Do que o Pedro se havia de lembrar: pedir-me para listar «as dez piores experiências livrescas» por que passei.
Sou um leitor que normalmente faz uma triagem rigorosa daquilo que pretende ler, por falta de tempo para perder com obras que me não agradem - e por aversão a masoquismos. De aí que não tenha sido fácil lembrar-me de dez experiências de leitura desagradável ou irritante. Assim sendo, aqui ficam oito livros que, como diria Rebatet, quase me caíram das mãos:
- "O Nome das Coisas" de Sophia de Mello Breyner Andresen e "40 anos de servidão" de Jorge de Sena. Dois excelentes exemplos da arte prostituída pela ideologia - e ideologia particularmente nociva! A poesia de megafone em punho, a boa consciência da esquerda, o ódio ao outro campo, particularmente espumoso no caso de Sena.
- "O Capital" de Karl Marx e "Manifesto do Partido Comunista" do anterior em colaboração com o seu amigo, protector, financiador e capitalista Engels. O primeiro tive que estudá-lo no segundo ano de Economia; o grau de simplificações do seu modelo económico, com paralelo apenas na complexidade com que expõe a teoria, é por demais limitador da análise, e de resto pouco mais faz que formalizar o que David Ricardo já identificara, acrescentando-lhe apenas a mais-valia, teoria capaz de atrair um espírito como José Antonio Primo de Rivera (ninguém é perfeito). A necessidade do autor de mostrar o seu saber supostamente enciclopédico, a proliferação de fracções e fracçõezinhas entre os exemplos numéricos completam o grau de penar que este vosso amigo teve que acartar. Foi a minha Sibéria mental!
Quanto ao "Manifesto", expõe com particular perfídia o "ideário" comunista, sendo demonstrador da perversidade intrínseca da ideologia; que, como na altura Proudhon teve a lucidez de ver, conduziria inevitavelmente a uma ditadura de uma ferocidade inconcebível.
- "Vagão J" de Vergílio Ferreira. Esta obra dos inícios da actividade escrevinhadora do ex-seminarista é de uma indigência particularmente notável. O pior dos piores exemplos de um neo-realismo já não assente na ternura para com o povo, que torna interessante ler Alves Redol ou Soeira Pereira Gomes, mas no desprezo do intelectual para com o povo que diz defender. Muito marxisticamente, o autor acha que em condições miseráveis o povo não pode ter dignidade; e vai de pintar exemplos "humanos" desse calibre.
- "O Jovem Törless" de Robert Musil. Este retrato de um colégio nos confins orientais da Alemanha e do percurso iniciático do personagem principal teve o condão de me irritar da primeira à última página. Há algum valor literário na obra mas o estilo hermético do autor, os exemplos abstractos (e frequentemente matemáticos) a que recorre e as situações de humilhação, descritas metodicamente, puseram-me fora do sério. Ainda hoje não sei como consegui acabar o livro.
- "O Jardim dos Suplícios" de Octave Mirbeau. Obra de uma crueldade sem nome, mostra dos cumes de barbárie que o niilismo do século que aí vinha alcançaria. Indigesto e repugnante.
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quarta-feira, setembro 12, 2007
quarta-feira, julho 11, 2007
Corrente literária
De quando em vez lá ressurgem as correntes na net. Desta vez instam-me o Mário e o Réprobo a dizer quais os últimos cinco livros que li ou estou a ler. Inicialmente disse ao Réprobo que já me tinha deixado de correntes, tendo-lhe respondido no seu blogue. Mas enfim, como já são dois os desafiantes aqui fica no Horizonte a relação dos livros que mais recentemente me passaram (ou ainda passam) pelas mãos:
- "Eurico o Presbítero", de Alexandre Herculano;
- "Giulio Cesare", de Martin Jehne;
- "José Antonio, entre odio y amor", de Arnaud Imatz;
- "Jeunesse Immortelle", de Julien Green;
- e a BD "O Refúgio de Kolstov", de Ceppi.
O romance de Herculano há-de ser conhecido de muitos de vós. Estranhamente nunca o tinha lido. Narra a decadência do domínio visigótico na Península e a crescente ameaça islâmica que sobre ela pesa. Uma obra pouco actual, já se vê... O tom é doloroso e plangente, juntando o rigor histórico de um Walter Scott ao desespero romântico de um Goethe. Mas com a originalidade do grande português que foi Herculano.
O segundo é uma biografia de Júlio César que adquiri recentemente em Roma. O leitor fica literalmente preso à descrição das campanhas (eleitorais e militares) do genial estratega romano.
O terceiro é a excelente biografia do líder da Falange. O autor procura analisar a sua carreira sem os preconceitos habituais de esquerda ou direita. Reserva um capítulo de mais de 100 páginas ao estudo da doutrina joseantoniana, estranhamente inserido entre o capítulo que termina com a prisão de José Antonio e o capítulo que narra o envolvimento da Falange na Guerra Civil.
O livro de Julien Green é absolutamente maravilhoso, pela forma elegante e sensível (mas sem espavento) com que o autor lança um olhar sobre dois homens de letras (e não só) ingleses: John Donne e Samuel Taylor Coleridge. A obra é pura poesia em prosa, cada palavra tem um valor próprio e insubstituível, uma verdadeira obra-prima que me entusiasmou como há muito um livro o não fazia. O livro saíu no ano da morte de Green, 1998.
A BD referida é passada no tempo da ex-URSS e narra as peripécias de um anti-herói que tenta entregar uma encomenda política e militarmente sensível e que tem de se haver com toda a sorte de criaturas que circulam nas zonas mais inóspitas do Afeganistão e da Turquia...
Têm agora a incumbência de responder a este inquérito os confrades Lory Boy, JSarto, Flávio Gonçalves, Thoth e Francisco.
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