quinta-feira, janeiro 10, 2008

Promessas e acções do Pinóquio

Sem ofensa ao simpático personagem de Carlo Collodi! O artista que nos desgoverna, engenheiro diplomado a um domingo e grande especialista na língua de Cheikspear (e que até sabe que Bush está em visita a um país do Middle West), prometeu, entre outras coisas:
- que iria criar 150.000 postos de trabalho; pois bem, já só faltam 169.274! Confira aqui;
- que não aumentaria os impostos, não demorando um ai para passar a taxa normal de IVA para 21%, 6% acima da que vigora no país vizinho (que agradeceu: se calhar o homem não especificou em que país se criariam tantos empregos);
- que levaria a referendo o tratado constitucional europeu. Como por vezes há o risco de o povoléu se enganar, o melhor é não arriscar; afinal, a ideia de sujeitar o "monstro" a referendo é já de si anti-europeia, algo quase tão grave hoje em dia como ser racista ou anti-semita.
Em resumo: em democracia as promessas só comprometem quem nelas acredita.
Quanto ao resto da sua acção, o balanço é igualmente reluzente: criou condições (legais e materiais) para se fazerem abortos e encerrou maternidades, condenando os nascituros a um parto à la Jack Kerouac (on the road) ou à Manolo; fechou urgências, mostrando o maior desprezo pelas populações; promoveu a acção bruxelosa por excelência da ASAE, contribuindo para o encerramento de milhares de estabelecimentos e para a plastificação da nossa sociedade e o abandono de mais algumas tradições do povo que tanto odeia; retirou crucifixos das escolas e agora pretende "laicizar" os seus nomes; prepara-se para, com o apoio do PSD, liquidar os pequenos partidos, que eram os únicos a ainda dizer umas verdades sobre esta bandalheira; politizou as secretas e anuiu com a multiplicação das escutas telefónicas.
Nada mau: se já estávamos à beira do abismo, com este atleta demos um passo em frente.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Viva o Kuduro!

Não vi, ontem à noite, na RTP1 (em horário nobre...), o documentário sugestivamente intitulado "Como os BuraKa recriam o Kuduro", e dedicado aos «Buraka Som Sistema, projecto que une produtores musicais portugueses e angolanos. Juntos desde 2006, exploraram o kuduro, ritmo angolano pouco valorizado, mas muito dançado pelos jovens dos subúrbios de Lisboa».
O canal público, no seu site oficial, evoca «uma visita ao mundo das danças africanas e à mistura cultural da grande Lisboa. Retrato contemporâneo que contrasta com o estereótipo português do fado e da melancolia. Porque para milhares de pessoas fazer a festa é um imperativo… e celebrar a liberdade da dança uma saborosa descoberta».
Já que se fala em estereótipos, esta breve nota não tem falta deles, estereótipos politicamente correctos, está bem de ver: "mistura cultural", "fado" e "melancolia". Um incentivo a que os portugueses abandonem o seu perfil taciturno e abracem a "festa" que nos trazem os angolanos.
Está explicado o horário nobre.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Notas sobre as eleições americanas

Analisando os perfis dos candidatos democratas e republicanos à Casa Branca, há um posicionamento que cada um terá mas que não nos é revelado. E no entanto não é uma questão de somenos: num país em que o lobby judaico e sionista é extremamente forte, em que o Congresso é maioritariamente favorável às pretensões desse lobby, que têm a dizer sobre ele e a sua agenda política os candidatos?

É capaz de ser muita ingenuidade acreditar-se numa verdadeira mudança no grande país mas as primárias de ontem no Iowa constituíram a meu ver uma deliciosa derrota para os favoritos das sondagens (e quem é que as faz e com que objectivos?) Clinton e Giuliani. Sem menosprezar alguns dos outros candidatos, creio que este duo é o mais hipócrita e despudorado em liça, especialmente a ex-primeira dama, outrora (?) esquerdista de ponta, depois favorável à guerra do Iraque e descarada apoiante das teses mais belicistas do referido lobby. Ambos têm no currículo escândalos financeiros.

