terça-feira, junho 12, 2007

Visto em Roma (1)

De regresso de Roma, proponho-me escrever uns quantos postais sobre aquilo que vi na mais bela cidade do mundo. Como este blogue também procura seguir a actualidade, começarei pelo ambiente político que por lá se vive, seguindo-se então outros postais mais centrados no impressionante património cultural da urbe.
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A passada semana política foi escaldante em Itália. Primeiro, o escândalo da revelação da pressão exercida por um membro do governo, Visco, para substituir responsáveis da Guarda di Finanzia que investigam estranhos movimentos de fundos para alguns partidos da maioria, em particular o Pds, de D'Alema, antigo primeiro-ministro (e comunista reciclado em social-democrata), que parece deter fundos na América do Sul. A caricatura da edição de sexta-feira de Il Giornale (próximo de Berlusconi) mostrava D'Alema a responder às críticas: ma io sono il ministro dei fondi esteri ("eu sou o ministro dos fundos estrangeiros", trocadilho com ministro dos negócios estrangeiros, cargo que ocupa). O debate no senado foi quente mas a maioria, composta por diversos partidos, dos comunistas (assumidos) aos verdes, passando pelos radicais de Panella e, claro, pelo Pds, aguentou-se. A sua imagem, essa, ficou ainda mais manchada junto da opinião pública. Como escrevia o editorialista do Corriere della Sera: «certas exibições parlamentares dos últimos dias demonstram que certos políticos perderam todo o sentido da realidade e não compreendem os sentimentos que estes espectáculos estão suscitando na sociedade italiana». Qualquer semelhança com o que se passe em outro país latino é pura coincidência...
No sábado, a visita de George Bush. Aparato de segurança impressionante: 18.000, entre polícias e carabinieri. Estavam marcadas duas manifestações de protesto: uma, partindo da Piazza della Repubblica, agregava os chamados "no global", toda a trupe de alter-mundialistas; a outra, na Piazza del Popolo, juntava partidos da maioria, que se queriam demarcar da fórmula apontada na primeira: Prodi = Bush, mas que também não se pode dizer que primasse pela coerência, sendo os seus promotores partidos com membros no governo. Esta última foi um fracasso assumido pelos organizadores: pouco mais manifestantes que polícias...
A primeira estava destinada a ser mais eficaz. Tive o azar supremo de, inadvertidamente, ter aterrado em plena Piazza della Repubblica quando a manif se preparava para arrancar. Não imaginam a tropa: sobretudo malta nova, alguns estilo BE, outros comunistas assumidos, com bandeiras de Cuba e da URSS, t-shirts de Estaline e da Albânia; os carros debitavam, em altos berros, rap e hip-hop. Nenhum sinal distintivo da Itália, a não ser uma t-shirt com os dizeres "Partigiani, sempre". Os jornais do dia seguinte falavam em muita gente embriagada e drogada. Quando finalmente atravessei a turbamulta vi avançar um grosso contingente de forças especiais, com o coração da política italiana: Pallazzo Chigi (residência do primeiro-ministro), Pallazzo Madama (Senado) e Quirinale (residência oficial do presidente, actualmente outro comunista reciclado: Giorgio Napolitano).
Nessa área havia barreiras diversas, encontrando-se encerrado o trânsito de veículos e peões. O metro também estava fechado. Um verdadeiro ambiente de estado de sítio. Só soube à noite que a manif não terminou de forma pacífica: cerca de 300 anarcas (segundo a imprensa, pertencentes ao grupo Disobidienti, do nordeste) confrontaram-se com a polícia, partiram vidros da Banca di Roma e da Banca Intesa e semearam o caos entre o Corso Vitor Emmanuelle II e a mui turística Piazza Navona, onde ficaram cercados pelas forças da ordem. Turistas em pânico tentavam fugir para lugar seguro. As instruções eram, no entanto de contenção, tendo sido mais os feridos do lado dos defensores da ordem que dos rufias. Prisões, apenas sete, em que se incluíam dois estrangeiros. Passei pela zona meia hora depois do caos, desconhecendo completamente o que se passara... Nos jornais de domingo fiquei a saber que a escumalha até profanara (na noite anterior) uma placa de homenagem a Aldo Moro e aos seus cinco guardas que foram liquidados na altura do rapto, nela escrevendo "Bush igual a Moro". A boçalidade a conviver com a indignidade. Soube também que a polícia retirara um cartaz dos manifestantes que, singelamente, dizia Noi e le talibani ("Estamos com os talibã). Palavras para quê?
Quanto à visita propriamente dita, decorreu dentro da maior cordialidade entre representantes de países da Nato, declarando Bush que "Prodi é um amigo". Mas como "old loves die hard", o presidente ianque, após o protocolo oficial, arranjou quase uma hora para estar com o seu velho amigo Silvio Berlusconi... Pelo meio, algumas gaffes, em particular na recepção no Vaticano (de manhã), quando tratou Bento XVI por "Sir" em vez de "Your Holiness" (a conversa decorreu em Inglês). Mais cómico foi o facto de a limusina de Bush não ter podido penetrar na área da embaixada por ser demasiado comprida!

3 comentários:

Anónimo disse...

Ah! já cá estás!
Estava a ficar preocupado. Ainda bem que não me compraste aquela faca, se fosses apanhado com ela no meio dos anarcas, ainda ias preso! eheheheheh!

Abraço
Legionário

PintoRibeiro disse...

E sem muito tempo, eu, a passar para deixar um abraço,

Sikandar disse...

Visco, que asco..