segunda-feira, maio 22, 2006

Os indiferentes

Um dos sinais distintivos da nossa era é a indiferença, ou, mais exactamente, o indiferentismo, espécie de apatia do homem-lambda perante aquilo que o rodeia. E não é o facto de os militantes do politicamente correcto martelarem cada vez mais as pessoas no sentido de uma maior consciencialização (entenda-se lobotomização) ideológica que contraria este estado de coisas, antes o amplifica, dado caminhar-se para a homogeneização do discurso político e ideológico (90 e tantos por cento dos partidos políticos e outro tanto dos "opinion makers" dizem e defendem praticamente o mesmo).
A quase indiferença do público americano perante a revelação de que a NSA (National Security Agency) fez um acordo com os três principais operadores telefónicos dos EUA (*) no sentido de ter acesso potencial aos registos de toda e qualquer conversa telefónica é sintomático do que dizemos. Após a campanha determinada dos bushistas em controlar a opinião pública americana pelo medo de um novo ataque terrorista, a população entrou em estado de quase total apatia face às medidas crescentemente amordaçadoras daquilo que naquele país se diz estimar antes de tudo o mais: a liberdade. E isso na ausência de outra palavra por lá muito estimada: "accountability", ou seja, prestar contas, justificar as acções políticas de modo a assegurar a conformidade da actuação política com os princípios constitucionalmente consagrados.
Assim, perante a quase total indiferença dos homens de hoje, controla-se o pensamento, a expressão pública das opiniões, os movimentos das pessoas, o que fazem, onde estão, com quem estão, o que compram, etc. Aparentemente, desde que os centros comerciais continuem a pulular de produtos apetecíveis, está tudo bem. Assim seja.

(*) Honra à Qwest, que não cedeu às fortes pressões governamentais e mostrou respeito pela lei das telecomunicações vigente (?) nos EUA.

9 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

Mas atenção, Caro FSantos, as sondagens, por lá, dão uma maioria a favor, não só de ver registadas as suas chamadas, mas... de ser escutada, desde que num âmbito estendido, geralmente, à comunidade, no seu conjunto, tamanho é o pavor do terrorismo. Não foi uma conspiração governamental, mas a cavalgada de uma ideia popular.
Abraço.

Thoth disse...

Belo texto amigo F. Santos. A indiferênça é fruto do politicamente correcto, que causa mais dano do que aquele que pretende evitar. Já o caso Americano envolve a chamada psicologia de massas, que como diria Antístenes: Somos escravos daquilo que nos faz medo. E lá é assim mesmo, produz-se medo, sempre culpa do terrorismo, para que se atinjam mais facilmente determinados fins, que de outra forma seria impensável conseguir concretizá-los. Já a opinião, essa, fundamenta-se no escutar; e como diria um outro filósofo, JAL, nos tempos modernos existe o império da opinião sobre o juízo, e assim vai o mundo meu caro amigo.

Carlos Portugal disse...

Caro Paulo:

atenção também a essas «sondagens», que muitas vezes, principalmente nos States (e também cá na santa terrinha), não são mais do que instrumentos da dita lobotomização das massas, não reflectindo qualquer realidade, antes querendo impor uma realidade virtual ao gosto dos «powers that be». E os lobotomizados, apáticos e idiotas, aceitam, dizendo para si próprios «bom, se a MAIORIA pensa assim... se calhar é verdade».

É triste, na realidade...

Paulo Cunha Porto disse...

Claro que sim, caro Carlos Portugal. Mas esta parece realmente credível, tal é o pavor de novos ataques que exala a população norte-americana, assim como a pressa com que a Administração se sentou nessa garupa. Se fosse truque para injectar essa reacção, provavelmente, teria deixado passar algum tempo, que permitisse ao veneno actuar.
Ab.

Carlos Portugal disse...

Caro Paulo:

Deve ter razão, infelizmente. O que dá um indício da falta de tino e da estupidificação do americano em geral. Como diz o caro Thoth, o medo induzido pelo terrorismo (muitas vezes «fabricado» pelos próprios estados) é manipulado, aproveitado para se atingirem certos fins. E, em contraponto, enchem-se as televisões com escapismos estupidificantes. É a dualidade «perfeita» para uma lavagem ao cérebro social. Nem o Dr. Goebbels se lembraria de uma destas.
E por cá, querem que o português siga pelo mesmo caminho.

Um grande abraço.

Anónimo disse...

Meus amigos,
Podemos passar a nossa vida a constatar estes e outros factos e tentarmo-nos manter à margem tanto quanto possível. A misantropia e a apoliteia são algumas opções! Se são caminhos válidos...? Talvez, numa fase inicial e enquanto os nossos filhos são pequenos (quem os tiver), naquelas idades em que nós ainda temos algum "controle" e lhes tentamos incutir determinados valores. Mas não chega, porque se não nos "irmanarmos" com gente do mesmo calibre e vivenciarmos juntos esse potencial estamos sujeitos a que o trabalho vá por agua abaixo. Restando-nos três soluções: continuando a ser uma espécie de fraco atiradores isolados ou ligados simplesmente pela net, baixarmos os braços e cairmos entre as ruínas ou então permanecer de pé entre as ruínas junto a camaradas que partilhem o mesmo Ideal. E neste ponto não me venham com tretas, pois ou se partilha verdadeiramente ou baixamos os braços e deixamos que o bandido fique de vez com o ouro ( a Pátria, a educação dos nossos filhos, etc.)
Há! E tal e coisa...mas qual é o Ideal que nos une?
Acreditem que há mais do que nos une do que aquilo que nos separa, quem for Chefe que faça a Ponte!

Legionário

alex disse...

"...quem for Chefe que faça a Ponte!"

O meu amigo chamou?! :)

JSM disse...

Caro FSantos
A realidade descrita a preceito. Dizem que a seguir costuma seguir-se o 'homem providencial' que trata de nós, bébés fora de prazo, inertes, com medo do escuro, de tudo! "...perdidos de Deus, no meio da floresta,...sabendo que é inútilmente que choramos".
Um abraço contra a corrente.

Camisa Azul disse...

O clima de terror é aproveitado, e bem aproveitado pelos novos senhores do mundo.