Os dois vencedores da noite, Obama e Huckabee, têm um discurso com alguns pontos em comum, nomeadamente no que se refere às preocupações com as classes média e baixa e com o seu repúdio das vantagens fiscais atribuídas por Bush aos mais ricos. O primeiro tem uma mensagem de reconciliação, a que ajudará o facto de não ser descendente de escravos e portanto não ter esse "peso" no subsconsciente. O segundo afirma-se resolutamente contra o aborto e o casamento homossexual mas já parece mais brando no que se refere a questões de imigração.

Céline, racista assumido, afirmava que nas misturas raciais entre brancos e negros era o negro que predominava. Esta concepção parece ser adoptada, sem problemas, pela intelligentsia que afirma que Obama pode ser o primeiro negro a chegar à presidência dos EUA. Na verdade, Barack Obama é filho de um queniano e de uma americana branca.

Ron Paul, independente que é, não tem hipóteses, como in illo tempore não as teve Ross Perot. Mas a sua campanha ficará na história pela simpatia que tem adregado em muitos quadrantes e pelo uso que tem feito da internet, tirando as teses libertárias (ponderadas com o conservadorismo em questões de sociedade) do desconhecimento geral.

Terça-feira há mais.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Drieu

Drieu la Rochelle nasceu há precisamente 115 anos. A Vox NR traz-nos um interessante artigo que reflecte muito da sua visão do mundo. A ler, aqui. Ocasião para reflectir sobre a decadência do mundo a que chamava "burguês", sobre as aspirações da juventude, sobre a democracia (muito interessante a sua interpretação sobre as democracias nórdicas) e o partido único e, em geral, sobre os dramas do século passado.
Exigente consigo próprio, Drieu decidiu pôr fim aos seus dias a 15 de Março de 1945, privando-nos da continuação da sua obra e das suas observações sobre um mundo em decomposição.

domingo, dezembro 30, 2007

Uma prenda para o Nonas

O grande Nonas faz um ano. O blogue do memorialista do nacionalismo começou a sua aventura blogosférica há precisamente um ano e não perdeu o fôlego neste período: notícias normalmente filtradas pelos media, autores que devem ser lidos e relidos, sites inconformistas e até uma lista pacientemente elaborada com os melhores postais da semana - de tudo isto é feito o Nonas, que tem ainda um sentido de humor apurado.
Como é mais que merecido, deixo-lhe aqui uma prenda de aniversário, também para proveito de todos os leitores:
***
«Eisenhower e Harris mantêm uma animada correspondência telegráfica para se felicitarem pela destruição das cidades alemãs ocidentais. Esta correspondência telegráfica é um documento do mais vergonhoso descaramento. Creio que em cinquenta anos a população europeia se afastará com repugnância deste cinismo. Os dois gangsters supremos actuam como se destruir uma cidade cultural do oeste alemão fosse um acto heróico. Vangloriam-se das suas crueldades e barbaridades e assim mostram que não sabem digerir, no seu triunfal apogeu, os êxitos que obtiveram e que nem sequer merecem. Declara-se que ambos os lados se guerreiam sem clemência e que não se pode falar de todo de entreguismo por parte do exército alemão. No quartel general de Eisenhower impressionam-se profundamente com o facto de que todos os soldados alemães aprisionados confiam na vitória e em Hitler, incluindo - como se afirma - com um fanatismo quase místico. (...)
«O Führer decidiu agora que se deve prosseguir com a evacuação a oeste, apesar das extraordinárias dificuldades que isso acarreta. Na prática, esta evacuação não se pode levar a cabo porque a população pura e simplesmente se recusa a abandonar as suas casas e cidades. Teríamos que recorrer à violência, mas onde é que temos homens para fazer uso dessa violência e onde estão as pessoas que se resignariam a essa violência? A decisão que o Führer tomou parte de pressupostos totalmente falsos. Isso é-me confirmado por um relatório de Speer, após uma viagem que fez ao oeste, onde descreve a situação que ali se apresenta. Speer examinou as circunstâncias a fundo e chegou à conclusão de que na prática já não se pode continuar a evacuação. Speer expressa o seu descontentamento com as medidas adoptadas. Defende a postura de que uma política bélica não é conduzir um povo a um afundamento heróico, algo que de resto o Führer aborda com total clareza no seu livro "A Minha Luta", pelo menos no que se refere à primeira Guerra Mundial. Estas palavras aplicam-se sobretudo à diplomacia alemã, que na presente situação bélica não encontrou até agora nenhuma possibilidade de retirar a Alemanha de uma guerra em duas frentes que nos está destruindo e aniquilando pouco a pouco.»
Joseph Goebbels, "Diário de 1945" (excertos do dia 14 de março de 1945), La Esfera de los Libros, 2007 (a edição alemã é de 1977, sendo François Genoud o proprietário dos direitos de exploração das obras de Goebbels).


