quarta-feira, setembro 27, 2006

Verdadeira e falsa liberdade

«Os costumes locais, que obstinadamente se mantêm, são ainda a melhor prova da perdida liberdade municipal. Na antiga monarquia cada município era regido por sua lei própria. A diversidade dessas leis correspondia à diversidade das liberdades, dos foros, das isenções. Quando Mouzinho da Silveira despedaçou os quadros tradicionais da nação, não foram arrasados apenas os privilégios da nobreza, mas também ficaram aniquilados os dos pequenos lares, os das oficinas humildes, os dos municípios orgulhosos das figuras heráldicas do seu brasão. Destruídos eles, destruídas ficaram as suas liberdades e foram impiedosamente entregues a um Estado sem coração e sem alma, que os iria esmagar sob o duro jugo igualitário e em nome da Liberdade escravizá-los. A uma pretensa liberdade, que não passa de pura abstracção, palavra vazia e estonteadora, sacrificaram-se as liberdades reais e úteis. O desejo de perfeita harmonia jurídica levou à uniformidade, que é (...) um dos perigos mais graves que podem ameaçar a vida social, porque implica fatalmente a própria desagregação da sociedade.»
(Luís de Almeida Braga, "Posição de António Sardinha", 1943, Edições Gama.)

6 comentários:

alex disse...

Está a brincar não está?
Só pode.

(e ainda dizem que o comunismo é que é utópico....)

F. Santos disse...

Mas você leu ao menos o texto? O que lá está é um relato exactíssimo do que sucedeu no nosso país e em muitos outros em que a ofensiva jacobina tornou o Estado no monstro que é hoje, aniquilando tantas das liberdades que efectivamente existiam.

alex disse...

Vamos por 'tú' :) que gosto mais.

FSantos, sendo economista não podes (ou não deves) dissociar a organização da sociedade das transformações económicas.
O que se passou no séc.XIX foi brutais transformações económicas ditaram o fim da sociedade como era conhecida até então.
Vais-me dizer que não tinha forçosamente que ser assim.
Talvez tenhas razão, mas já se sabe que as transformações políticas vêm sempre a reboque e que, na altira, dadas as novas circunstâncias, não era 'prática' a manutenção do antigo sistema.
Curiosamente, hojem em dia seria muito mais 'prática' essa descentralização e essa amenização do centralismo estatal, vindo de encontro às preocupações de alguns grupos políticos.
Não deixa de ser interessante que, actualmente, seriam talvez os Liberais 'puros e duros' a defender algumas das ideias aqui expostas.

"os privilégios da nobreza"

Ainda bem que ficaram sem eles, cambada de pedantes.
Falta agora abolir os restantes 'privilégios' que alguns ostentam e voltar a ideias como os de 1776, tão em desuso hojem em dia.


Presumo então que a noção de:

'Tudo pelo Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado'

(nem o velho Marx se atreveria a tanto 'estatismo')

te repugne, ehehe

alex disse...

LOL!

Se a Associação Nacional de Municípios vê este texto ainda 'adoptam' o Sardinha como ideólogo.

Ahahahah

alex disse...

LOL!

Se a Associação Nacional de Municípios vê este texto ainda 'adoptam' o Sardinha como ideólogo.

Ahahahah

Anónimo disse...

Me encantó que recuperases este texto, que merece ser repetido. Porque, verdaderamente, esta es la historia de la modernidad: la erosión sistemática de las libertades reales en nombre de una Libertad abstracta (Libertad con mayúscula, por favor, que es diosa).
El estado totalitario quiere la absorción y la destrucción de los cuerpos intermedios, sean estos los municipios, las comarcas, las regiones, los gremios, las familias ... lo que sea. Quiere que un poder omnímodo, bajo un control homogéneo, geométrico, uniforme. Curiosamente la entropía es a menudo, en su propio caos, muy homogénea. Pero esto nos llevaría a analizar los modernos estados a la luz del epistemólogo rumano Stéphane Lupasco. Dejemos eso para otra ocasión.
La República mundial del Anticristo, hacia la cual vamos, tendrá este cariz elevado hasta el paroxismo.
Rafael Castela Santos