega a passar mais de metade de uma semana de trabalho no local, apercebendo-se dos problemas e necessidades da população.
Defende princípios tipicamente (ou que até há anos faziam por merecer o advérbio de modo) conservadores: mercado livre, defesa da vida, abolição do imposto sobre os rendimentos (chegou a redigir uma proposta de lei nesse sentido), anti-intervencionismo e até a saída dos EUA da NATO e das Nações Unidas.
Se servir de indício, o seu nome é há meses um dos mais teclados nas pesquisas dos internautas americanos.

quarta-feira, julho 25, 2007

António Sardinha (1887-1925) - Um Intelectual no Século

Sob o título supra saíu à estampa um volume da autoria de Ana Isabel Sardinha Desvignes dedicado à vida e obra da grande figura do Integralismo Lusitano. Comprei-o no passado fim de semana e à primeira vista parece uma obra bem documentada, com recurso à vasta correspondência trocada entre Sardinha e a sua mulher. Sei que António José de Brito já teceu críticas contundentes à obra e a caução de António Costa Pinto à mesma não é dos melhores augúrios...
Mas pela variedade de fontes documentais e fotografias incluídas no volume vale a pena adquiri-lo. O mais curioso é que há minutos, na Antena 2, foi feita uma breve recensão da obra por... António Manuel Couto Viana! Ainda há boas surpresas nos tempos que correm.

terça-feira, julho 24, 2007

Declarações à Novopress

O espaço de informação nacional Novopress convidou-me a opinar sobre diferentes temas, da blogosfera ao campo mais genérico do combate nacional. O resultado está aqui, sendo bem vindos os vossos comentários.

domingo, julho 22, 2007

O verdadeiro chefe

Para o Réprobo, a propósito de um seu postal, com amizade.
«O que eu sonho, aquilo que muitos de vós sonham comigo, é que no meio de tantas desordens que abalam o mundo ao ponto de nos interrogarmos quando e como é que ele retomará o seu equilíbrio, que se construa em Marrocos um edifício sólido, ordenado e harmonioso; que mostre o espectáculo de um agrupamento de humanidade, em que homens de tão diversas origens, hábitos, profissões e raças, busquem, sem nada abdicar das suas convicções individuais, o alcançar de um ideal comum, de uma razão comum de existência. (...)
Quem mais não é que militar não passa de um mau militar; quem mais não é que professor não passa de um mau professor, quem mais não é que industrial não passa de um mau industrial. O homem completo, aquele que pretende cumprir o seu pleno destino e ser digno de conduzir homens, numa palavra ser um chefe, esse deve ter as suas lanternas abertas para tudo o que faz a felicidade da humanidade.»
(Discursos e textos do Marechal Lyautey incorporados por Robert Brasillach no seu romance "La Conquérante". Tradução: FSantos.)

Cartazes políticos

A imagem que ilustra o postal anterior foi retirada deste site, que contém 68 (!) páginas de reproduções de cartazes políticos do pós-25 de Abril. Lá se encontram preciosidades como as aqui mostradas (carregue na imagem para a aumentar), uma do PS (reparem nos nomes dos participantes no "colóquio sobre auto-gestão"), outra da Nova Monarquia.
O link foi uma amabilidade do Corcunda.


Lei Barreto

Quando era miúdo (8-9 anos) era impossível passar por uma rua de Lisboa sem que se visse escrito "Abaixo a Lei Barreto". A dita foi aprovada há precisamente 30 anos e foi um primeiro golpe mortal para a Reforma Agrária. E mostrou também ao país que a força do PCP era já uma sombra da de dois anos antes.

Contra o aborto

«Cícero (106-43 a.C.) já ensinava: se a vontade dos povos, os decretos dos chefes, as sentenças dos juízes, constituíssem o direito, então para criar o direito ao latrocínio, ao adultério, à falsificação dos testamentos, seria bastante que tais modos de agir tivessem o beneplácito da sociedade (...) por que motivo a lei, podendo transformar uma injúria num direito, não poderia converter o mal num bem?»
Numa altura em que o Brasil se prepara para referendar a legalização do aborto sugere-se a leitura deste artigo, de onde extraí a sábia reflexão ciceriana. Oxalá o país irmão mostre mais sensatez que aquela que o nosso mostrou.

Boletim Evoliano

Está já disponível o nº1 do Boletim Evoliano, subordinado ao tema "A Superação do Fascismo". Nas palavras dos autores, «Evola foi um tradicionalista, um intérprete da Tradição, e fascista apenas na medida em que o Fascismo assumiu aspectos tradicionais.»
Leitura obrigatória, claro.

terça-feira, julho 17, 2007

O triunfo dos porcos?