sexta-feira, dezembro 28, 2007

Lisboa modernizada e envelhecida

Um passeio pela zona do Castelo de São Jorge, em Lisboa, gera alguns sentimentos de perplexidade.
O belo Miradouro de Santa Luzia não vê parar a sua degradação, em particular dos azulejos, que foram sendo surripiados sem vergonha. Ainda assim se podem ver duas representações históricas: o martírio de Martim Moniz (na foto - carregar para aumentar), que permitiu a entrada vitoriosa dos portugueses no Castelo de São Jorge, em 1147; e uma vista do Terreiro do Paço no dealbar do século XVIII, portanto ainda antes do terramoto de 1755.
O Largo das Portas do Sol conserva uma magia que se prende com a bela vista sobre Alfama e o Tejo e com a magnífica luz que o banha. É um dos poisos preferidos dos turistas.
Turistas que, um pouco mais acima, desconsolam o ingénuo português que nutre esperanças de visitar o interior do citado castelo. No meu tempo de meninice podia-se entrar no seu perímetro à vontade, sem pagar; tantas vezes que lá fui andar de bicicleta e apreciar a vista magnífica sobre a cidade, o rio e a outra margem! Hoje, modernos que somos, extorquimos os visitantes à entrada, gerando-se filas intermináveis para a aquisição do ingresso. Por trás das barreiras que se ergueram para vedar o caminho aos eventuais borlistas só se consegue ver parte da estátua do Fundador...
Descendo para a Costa do Castelo nota-se que algumas das belas casas da zona que serviu de habitação a vários membros da família real ao longo dos tempos estão recuperadas - e à venda. O restaurante Chapitô oferece uma vista magnífica mas as refeições, de que desconheço a qualidade, são bem puxadas. Em toda esta zona o trânsito é condicionado.
Mais abaixo, a velha padaria onde a minha avô me comprava magníficos bolos está transformada em restaurante. Estamos agora na zona do Mercado do Chão do Loureiro, imortalizada na película de Arthur Duarte "O Costa do Castelo". Mercado que já não existe: o impressionante edifício de três pisos onde tantas vezes acompanhei a minha avô nas suas compras está ao abandono, conseguindo-se ainda assim vislumbrar algumas bancadas de pedra, onde as vendedeiras expunham os seus produtos. Arrepia ver-se aquele espaço abandonado, espaço outrora cheio de gente (e onde me horrorizava com a morte ao vivo dos coelhos). Toda esta zona da cidade está cada vez mais envelhecida e os moradores estão condenados a comprar os seus víveres em um qualquer Pingo Doce.
Uma das atracções da "praça" (como designávamos o mercado) era a possibilidade de, após as compras, se poder apanhar um elevador até ao terraço, de onde se tinha uma bela vista sobre a cidade. O terraço ainda lá está e o acesso continua livre; lá abancou um café com esplanada, lembrando os assentos uma recolha afortunada de um sem-abrigo (no meu tempo designado por vagabundo - mas, sendo a sociedade culpada "destas coisas", o ónus da designação passa para ela): sofás de aspecto desleixado e até um banco de ginástica! O chão está sujo e descuidado. Descendo junto ao mercado até à Rua da Madalena maior se torna a desolação, com as ruas sujas de tudo e mais alguma coisa e com as paredes colonizadas pelos infames grafittis, que se tornaram a imagem de marca da Europa moderna e tolerante.
Para concluir a passeata há a expectativa de subir o Elevador de Santa Justa - mas também aqui a fila de turistas desencoraja o nativo, já um pouco abatido e com as pernas a pedir descanso.

