segunda-feira, dezembro 03, 2007

A mafia, hoje e sempre

A revista italiana L'espresso dedicou, na sua edição de 22 de Novembro passado, um artigo à captura do chefe mafioso Salvatore Lo Piccolo. A descrição das suas actividades é incrivelmente similar àquela que nos é mostrada na série televisiva "O Polvo" ("La Piovra"), em particular a excelente sétima série (já sem a personagem do Comissário Corrado Cattani mas com a qualidade inalterada).
Os rendimentos do capo eram na ordem dos 200 mil euros semanais, todos oriundos de actividades clandestinas. A esta simpática soma há que acrescentar os dois milhões mensais que obtinha pela extorsão dos comerciantes sicilianos (il pizzo, prática brilhantemente caracterizada na citada sétima série de "O Polvo"). E não se pense que as vítimas eram apenas pequenos comerciantes; empresas como a Telecom, a Mediaset e a Auchan também pagavam a "mesada" a Lo Piccolo.
A questão seguinte é: o que fazer a tanto dinheiro? Antes de mais, investir na construção imobiliária, com o que contava com a colaboração de alguns políticos locais, sempre necessária para o licenciamento de obras e aprovação de projectos. Depois, em casas de jogo. E, claro, convinha ter apoios na banca; no caso, os investigadores descobriram que a Banca Popolare di Lodi (hoje, Banca Popolare Italiana) fechava os olhos à circulação de dinheiro sujo (denaro sporco), que muitas vezes terminava na Suiça, às vezes transportado em camiões de transporte de valores; foi um destes transportes que foi interceptado pela polícia, que descobriu que quem entregou os valores foi um empresário na área da grande distribuição, dono da cadeia de supermercados Sgroi.
A polícia teve a fortuna de interceptar uma conversa entre três homens de Lo Piccolo, que comentavam que os supermercados Sgroi não teriam tanto sucesso se não fossem "os de cima"; e quem eram esses peixes grossos? O maior (il più grosso) era "o Africano, o das minas de ouro"; trata-se de Robert von Palace, associado de Provenzano que, nos anos oitenta, reciclava dinheiro sujo na Suiça, dinheiro esse proveniente do tráfico de heroína; hoje reside na África do Sul onde detém a empresa de diamantes Rbc Corporation; é também, graças às suas boas relações com o ANC, o fornecedor de água mineral (La Vie) à companhia aérea sul-africana; o currículo de Palace inclui também negócios com o célebre Rocky Agusta, via a Banca del Gottardo de Monte-Carlo. (Os leitores lembrar-se-ão do "caso Agusta", o escândalo de suborno a socialistas belgas para facilitar a escolha pelo governo belga dos helicópteros Agusta para o exército.)
Lo Piccolo, como muitos mafiosos de estalo, começou por ser um subalterno de um grande mafioso, no caso Bernardo Provenzano. Com 19 anos já controlava il pizzo em San Lorenzo. Ao ser preso, Lo Piccolo beija a boca de um dos seus "amigos", Gaspare Pulizzi - cuja boca deve ficar cerrada. "L'espresso" fala de "uma mafia arcaica e um pouco animal". Arcaica ou não, a mafia sabe reciclar-se e adaptar-se ao mundo moderno, com a mestria (e animalidade) de sempre.

4 comentários:

Luís Bonifácio disse...

Caro F. Santos.
Basta mudar os nomes e temos um postal sobre Portugal

CresceNet disse...

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O Réprobo disse...

O Tio Benito foi o único que teve êxito em domar essa gente, mas os Americanos precisaram deles como guarda avançada na Sicília e o caldo voltou a entornar...
Abraço

F. Santos disse...

É um facto, meu caro. Verdades que doem aos nossos democratas.