Antigamente aquilo que vêem na imagem era o que acontecia aos traidores à Pátria, como Miguel de Vasconcelos: a morte, por indecente e má figura. Hoje dá-se-lhes tempo de antena, as suas declarações de despudorado iberismo vêm para as primeiras páginas dos jornais, abrem-se debates sobre o tema, discutindo-se a viabilidade da Pátria como quem discute a evolução do preço do petróleo.
A Quinta Coluna iberista está mais activa que nunca, tem os seus agentes mais ou menos discretos, que vão fazendo a promoção do país vizinho contrapondo-a insidiosamente à crise nacional. Os internacionalistas de sempre, socialistas, ex(?)-comunistas e liberais em busca da eficiência e de "sinergias", estão sempre prontos a abraçar qualquer causa que contribua para a diminuição da soberania nacional. A sua máxima é: tudo o que é nacional é mau. Toca de evocar o iberismo, a União Europeia, a globalização, a abertura (maior ainda) à imigração; não passa um dia em que se não "instrua" as massas nesse sentido; ainda ontem, o DN, jornal de uma coerência impecável pois é a voz do regime seja ele qual for (e não temos tido poucos nos mais de 125 anos de vida que leva a folha), que deu tanto destaque à erva daninha nobelizada, tinha um editorial em que defendia que o futuro de Portugal só estava assegurado se... deixássemos entrar ainda mais catrefas de imigrantes. Nada surge ao acaso, as toupeiras anti-nacionais movimentam-se, os incautos caem na ratoeira e os inconformados são cada vez mais uma minoria, quais índios remetidos a uma reserva.

sexta-feira, julho 13, 2007

Momento eleitoral

Nunca, nos meus blogues, apelei ao voto em quem quer que seja. Antes de mais porque não tenho os meus leitores em tão má conta que tente, paternalisticamente, levá-los a tomar a minha escolha. Depois porque, para mim, eleições é do mais deprimente que há: em lugar de servirem para melhorar a vida da nação e dos seus habitantes, antes perpetuam a miséria moral e material em que são obrigados a viver há algumas décadas; não é o voto da maioria, manipulada pela propaganda, pela chantagem moral e pelos jogos de partidos, que vai permitir o resgate nacional.
Confesso o meu espanto pelo espaço e tempo de antena que a candidatura de José Pinto Coelho tem beneficiado na rádio e na televisão; embora ainda muito longe do espaço concedido aos representantes dos grandes partidos, é uma mudança sensível face ao que era habitual conceder-se ao PNR. JPC tem aproveitado, com mestria, para passar a sua mensagem: longe de ter uma postura agressiva e demagógica à outrance - cliché que normalmente se associa a um líder de um movimento dito de extrema direita -, Pinto Coelho fala pausadamente, apela aos valores que até há uns anos eram os de grande parte da população, denuncia a corrupção, o clientelismo e o completo assalto à máquina de estado por parte dos partidos do sistema. O seu discurso é claro, aqui e ali algo demagógico, talvez um pouco simplista nas soluções que pretenderia aplicar. A mensagem é facilmente apreendida pelo comum dos mortais, farto das fórmulas ocas que nada querem dizer.
As eleições intercalares em Lisboa vão permitir a muita gente exercer um voto de protesto em lugar de aderir à abstenção. Pinto Coelho e Garcia Pereira vão beneficiar desse estado de espírito de parte da população. Muito pouco vai mudar em Lisboa, como muito pouco muda após um escrutínio eleitoral, que é, por definição, um marco de sustentação do regime. Resta ao português fazer como a figura imortalizada por Bordalo Pinheiro - seja nas urnas, seja no sofá ou na praia.