domingo, dezembro 23, 2007

Alva manhã

Recordava-se. Recordava-se das luzes nas árvores, luzes azuis, verdes, amarelas. Recordava-se do pinheirinho de Natal, rodeado de embrulhos não tão grandes como os sonhos. Recordava-se dos coros nas igrejas, do eco das vozes trazido pelo granito.
Um rumor de vozes indistintas, rostos entenebrecidos pelos anos passados, pela memória enfraquecida, pela dor da perda. Natais mais recentes não deixavam recordações especiais. Mas o Pai Natal que lhe pegara ao colo quando apenas tinha três anos aparecia-lhe com a nitidez de um dia de inverno soalheiro.
Também o seu país fora grande, grande em extensão e em sonhos, e agora era pequeno como o horizonte dos que ainda lhe seguravam o leme, sem dúvida rumando à tormenta última da sua acidentada existência.
Tanta coisa que só dava vontade de abraçar o oblívio. Construir um mundo interior abraçado ao passado que já não volta, romper as névoas do presente mesquinho.
De muita coisa se recordava, muita coisa queria esquecer. Albergar no seio um pouco de paz interior, rostos alegres d'outrora, gritos de crianças brincando no parque, alegres chilreios de inocência que enchiam a alma.
Lá fora neva. Os flocos caem lentamente. A lareira acesa produz sombras fantasmáticas, que afastam a tranquilidade. O menino nasceu, o sonho cresceu, amadureceu - e morreu. É Natal e os sinos repicam. Não lhe sai da cabeça aquele rosto de menina, sentada na laje fria da igreja, mal abafada em farrapos, cabelos louros ondulando ao gélido vento de inverno. Santa inocência da criança a quem não é permitido sonhar!
Esperança morta e sempre renascida. Milagre do Natal, tempo de paz (forçada?), de acalmia das inquietações, repouso d'alma necessário para tornar a vida possível? Milagre do menino, em cujos olhos inocentes parece renascer todos os anos a esperança de um mundo que a não merece.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Adeus, Cortina de Ferro...

Hoje fomos bombardeados com a boa nova: já se pode ir de Talinn a Lisboa (cerca de 4000 quilómetros) sem parar em qualquer fronteira. E frisa-se que a adesão dos países bálticos, da Polónia, da República Checa, da Hungria e da Eslováquia (além de Malta e Chipre) ao Espaço Schengen é um fim simbólico para a Cortina de Ferro.

É, antes de mais, uma boa nova para os traficantes: de droga, de mulheres e crianças e para todos os patifes encartados que entram e saem de países sem o menor controlo; é também uma vantagem enorme para os imigrantes ilegais que, desde que consigam aceder ao dito espaço, se podem evaporar sem qualquer controlo possível.
Quanto à Cortina de Ferro... Se se recordam, o mundo comunista caracterizava-se por: planeamento central da economia, determinando-se o quê e em que quantidades é que se podia produzir em cada região; o predomínio do materialismo na vida das pessoas; o aborto livre (com excepções temporárias e localizadas); a "cooperação"; os interesses globais em detrimento dos interesses "mesquinhos" dos países ou regiões; um controlo tendencialmente crescente sobre o que se pode escrever, publicar, expressar, questionar. Nada que se verifique na União Europeia...

