quinta-feira, dezembro 21, 2006

Uranus

Recebi há dias uma encomenda em que se incluía o DVD de "Uranus", a adaptação cinematográfica da obra-prima de Marcel Aymé, realizada por Claude Berri em 1990.
O filme é verdadeiramente extraordinário, respeitando o espírito do romance de Aymé, o qual retrata a vida numa vila francesa em 1945. Após os bombardeamentos aliados a povoação viu algumas das suas casas serem arrasadas.
O engenheiro Archambauld vê-se obrigado a dar alojamento a Watrin, um professor humanista e ingénuo quanto à natureza humana (genial Philippe Noiret), e a um casal de comunistas. Um dia acaba por albergar também um colaboracionista perseguido pelas milícias comunistas.
Temos também o taberneiro Léopold (Gérard Depardieu), que fecha o seu estabelecimento todos os dias por algumas horas para acolher os alunos cuja escola sucumbiu às bombas. O bom homem, que emborca vários litros de vinho branco por dia, descobre, ao assistir às aulas, uma veia poética até aí insuspeita na sua pessoa. E vai de recitar "Andromaque", a obra de Racine, tentando verificar em cada verso a existência de doze sílbas métricas. Não tarda muito que ele próprio comece a escrever recorrendo ao mesmo processo, o que dá lugar a momentos divertidíssimos, senão reparem: "De-puis-que-j'suis-pe-tit-je-n'ai-bu-que-du-blanc" ("desde pequeno sempre bebi vinho branco") - 12 sílabas!
O ambiente na pequena povoação está envenenado pela preponderância dos comunistas na gestão da mesma e pelo terror que geram pela permanente caça ao "collabo" (noção de âmbito bem alargado). A sua única preocupação é o serviço ao Partido, sendo todas as outras considerações passadas para segundo plano.
É notável a cena em que se dão as boas vindas aos prisioneiros de guerra que regressam ao torrão natal após cinco anos de cativeiro na Alemanha. Archambauld veste o seu melhor fato, que «não tinha uso desde a vinda do Marechal [Pétain]», demonstrando através do exemplo de um cidadão apolítico o carisma, o respeito e a consideração que o comum dos franceses nutria pelo velho soldado que fez dom da sua pessoa à França. Durante a cerimónia de recepção um comando comunista detecta um "collabo" entre os ex-prisioneiros e toca a espancá-lo. Nem os seus colegas de cativeiro intervêm. Apenas o bom Watrin afasta os contendores, desabafando de seguida para Archambauld: «somos todos cobardes e hipócritas, mas é isso que esta época exige de nós».
Muitas outras peripécias ocorrem, muitos dilemas pessoais e políticos assolam os personagens, num dos raros exemplos cinematográficos de exploração da ambiguidade, das incertezas, dos medos e das incongruências do comportamento humano em períodos turbulentos. Uma obra-prima que certamente encheria de orgulho Marcel Aymé.

3 comentários:

Anónimo disse...

Excelente filme, pela sinopse que nos ofereces e que eu desconhecia. Vou tentar encontrá-lo.
Un saludo,
JLL

F. Santos disse...

Atenção, caro amigo, que se comprares directamente de França obténs uma versão sem legendas.

Eurico de Barros disse...

Curioso, tendo em conta que o Claude Berri é tampinha e já mostrou bastante serviço cinematográfico à sua «causa»...