quarta-feira, julho 11, 2007

Corrente literária

De quando em vez lá ressurgem as correntes na net. Desta vez instam-me o Mário e o Réprobo a dizer quais os últimos cinco livros que li ou estou a ler. Inicialmente disse ao Réprobo que já me tinha deixado de correntes, tendo-lhe respondido no seu blogue. Mas enfim, como já são dois os desafiantes aqui fica no Horizonte a relação dos livros que mais recentemente me passaram (ou ainda passam) pelas mãos:
- "Eurico o Presbítero", de Alexandre Herculano;
- "Giulio Cesare", de Martin Jehne;
- "José Antonio, entre odio y amor", de Arnaud Imatz;
- "Jeunesse Immortelle", de Julien Green;
- e a BD "O Refúgio de Kolstov", de Ceppi.
O romance de Herculano há-de ser conhecido de muitos de vós. Estranhamente nunca o tinha lido. Narra a decadência do domínio visigótico na Península e a crescente ameaça islâmica que sobre ela pesa. Uma obra pouco actual, já se vê... O tom é doloroso e plangente, juntando o rigor histórico de um Walter Scott ao desespero romântico de um Goethe. Mas com a originalidade do grande português que foi Herculano.
O segundo é uma biografia de Júlio César que adquiri recentemente em Roma. O leitor fica literalmente preso à descrição das campanhas (eleitorais e militares) do genial estratega romano.
O terceiro é a excelente biografia do líder da Falange. O autor procura analisar a sua carreira sem os preconceitos habituais de esquerda ou direita. Reserva um capítulo de mais de 100 páginas ao estudo da doutrina joseantoniana, estranhamente inserido entre o capítulo que termina com a prisão de José Antonio e o capítulo que narra o envolvimento da Falange na Guerra Civil.
O livro de Julien Green é absolutamente maravilhoso, pela forma elegante e sensível (mas sem espavento) com que o autor lança um olhar sobre dois homens de letras (e não só) ingleses: John Donne e Samuel Taylor Coleridge. A obra é pura poesia em prosa, cada palavra tem um valor próprio e insubstituível, uma verdadeira obra-prima que me entusiasmou como há muito um livro o não fazia. O livro saíu no ano da morte de Green, 1998.
A BD referida é passada no tempo da ex-URSS e narra as peripécias de um anti-herói que tenta entregar uma encomenda política e militarmente sensível e que tem de se haver com toda a sorte de criaturas que circulam nas zonas mais inóspitas do Afeganistão e da Turquia...
Têm agora a incumbência de responder a este inquérito os confrades Lory Boy, JSarto, Flávio Gonçalves, Thoth e Francisco.

terça-feira, julho 10, 2007

Despida para matar...

A calmeirona aí à esquerda não é nenhuma candidata a Bond girl. Trata-se na verdade de um soldado de Tsahal, tal como apresentado por uma campanha de sensibilização do povo americano para o alegado facto de os israelitas serem um povo normal e, como se vê, sexy e pr'á frentex.
Se crêem que esta campanha de quase prostituição da mulher israelita é virgem (passe a expressão), desenganem-se: ainda antes da criação do estado sionista se usaram mulheres em tácticas pouco dignas, no sentido de esbulhar proprietários árabes das suas terras. E ainda hoje o Shin Beth tenta chantagear árabes com o mesmo procedimento.
(A ler, aqui.)

quinta-feira, julho 05, 2007

Nascido em...

O Padre António Vieira dizia que o português tinha um torrão para nascer e todo o mundo para morrer. Pelos tempos que correm, muitos portugueses têm, para nascer, Espanha - ou estradas. Se ao menos os que nos desgovernam fossem morrer para bem longe daqui.

segunda-feira, julho 02, 2007

O estado da blogosfera nacional

Mantendo há quase três anos um blogue, lendo blogues há mais de três, constato que nunca a blogosfera nacional esteve tão em baixo. Quando, em 2004, se discutia acaloradamente os princípios que deviam nortear o nacionalismo português, pese o ruído de quem não gosta tanto de discutir como de gritar as suas ideias e insultar os que se lhe enfrentam, o debate era rei. Caixas de comentários com menos de dez entradas eram raras, os blogueiros escreviam postais quase todos os dias (às vezes mais que uma vez por dia), a mesma frequência com que apareciam novos blogues.
Não sei se por cansaço, se por desistência de manter um diálogo que as mais das vezes tendia a ser de surdos, quase todos se recolheram sobre si, os seus princípios e os seus apoiantes, estabelecendo-se os tão típicos grupinhos dentro do meio: os racialistas, os identitários, os patriotas, os católicos, os neo-pagãos, os saudosos do Estado Novo, os socialistas nacionais. Cada qual com os seus blogues emblemáticos, as suas claques. Tudo muito bem compartimentadinho, dado que o diálogo com "os outros" é entendido como uma perda de tempo. Num meio tradicionalmente diminuto, tornou-se caricatural assistir-se a esta balcanização da blogosfera nacional, com mui poucas pontes lançadas para a outra margem.
Sinto que a blogosfera, como forma de debate de ideias, de divulgação de informações e de afirmação nacional, começa a estar esgotada. Alguns defendem que os fóruns são o melhor sistema para debater ideias na net, mas ao constatar-se a rapidez com que eles se tornam em plataformas de difusão de insultos e até de ódio, é legítima a dúvida.
Creio que espaços como a Alameda Digital devem ganhar terreno. Aí, independentemente das diversas sensibilidades nacionais-patrióticas dos articulistas, pode-se desenvolver um pensamento nacional, divulgar informações regra geral escondidas pelos mass media, promover iniciativas e difundir a cultura que é filtrada pelo politicamente correcto.
Na blogosfera ficarão os mais teimosos - o que em muitos casos é um mérito - mas a qualidade do seu trabalho, ou pelo menos a sua frequência, é uma triste sombra do que foi num passado recente.