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A lei dos 5000

«A república governa mal - mas defende-se bem», dizia Maurras. A lei dos partidos, que inviabiliza a existência de movimentos políticos que tenham menos de 5000 militantes, é disso um excelente exemplo. Cozinhada pelo Bloco Central, aceite pelos três aspirantes à gamela (como dizia Garcia Pereira ontem à noite no debate da SIC Notícias), esta lei protege ainda mais os partidos com representação par(a)lamentar, livres que estarão dos "maçadores" que, do MRPP ao PNR, ainda vão criticando o regime. Sim, porque a oposição parlamentar anda apenas à caça das prebendas e cargos que o apetecido poder traz, não pondo na verdade em causa o regime, apesar de algumas aparências de indignação:
- o CDS/PP, apesar de algumas posições pontuais mais ideológicas (como no caso do aborto), é daquela direita que, desde que os negócios corram bem, anda satisfeita com a democracia;
- o PCP, ao contrário do que se pensa normalmente, foi salvo pelo 25 de Novembro (obrigado, Melo Antunes) e, ao arrebanhar dezenas de câmaras municipais, sobretudo no Alentejo, teve a devida recompensa por se acomodar ao regime;
- já aos representantes da esquerda-caviar, que fogem dos proletas como o Diabo da Cruz (ai, este povinho ignorante!), satisfaz a adopção pelo governo de algumas questões ditas fracturantes (aborto, casas de chuto, casamentos homossexuais), bem como o financiamento de projectos kulturais igualmente "radicais".
Apesar dos seus deméritos programáticos, partidos como o MRPP e POUS fazem parte do folclore deste triste regime e, por vezes, até dizem umas verdades que a nomenclatura no poder tem que engolir. Já o PNR tem uma intervenção mais dinâmica e provocatória, embora não se tenha (e se calhar não o quis fazer) livrado da fama de reduto de extremistas; mas desde as autárquicas intercalares em Lisboa que estava a ter um destaque inusitado na imprensa e até na televisão, o que não deve ter agradado a muita gente, pois a mensagem nacionalista que Pinto Coelho andava a passar tem grandes condições de ser bem acolhida pelo povo desideologizado mas com um fundo patriótico.
Se querem que vos diga, acho que o regime mal parido em Abril fica mais coerente com o sectarismo (neste caso de extremo-centro) que nunca abandonou - e que de resto está bem espelhado no preâmbulo da Constituição.
Enfim, já não falta muito para a RTP Memória se poder dedicar à retransmissão dos épicos tempos de antena do MRPP, que se iniciam por uma Internacional há muito coberta de teias de aranha na estante onde dormem os discos de vinil dos quadros do PCP!

terça-feira, dezembro 18, 2007

Quatro anos a lançar chamas

Azar o do Dragão! Querer baptizar o seu blogue, nascido há exactamente quatro anos, "Lança Chamas" e abdicar, por incompatibilidade da nossa cedilha com as limitações da anglo-grafia. Ficou-se pelo equívoco "Dragoscópio", que assim à primeira parece ser o nome da página pessoal do ex-consorte da Madame Carolina Salgado!
Chamas não têm faltado, chamuscando um sem número de cretinos que pululam por aí como moscas. E com direito a livro e tudo (cuidado com as bisarmas moldavas, minha gente!), que enviou aos compradores com amáveis dedicatórias, com que só alguém que toma a atitude como absoluta se espantaria. Tal como um dos seus grandes inspiradores, Louis-Ferdinand Céline, o excelentíssimo Dragão tem uma humanidade enorme, não aquela falsa humanidade-babo-e-ranho-com-direitos-do-homem-e-culpabilidade-ocidental-pelo meio mas um sentido agudo do que é justo e são. E é a percepção desse sentido que torna a sua leitura gratificante. São desabafos de uma profunda mágoa mas que nunca caem no niilismo, porque a nossa labarédica criatura tem valores - embora não os ostente.
E o valor do blogue é inestimável.

Alameda nº 10

Um pouco aos trancos e barrancos, ao sabor da disponibilidade dos seus colaboradores, lá vai a Alameda Digital cumprindo a sua missão de fazer chegar aos internautas uma visão da actualidade, da história e da cultura não impregnada pelos preconceitos esquerdistas vigentes, que formatam a grande maioria dos seres que deveriam ser pensantes.
Mantém-se a prática de um tema por número, sendo o desta edição "Tradição e Modernidade". Permitam-me destacar a estreia nestas lides do nosso estimado Miguel Vaz, versando sobre Cottinelli Telmo. De facto, uma das virtudes da revista tem sido o de angariar colaboradores de diversas idades e formas de sentir Portugal, tendo em comum o mesmo amor à Pátria.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Prémio por bom comportamento

O Portugal Diário acha que Irene Pimentel, a galardoada deste ano com o Prémio Pessoa, não se esquiva a temas polémicos e difíceis, sempre (descansemos!) com «esforço de rigor intelectual e objectividade académica», frisa o júri do Prémio. Esta historiadora, que esteve "ligada às organizações de extrema-esquerda quando era nova", beneficiará da indulgência com que normalmente esse pedigree é encarado pela intelligentsia coeva? É que "temas polémicos" como o Estado Novo são abordados da forma menos polémica possível pelos historiadores que o país (qual?) consagrou, recorrendo-se aos chavões e maniqueísmos de sempre.
Sai premiado o conformismo, de tal forma que se pode afirmar que estes galardões são como que um prémio por bom comportamento...

