domingo, dezembro 23, 2007

Alva manhã

Recordava-se. Recordava-se das luzes nas árvores, luzes azuis, verdes, amarelas. Recordava-se do pinheirinho de Natal, rodeado de embrulhos não tão grandes como os sonhos. Recordava-se dos coros nas igrejas, do eco das vozes trazido pelo granito.
Um rumor de vozes indistintas, rostos entenebrecidos pelos anos passados, pela memória enfraquecida, pela dor da perda. Natais mais recentes não deixavam recordações especiais. Mas o Pai Natal que lhe pegara ao colo quando apenas tinha três anos aparecia-lhe com a nitidez de um dia de inverno soalheiro.
Também o seu país fora grande, grande em extensão e em sonhos, e agora era pequeno como o horizonte dos que ainda lhe seguravam o leme, sem dúvida rumando à tormenta última da sua acidentada existência.
Tanta coisa que só dava vontade de abraçar o oblívio. Construir um mundo interior abraçado ao passado que já não volta, romper as névoas do presente mesquinho.
De muita coisa se recordava, muita coisa queria esquecer. Albergar no seio um pouco de paz interior, rostos alegres d'outrora, gritos de crianças brincando no parque, alegres chilreios de inocência que enchiam a alma.
Lá fora neva. Os flocos caem lentamente. A lareira acesa produz sombras fantasmáticas, que afastam a tranquilidade. O menino nasceu, o sonho cresceu, amadureceu - e morreu. É Natal e os sinos repicam. Não lhe sai da cabeça aquele rosto de menina, sentada na laje fria da igreja, mal abafada em farrapos, cabelos louros ondulando ao gélido vento de inverno. Santa inocência da criança a quem não é permitido sonhar!
Esperança morta e sempre renascida. Milagre do Natal, tempo de paz (forçada?), de acalmia das inquietações, repouso d'alma necessário para tornar a vida possível? Milagre do menino, em cujos olhos inocentes parece renascer todos os anos a esperança de um mundo que a não merece.

5 comentários:

pedro guedes disse...

Um belo naco de prosa, meu caro!

Anónimo disse...

Mesmo que não se seja crente o Natal evoca, às almas sensíveis sentimentos, porventura, contraditórios mas, seguramente, relacionados com a nossa memória afectiva.
Parabéns pelo texto lindo! Guardamos dentro de nós o melhor e o pior da vida e o "segredo" (sem conotações c/os livros de auto-ajuda)é alimentarmo-nos das boas recordações sem, claro está, nos esquecermos de viver o momento presente pese, embora, as dificuldades que ele possa conter.
Suguemos, pois, o "tutano" da vida!
MAS

O Réprobo disse...

Meu Caro F.,
as sombras que decorrem da luz expressas por Ti com mão de Mestre são "apenas" mais um pretexto para Te abraçar, desejando-Te e aos Teus um Felicíssimo Natal, prenúncio duma Alvorada para a nossa pobre Terra.

Navegação disse...

Caro camarada

Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

R.Santos

Gazeta da Restauração disse...

Santo Natal, meu caro.