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Um tratado

Mais uma vez os Jerónimos, esse glorioso símbolo da portugalidade, alberga a assinatura de mais um acto de abdicação pátria em favor do monstro que nos tem inundado de dinheiro e de regulamentações que quase já nos fazem hesitar se podemos dar dois passos seguidos sem desrespeitar alguma directiva comunitária.
Em 1985 um dos maiores tratantes da nossa história, anafado de auto-complacência (e anafado literalmente), deu o primeiro passo; destituídos das horrendas colónias por decisiva acção do dito cujo, só nos restava fazer o papel do mendigo bem comportadinho, yes-man por excelência ansioso de dar o flanco aos ecus que vinham de Bruxelas. Foi coadjuvado pelo pressuroso nativo do ex-Poço-agora-respeitável-Fonte de Boliqueime, diligente e competentíssimo demolidor da independência nacional. Um bloco central de uma eficiência de fazer inveja ao mais empenhado aparatchik do Kremlin de Bruxelas.
Veio, em 1992, o Tratado Mais-Triste; depois, o de Nice; depois o projecto de constituição, em má hora votado ao desprezo pelas massas, ignorantes como sempre. Temos agora o Tratado de Lisboa, assinado por quase três dezenas de governantes (um deles, envergonhado - mas sem vergonha-, até chegou tarde) e que só depende da boa vontade dos eleitores da velha Eire e dos checos para ser aprovado. Sim, porque, de Sócrates a Sarkozy, promessas de referendo leva-as o vento.
Por cá, o bloco central, a realidade mais palpável e permanente deste regime que leva já mais de três tristes décadas, continua a zelar por que não percamos tempo a ir a votos, maçada maior a que mesmo assim nos obrigam todos os quatro anos. A coisa faz-se: um país com tanta história não pode falhar o vento da história.
Publique-se.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Viva a liberdade!

Por muito que este regime proclame o seu apego à liberdade, é dia a dia mais notório o seu efectivo empenho em a combater. Seja pela acção do SIS, sempre dedicado a espiolhar as actividades dos que incomodam o sistema, seja pela transposição da directiva comunitária que o Conselho de Ministros aprovou hoje e que «impõe a conservação de dados gerados nas comunicações electrónicas».
Sendo assim, a partir de agora os operadores de comunicações têm que manter durante um ano todos os registos de comunicações efectuadas. Bem podem "acalmar-nos" e assegurar que «a proposta não visa o conteúdo das comunicações (sic), mas dados que permitam identificar os intervenientes nas comunicações e o local onde estas foram realizadas», ao mesmo tempo que «estes dados só podem ser acedidos se em causa estiverem crimes que admitam a intercepção e gravação do conteúdo de comunicações (à luz do código penal) e sempre com autorização de um juiz».
Na prática, bastando a autorização de um juiz, qualquer burocrata sem rosto pode ter acessso ao registo de todas as chamadas telefónicas (fixas ou móveis) e e-mails de quem quer que seja suspeito de infringir o código penal.
Mas se todos podemos pôr a cruzinha de quatro em quatro anos de que é que nos queixamos?

Páginas recomendáveis

Continuam muito activas as Edições Falcata. O seu último lançamento é "Porque dizemos Não ao Aborto", de Pino Rauti, combativo membro do MSI e opositor da política de aggiornamento de Gianfranco Fini que na prática liquidou o movimento missino.
A Legião Vertical comemorou há pouco um ano de actividade na net, tendo recentemente lançado o número dois do Boletim Evoliano.
Ambos os projectos merecem a vossa visita - e o vosso apoio.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Tomar Partido...

... é o nome do recomendável blogue de Jorge Ferreira, que completou há dias quatro anos de existência. Como ele benevolentemente diz da minha pessoa, o Jorge é um dos blogueiros «que se ganha sempre em ler mesmo quando não se concorda», mostrando uma constância de princípios e um desassombro na expressão de opiniões que contrastam com a modorra politicamente correcta que é hoje representada por uma percentagem assustadora de fazedores de opinião, veementes na inversa proporção da dignidade e independência intelectuais que demonstram. Felizmente que o Jorge não é desses e por isso lhe damos os parabéns.
Outro blogueiro que, sem complexos, se assume de direita e mostra as mesmas virtudes que o Jorge é o André Azevedo Alves. Por isso tem sido zurzido pela esquerda-caviar e pela direitinha-extremo-centrista-bem-comportada-e-desejosa-de-respeitabilidade-e-da-caução-da-esquerda representada por um agora trânsfuga da Revista Atlântico e que deu um espectáculo indecoroso de ataques à probidade intelectual do André (que, com paciência infinda, os lista aqui).
Hoje em dia, se se quer retirar credibilidade a alguém, é apelidá-lo de simpatizante da extrema-direita: o "linchamento" é garantido. Discordo por vezes do André: ele é liberal e eu ponho no topo das considerações políticas a Nação; ele simpatiza com Israel e eu com a causa palestiniana. Porque fez paralelos entre a escandalosa condescendência que os media dão ao BE e o desprezo a que votam o PNR foi apelidado de simpatizante deste último, sendo que a confrontação entre o programa deste partido e o ideário político do André geraria algo muito próximo daquilo a que em matemática se chama um " conjunto vazio"! Mas que importa, o objectivo desta pseudo-direita apologista do extremo-centro e da aproximação programática à esquerda é isolar as poucas pessoas que, sendo na prática moderadas, defendem com convicções princípios que a coeva predominância da esquerda na difusão das ideias empurrou para uma extrema-direita inexistente.
Um abraço ao André.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

A mafia, hoje e sempre

A revista italiana L'espresso dedicou, na sua edição de 22 de Novembro passado, um artigo à captura do chefe mafioso Salvatore Lo Piccolo. A descrição das suas actividades é incrivelmente similar àquela que nos é mostrada na série televisiva "O Polvo" ("La Piovra"), em particular a excelente sétima série (já sem a personagem do Comissário Corrado Cattani mas com a qualidade inalterada).
Os rendimentos do capo eram na ordem dos 200 mil euros semanais, todos oriundos de actividades clandestinas. A esta simpática soma há que acrescentar os dois milhões mensais que obtinha pela extorsão dos comerciantes sicilianos (il pizzo, prática brilhantemente caracterizada na citada sétima série de "O Polvo"). E não se pense que as vítimas eram apenas pequenos comerciantes; empresas como a Telecom, a Mediaset e a Auchan também pagavam a "mesada" a Lo Piccolo.
A questão seguinte é: o que fazer a tanto dinheiro? Antes de mais, investir na construção imobiliária, com o que contava com a colaboração de alguns políticos locais, sempre necessária para o licenciamento de obras e aprovação de projectos. Depois, em casas de jogo. E, claro, convinha ter apoios na banca; no caso, os investigadores descobriram que a Banca Popolare di Lodi (hoje, Banca Popolare Italiana) fechava os olhos à circulação de dinheiro sujo (denaro sporco), que muitas vezes terminava na Suiça, às vezes transportado em camiões de transporte de valores; foi um destes transportes que foi interceptado pela polícia, que descobriu que quem entregou os valores foi um empresário na área da grande distribuição, dono da cadeia de supermercados Sgroi.
A polícia teve a fortuna de interceptar uma conversa entre três homens de Lo Piccolo, que comentavam que os supermercados Sgroi não teriam tanto sucesso se não fossem "os de cima"; e quem eram esses peixes grossos? O maior (il più grosso) era "o Africano, o das minas de ouro"; trata-se de Robert von Palace, associado de Provenzano que, nos anos oitenta, reciclava dinheiro sujo na Suiça, dinheiro esse proveniente do tráfico de heroína; hoje reside na África do Sul onde detém a empresa de diamantes Rbc Corporation; é também, graças às suas boas relações com o ANC, o fornecedor de água mineral (La Vie) à companhia aérea sul-africana; o currículo de Palace inclui também negócios com o célebre Rocky Agusta, via a Banca del Gottardo de Monte-Carlo. (Os leitores lembrar-se-ão do "caso Agusta", o escândalo de suborno a socialistas belgas para facilitar a escolha pelo governo belga dos helicópteros Agusta para o exército.)
Lo Piccolo, como muitos mafiosos de estalo, começou por ser um subalterno de um grande mafioso, no caso Bernardo Provenzano. Com 19 anos já controlava il pizzo em San Lorenzo. Ao ser preso, Lo Piccolo beija a boca de um dos seus "amigos", Gaspare Pulizzi - cuja boca deve ficar cerrada. "L'espresso" fala de "uma mafia arcaica e um pouco animal". Arcaica ou não, a mafia sabe reciclar-se e adaptar-se ao mundo moderno, com a mestria (e animalidade) de sempre.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Olhó mail!

Quem seguiu com atenção a entrevista de ontem de Manuel Monteiro à SIC Notícias não terá deixado de reparar que MM, falando do papel do SIS na identificação dos "indesejados" que invadiram o PND, menciona "sites, blogues e mails trocados" que permitem claramente aferir do carácter anti-democrático e de todo inadequado aos princípios do PND manifestado pelos "extremistas".
Como se interroga o Manuel, será que «o SIS pode vigiar cidadãos e organizar ficheiros com base nas suas tendências políticas? Podem fazer-se licitamente os cruzamentos de dados mencionados na notícia?» Estará o sistema democrático tão ameaçado pela acção de meia dúzia de rapazes de extrema direita e terá a histeria chegado a tal ponto que o SIS não tenha mais nada que fazer que se entreter a peneirar os blogues, fóruns e e-mails daqueles que supostamente constituem ameaças ao regime? Ou será esta apenas uma manobra para, pela enésima vez, desviar as atenções das massas da desgovernação com que são confrontadas no dia-a-dia?
Pelo sim, pelo não, já sabem que "Big Brother is watching you". Tal como Winston Smith, temos que arranjar um cantinho nos nossos quartos que esteja protegido dos olhares ameaçadores e indiscretos do Grande Irmão.

Pais do futuro

Não tenho seguido com demasiada atenção o chamado "caso Esmeralda". Tal como o meu amigo Corcunda, «há dias em que olho à volta e me sinto fora deste contexto». Embora seja um drama a situação da menina, o impacto mediático do caso é excessivo face a outros problemas que assolam o país e o mundo.
E neste caso é flagrante a manipulação da opinião pública. A utilização permanente dos termos "pai biológico" e "pais afectivos" não é inocente. Se há quem pense que a defesa destes últimos por parte dos jornais e televisões deriva da filiação maçónica do "pai afectivo", eu vejo a questão com maior amplitude: porque é que em vez de "pais afectivos" não se fala em "pais adoptivos"? Porque é que o pai da criança é remetido para o simples papel "biológico", separando-se a concepção do afecto?
A meu ver a mediatização do "caso Esmeralda" configura simplesmente mais um atentado à família, desumanizando-se a paternidade e dando-se a entender que qualquer um, desde que tenha afecto para dar, pode ser um "pai substituto". Já não virá longe o tempo em que "pais biológicos" que sejam considerados "inimigos de democracia" podem ver-lhes retirados os filhos, que seriam entregues a "pais afectivos" - ou a centros de reeducação. Democrática, claro.

domingo, novembro 25, 2007

Censura "Português Suave"

A RTP 2 começou no passado sábado dia 17 a transmitir uma mini-série documental de três episódios sobre a ascensão e queda do comunismo: "Comunismo - História de uma Ilusão". Etiquetada pelo canal público como uma «fascinante série documental», a série teve o referido primeiro episódio transmitido pelas 22hoo. Ontem (ou melhor, hoje), o segundo episódio foi para o ar às... 3h40 da madrugada! Será porque a série se interroga porque «é que milhares de pessoas acabam com a repressão a indignidade e a opressão económica e mesmo assim continuam fiéis ao conceito de comunismo» (o "Português" desta frase é de um nível espantoso)?
Seja como for, assegurou-se que a série passasse a uma total obscuridade. Vai-se sempre a tempo de corrigir os "erros", neste caso o de ter posto no ar uma série inconveniente...